20. Várias vezes, no decurso da minha vida ...
Afasto, com cuidado, o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo.

Afasto, com cuidado, o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo.
Tudo era absurdo, como um luto, e as princesas dos sonhos dos outros passeavam sem claustros indefinidamente.
Encaro serenamente, sem mais nada que o que na alma represente um sorriso, o fechar-se-me sempre a vida nesta Rua dos Douradores, neste escritório, nesta atmosfera desta gente.
São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida.
Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril.
Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu.
Saber que será má a obra que se não fará nunca.
A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado.
Invejo — mas não sei se invejo — aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria.
Nós nunca nos realizamos.
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma.
O patrão Vasques é a Vida.
Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques.
Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato.
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou.
Tenho diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua inclinação na carteira velha, com olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos.
... e do alto da majestade de todos os sonhos, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.
Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê.
Ele mobilara — é impossível que não fosse à custa de algumas coisas essenciais — com um certo e aproximado luxo os seus dois quartos.
Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que, sobre uma loja com feitio de taberna decente, se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.
Onde se apresenta o Podcast do Desassossego. «Para cada central nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir.»