Olá, ouvinte.
O Podcast do Desassossego tem nova morada — anchor.fm/desassossego — e um bom vizinho — anchor.fm/poesiacrua. Saúde!

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Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer.
Tudo é nós, e nós somos tudo; mas de que serve isto, se tudo é nada?
Cães e homens, gatos e heróis, pulgas e génios, brincamos a existir, sem pensar nisso (que os melhores pensam só em pensar) sob o grande sossego das estrelas.
O que sofre sofre só.
Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir.
Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.
Mas os termos "dever cívico", "solidariedade", "humanitarismo", e outros da mesma estirpe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim de janelas.
Tudo para nós, está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós.
São sempre cataclismos do cosmos as grandes angústias da nossa alma.
Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua.
O devaneio, em que naturalmente se perde quem não pensa, perco-me eu nele por escrito, pois sei sonhar em prosa.
Como tudo cansa se é uma coisa definida!
Este livro é a minha cobardia.
Como parabéns do alto a quem não ouve, há uma paz triste na luz dura da lua.
Irmãos na comum insciência, modos diferentes do mesmo sangue, formas diversas da mesma herança — qual de nós poderá renegar o outro?
Falhei, como a natureza inteira.
A natureza é a diferença entre a alma e Deus.
Só um baixo fim vale a pena, porque só um baixo fim se pode inteiramente efectuar.
Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu.
Sim, o que eu sou fora insuportável, se eu não pudesse lembrar-me do que fui.
Durmo sobre os cotovelos onde o corrimão me dói, e sei de nada como um grande prometimento.
Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza.