50. Espaçado, o pestanejar azul branco ...
Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de S. Pedro de Alcântara.

Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de S. Pedro de Alcântara.
Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me.
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando.
Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento.
É a sensação de uma ebriedade de inércia, de uma bebedeira sem alegria, nem nela, nem na origem.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos.
Assim como lavamos o corpo, deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter...
Considero então que coisa é esta a que chamamos morte.
Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Há momentos em que cada pormenor do vulgar me interessa na sua existência própria, e eu tenho por tudo a afeição de saber ler tudo claramente.
E, perante a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza dos meus mais originais e frequentes sonhos.
Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.
Reabsorvo-me, perco-me em mim, esqueço-me a noites longínquas, impolutas de dever e de mundo, virgens de mistério e de futuro.
Dormia tudo como se o universo fosse um erro.
Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair.
Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?
E, com as mãos nos bolsos do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a gente.
Qualquer coisa que faça não pensar.
A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal.
Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas.
A que janela para que segredo de Deus me abeiraria eu sem querer?
A fraternidade tem subtilezas.
O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios.
Estou escrevendo, afinal, por fuga e refúgio.
Haja ou não deuses, deles somos servos.