140. Acontece-me às vezes, e sempre que acontece ...
Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.

Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.
Há muito tempo que não sou eu.
O universo não é meu: sou eu.
(Talvez não seja mais em mim que a máquina de revelar quem não sou.)
O peso de ter que sentir!
E odeio sem ódio todos os poetas que escreveram versos, todos os idealistas que fizeram ver o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam.
Deus fez da minha alma uma coisa decorativa.
Negar o mundo, virar-se dele como de um pântano a cuja beira nos encontrássemos.
E uma das latas caiu, como o Destino de toda a gente.
É que a banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
O apocalipse tinha passado.
Ser compreendido é prostituir-se.
Tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa de minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos.
Seja como for, deixo que seja.
Fitei, Senhor, esse abismo que se não pode ver.
Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo.
Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas, outro continente, ou até outro universo.
Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.
Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida.
Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido.
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
Quero ser tal qual quis ser e não sou.
Reina quem não está entre os vulgares.
É de compreender que sobretudo nos cansamos.
O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão.