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Ep 1 - Antes do Princípio das Coisas

Feb 15, 202124 min
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Summary

Este episódio inaugural de "Uma História de Portugal" mergulha na Idade do Bronze na Península Ibérica, muito antes da ocupação romana. O anfitrião, um entusiasta da história, baseia-se em fontes académicas para desvendar as influências atlânticas e mediterrânicas. A narrativa detalha a chegada dos povos celtas, com foco nos Galaicos e Cónios, e a sua cultura material e imaterial, incluindo festivais ancestrais. Posteriormente, explora a ascensão dos fenícios como potência comercial, a fundação de Cartago e o seu impacto na Ibéria, preparando o terreno para os conflitos com Roma.

Episode description

A Península Ibérica durante a Idade do Bronze. Influências Celtas e Fenícias. Referências bibliográficas: História Global de Portugal, Temas e Debates; direção: Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco, José Pedro Paiva História de Portugal, volumes I e II, Ediclube; direção: João Medina História de Portugal, volume I, Edições Alfa; direção: José Hermano Saraiva

Transcript

Boas-Vindas e Contexto do Podcast

Olá, sejam bem-vindos a uma história de Portugal. Episódio 1. A vida ainda antes do princípio das coisas. Antes de mais, devo clarificar que este podcast não é, nem procura ser, Uma abordagem detalhada e académica dos eventos que moldaram a história do nosso país. Até porque este que vos fala não é um académico nem tão pouco alguém com um profundo conhecimento das lides que envolvem o estudo da história.

ou, mais concretamente, o estudo da história portuguesa. Este vosso interlocutor é apenas um curioso, e um curioso traz consigo a inevitabilidade do erro e da superficialidade.

Deste lado está alguém que se interessa pelo que aconteceu ao longo dos séculos e que nos trouxe até aqui aos dias de hoje, a um tempo em que é possível, por exemplo, gravar um podcast que nos permite ouvir o relato de acontecimentos passados que foram a pouco e pouco, com altos e baixos, com sucessos e fracassos, com vitórias e derrotas, um molde daquilo que somos hoje, para o melhor e para, não diria o pior, mas para o menos bom, vá.

Mas o que vão ouvir não é de todo retirado ou caso da internet sem um mínimo de rigor, mas sim baseado em fontes fidedignas e, essas sim, académicas de pessoas que estudaram... de facto, pormenorizadamente e ao detalhe, as circunstâncias que edificaram o ser português.

Acabei de ler a História Global de Portugal com direção de José Eduardo Franco, Carlos Fiulhais e José Pedro Paiva, que reúne um conjunto de 87 autores que se debruçaram sobre as minudências da nossa história nos seus diversos espectros, político... cultural, económico, religioso, geográfico, artístico, científico, etc. Estes autores, que atempadamente referenciarei, serão a minha pedra de toque para levar de vencida esta empreitada.

Por favor, e como já disse há pouco, considerem-me apenas um interlocutor de gente que realmente sabe da coisa. Este podcast não é a história de Portugal, mas apenas e tão só uma história de Portugal. Dito isto...

A Península Ibérica na Idade do Bronze

Vamos então dar início às hostilidades. E qual é o melhor lugar para se começar? Dirão os entendidos que é pelo princípio. Eu sei, mas começaremos um pouco antes. Comecemos ainda antes do início começar. que, no imaginário luso e numa abordagem mais clássica das aventuras e desventuras do oeste da península, relata a subajamente conhecida resistência do pastor-soldado Viriato à ocupação romana no século II a.C.

Lá chegaremos em breve, mas antes, vamos revisitar o berço da nação durante a Idade do Bronze, ou seja, bastantes séculos antes do início de um dos episódios mais romantizados e romanizados da nossa história. Tuparam? Trocadilho? Boa. Adiante. Como o nome indica, a idade do bronze delimita a época em que se descobriu o bronze.

que é uma designação bastante lata e abrange um período extenso, havendo várias interpretações quanto ao seu início. Mas vamos estabelecer aqui uma data para facilitar a nossa compreensão no que toca a períodos remotos da história. sempre tão subjetivos e que ocorreram em momentos diferentes, consoante as regiões do globo. 3000 a.C., parece-vos bem? Ok, vamos estabelecer.

que o ser humano, há quem diga que por acaso, mas na verdade não se sabe ao certo, um dia, em 3000 a.C., ou seja, há cerca de 5000 anos atrás, mais década, menos década, ou se quisermos ser mesmo picuinhas com isto, mais século menos século, deu por ele a misturar estanho e cobre e com isso forjou o bronze, uma liga metálica mais resistente que os metais cobre e estanho em separado e que, naquela época,

serviu como base para diversos utensílios, ferramentas e, claro está, armas. Não vou entrar em pormenores sobre o que causou e o impacto que teve o bronze, não é o objetivo deste podcast estar amassados com pormenores de interesse secundário para o que aqui quero falar, até porque não tenho conhecimentos para isso, portanto, antes que me apanhe fora de pé e me espatif para aqui ao comprido no chão,

Direi apenas que o bronze foi muito importante, mas mesmo muito importante, para a história da humanidade. E, claro está, também para a pequena história de um certo jardim da Europa à beira-mar plantado, como escreveu o poeta Tomás Ribeiro. ou ainda por plantar nesta época. Mas, enfim, vocês perceberam. Já naquela época, na Europa, existiam, tal como hoje,

diversas assimetrias culturais, sociais e económicas que ajudaram a definir e a demarcar os povos que nela habitavam. A região mais ocidental do continente europeu não era, nem foi, exceção. Os registros existentes centram-se principalmente em peças de cerâmica e utensílios de ouro, prata e, sim, bronze, que demonstram que os povos que habitavam na península receberam influências quer atlânticas, quer mediterrânicas.

Inicialmente parece ter existido uma maior proximidade com os povos das Ilhas Britânicas e do território que hoje compreende a França Atlântica. Dou como exemplo os discos de ouro ou discos solares encontrados em cabeceiras de basto, na região de Braga, de iguais características aos existentes nas Ilhas Britânicas e Irlanda e que tinham, muito provavelmente,

um fito nas cerimónias fúnebres. Os contactos com o mundo mediterrâneco vieram mais tarde e intensificaram-se no final do 2º milénio a.C., talvez por volta do século IX. Outra vez, nunca é demais enfatizar, Deem-me aqui uma margem de erro de mais década, menos década. Antes de avançar, convém clarificar que o território português já vinha sendo ocupado por gentes de uma forma mais ou menos constante num período anterior à Idade do Bronze.

quando o modelo de subsistência baseado na caça e recoleção evoluiu para uma economia de produção de alimentos, com avanços nos métodos agrícolas e na criação de gado, a pastorícia, métodos esses ainda hoje vigentes nas regiões rurais de Portugal. Ainda no período de caça e recoleção anterior a 5500 a.C., no Paleolítico, existem também exemplos que perduraram no tempo e podem ser comprovados com as pinturas rupestres do Val do Coa, no interior norte de Portugal.

ou a Gruta dos Coral, mais a sul, perto de Montemor o Novo, entre diversas outras localizações espalhadas pelo território hoje português. Não confundir Montemor o Novo com Montemor o Velho, perto de Coimbra. Digo isto porque há uns anos eu tinha um trabalho em Montemor o Velho, meti só Montemor no GPS e só quando já me encontrava a entrar no Alentejo é que percebi que estava a ir no sentido contrário para o qual precisava de ir. Sim.

Todos nós temos um pequeno idiota que mora dentro das nossas pessoas e às vezes decide aparecer. Bom, mas voltemos à idade do bronze. Como referi há pouco, o que fazia girar a economia do mundo e a consequente supremacia de regiões ou povos em relação aos demais era o acesso ao metal, quer na sua forma pura ou transformada. Estamos, pois, a falar de ouro, prata, cobre, chumbo, estanho e, claro, bronze.

O território peninsular tinha uma localização geográfica privilegiada para o comércio destes metais, primeiro porque estava numa posição de charneira entre o mundo atlântico e o mundo mediterrâneo, o que facilitava as já consideráveis trocas comerciais entre estes dois mundos. Esclareço que este mundo atlântico se resumia à linha de costas nas regiões exteriores da Europa e não à totalidade do Oceano Atlântico que só viria a ser galgado milénios depois.

Para além da importante localização geopolítica, à época já um fator de relevo nas constantes mobilidades dos povos, e nas consequentes transações comerciais efetuadas entre os mesmos, a Península Ibérica possuía de substanciais jazidas de todos os metais que acabei de citar, o que tornava a Ibéria um lugar particularmente atrativo para se estar e para se prosperar.

Deu por mim a pensar que se tivesse vontade de organizar uns Jogos Olímpicos, já naquela época, pelo menos no que toca ao fabrico das medalhas, matéria-prima não faltaria. Mas quem eram estas gentes que ocuparam o que agora é Portugal e Espanha? Bom, mais uma vez, sem me aprofundar muito no tema, convém alongar-me um pouco sobre quem eram e de onde vieram os povos que habitavam não só o território atualmente português, como grande parte, se não a totalidade da península.

Os Celtas e Cónios na Península

Estes povos eram os Celtas e, mais tarde, os Fenícios. Comecemos pelos Celtas. Ainda hoje decorrem estudos sobre quem era esta malta e de onde vieram. Ao dizer, os celtas devem depender-se como uma etnia que engloba diversas tribos, sendo, portanto, uma designação bastante abrangente de uma míria de povos vindos do centro da Europa, com uma matriz linguística indo-europeia e que fez a sua migração para...

oeste cresce por volta do final do segundo milénio antes de Cristo. Mas neste particular as fontes são divergentes, portanto optemos pelos finalmentos do milénio em questão. Possivelmente, e mesmo só possivelmente, ali há a roda de volta, como diria a minha avó, de 1200 a.C. Os celtas partilhavam uma identidade cultural, linguística, artística e religiosa o que fez com que se caracterizassem por uma etnia coesa de padrões e comportamentos similares.

A primeira referência aos celtas nos registros literários da Antiguidade, que sobreviveram ao atropelo do tempo, é nos dada pelo geógrafo Ecateu de Mileto, no século VI, mais precisamente em 517 a.C., que utiliza o nome Caltói. na língua grega. Mais tarde, no século V, o também grego Heródoto fala de um povo, os Kaltói, lá está, que viviam desde a margem do Danúbio até aos confins ocidentais do continente. Sim, nós.

Éforo, outro historiador grego do século IV a.C., acreditava que os celtas eram originalmente das ilhas do delta do rio Reno, na atual Holanda, e que daí... se espalharam pelo continente, emigrando para fugir não só aos inúmeros conflitos tribais, mas também ao crescente avanço das águas. Pois, os holandeses, para além de ainda não existirem, ainda não tinham inventado os diques.

Já agora, outra curiosidade, a palavra reno advém de um termo celta que significa fluir, como um rio. Ah, pois, nada é por acaso nesta vida. Plínio o Velho, historiador romano do primeiro século depois de Cristo, Refere-se a um povo celta que vive para lá dos Pirineus, na Ibéria, os Celtiberi, Celtiberos. Enfim, é demasiada gente em momentos diferentes da história a falar dos Celtas para não ser verdade.

Já agora, o termo que usamos hoje, celta, é muito próximo, linguisticamente, não só da palavra de origem grega, que já referi, kaltoi, como da designação inglesa. sendo este nome relativamente recente, havendo referência pela primeira vez no início do século XVIII, nos escritos do naturalista galês Eduard Llewyd. espero estar a dizer bem o nome do homem, a quando a sua investigação sobre a matriz linguística de dialetos como o galês ou o gaélico-irlandês, por exemplo.

e classificou-os como sendo pertencentes aos povos celtas. Desde então, o termo popularizou-se. Em Portugal, os celtas dividem-se, grosso modo, em dois grupos de maior preponderância. Os Galaicos, a norte, cujo nome vai dar origem mais tarde à província romana da Galécia e ao território que hoje abrange a Galiza e o norte de Portugal. E os cónios, no sul e na região do atual Algarve, podendo ter habitado até o Val do Tejo ou mesmo até mais para norte.

Povos que migraram para o oeste, do centro e norte da Europa, provavelmente em busca de terras menos povoadas, onde se pudesse viver mais pacificamente, sem correr o risco de, e tendo de novo a referência da sabedoria dos dizeres da minha avó, adormecer vivo e acordar morto no dia seguinte. Ainda hoje, existem diversas evidências que comprovam a sua passagem, dos celtas, não da minha avó, e a sua consequente fixação no território.

Evidências essas de cariz material e imaterial. No norte de Portugal, território ocupado pelos galaicos, podemos ainda hoje visitar os castros e as citânias. erigidos por estes, que não são mais que povoados fortificados em pedra, que em Portugal foi o granito, com uma estrutura a circular na maior parte dos casos, como a citânia de Sanfins, perto de Passos de Ferreira,

ou a cividade de Terroso, junto à atual Póvoa de Varzim. Outro povoado de relevo pode ser visitado junto a Guimarães, a Citânia de Briteiros, este com uma estrutura não circular. Todas estas protourbes situavam-se numa posição elevada e eram muradas para assim melhorar as defesas contra agentes invasoras, pois os celtas não eram parvos nenhum.

No plano imaterial existem na nossa contemporaneidade diversas celebrações que foram integradas no universo da cristandade, mas que na realidade tiveram origem na cultura celta. Ou acham que aquelas fogueiras que se acendem num agosto e a utilização de máscaras e caretos em diversas celebrações religiosas vieram de onde? Ah, pois é. Adivinharam? Dos celtas.

O ciclo das colheitas determinava um ciclo de vida que se repetia anualmente. Assim, o ano celta tinha duas estações. O, espero estar a dizer isto corretamente, Samhain, que findava a época das colheitas e dava início ao inverno. e o Beltane, que fechava o inverno e dava entrada ao verão. Durante o Samhain, as pessoas juntavam-se e faziam um festival onde acendiam grandes fogueiras para convidarem os mortos a visitarem os familiares enquanto se aqueciam junto ao lume.

Tinha também um propósito de despedida do ano agrícola que havia terminado. Há até algumas referências a que serviria de portal, onde se podiam ver os seres que durante o resto do ano se apresentavam invisíveis, como os elfos, por exemplo. Alguém quer ir a um magusto, comer umas castanhinhas e passar uma vista de olhos por alguns elfos? Eu acho que se beberem suficiente água a pé, tudo é possível. Querem mais uma pequena prova de como isto anda tudo ligado?

Samhain significa fim do verão, sendo que o prefixo Sam é a palavra celta para verão. E como se designa verão em inglês, que na sua matriz encontra raízes e influências na língua celta, pois... I rest my case. Hoje em dia celebra-se o dia de todos os santos, o dia dos finados, o Halloween. Todas estas festividades têm uma matriz comum, o Samhain.

O Festival de Beltane, que dava início ao estilo e à época das colheitas, encontra paralelismos na atual Festa das Maias, que advém também das festividades romanas, as florares dedicadas à flora, deusa da florescência e à deusa maia, a sua congénere da fecundidade. Estas festividades romanas e o festival de Beltane têm uma origem comum que, na verdade, é esta profunda relação e dependência que o ser humano tinha com a natureza.

Se um festival ajudasse a apaziguar os deuses e a garantir um futuro mais risonho com uma colheita rica e farta, bom, pelo menos mal não faria. E sempre se divertiam as gentes em tempos em que a diversão era quase inexistente. tão ocupados andavam com outros pormenores da vida mundana, como, por exemplo, sobreviver.

Já agora julgo, sem porém ter a certeza, que a Festa da Espiga, celebrada em Maio, 40 dias após a Páscoa, também encontra a sua matriz no Festival Celta do Beltane. Para além dos Galaicos, a Norte... O sul do oeste da península era provada por outro ramo dos povos celtas, os cónios. A origem dos cónios, ou cinetas, é ainda alvo de alguma disputa e dúvidas de quando e de onde vieram.

A teoria mais comumente aceite é que seriam originalmente da Anatólia, atual Turquia, ou da região do Cáucaso, sendo uma etnia celta ou protocelta. Pensa-se que se fixaram no território hoje do sul de Portugal, no século VIII a.C., mas essa colonização poderá ter ocorrido anteriormente.

Uma das investigações arqueológicas que corrobora a presença dos cónios no sudoeste da Península Ibérica, nessa época, Foca-se no estudo da escrita nas lápides sepulcrais e nas moedas de Salatia, a atual Alcácer do Sal, e parece apontar para sendo pertencente aos cónios, que já possuíam uma forma de alfabeto que precedeu a influência fenícia no território.

A verdade é que pouco se sabe do modo de vida e da influência destas gentes, a não ser que existiram e viveram no sul de Portugal durante o último período da Idade do Bronze, muito provavelmente antes da chegada dos Fenícios.

A Ascensão Fenícia e Suas Colônias

Como não temos uma máquina do tempo para viajar até lá e confirmar, a dúvida permanece e fiquemos por aqui no que toca aos cónios. Os fenícios. Os fenícios foram uma das primeiras potências do mundo antigo e seguramente a primeira grande potência comercial da antiguidade. Não sendo de todo um estado coeso e delimitado por fronteiras definidas, ao invés, a civilização fenícia.

Era caracterizada pela cidade-estado, que partilhava uma cultura, religião e economia similares com as demais, à imagem do que viria a acontecer mais tarde na Grécia. A cidade-estado de Fenícia foi o epicentro da primeira globalização económica, tendo o Mediterrâneo como o seu palco de operações. Pelo menos no que toca à Europa. Pode muito bem ter acontecido algo similar na América, mas como não se sabe, é como diz o ditado.

Olhos que não veem, coração que não sente. Enfim, o comércio foi a pedra de toque para o seu sucesso económico e consequente influência política dos fenícios ao longo dos séculos que se seguiriam. Eram, pois, um povo com uma forte tradição naval e mercantilista que, desde a sua gênese no território de Canã, território que compreende o atual Líbano, a Síria e Israel, por volta de 1500 a.C.,

estendeu a sua matriz e influência ao longo do Mediterrâneo Oriental e, mais tarde, Ocidental. Cidades como Sidon, Tiro ou Bíblos, no Mediterrâneo Oriental, foram os primeiros grandes centros de comércio e poder dos fenícios. Curiosidade, o termo fenício advém do termo latim púnicos, que significa púrpura.

Os fenícios eram denominados de púnicos pelos romanos, devido ao amplo costume de comercializarem abundantemente a cor carmesim e usarem vestes tingidas dessa cor ao ponto de não raras vezes a sua própria pele apresentar essa coloração devido ao desbotar das roupagens.

No próximo episódio abordarei as guerras púnicas entre os romanos e os cartagineses e que virão a ter um forte impacto na posterior ocupação romana da Península Ibérica. Ora, como os romanos chamavam os cartagineses de fenícios, que como acabei de referenciar, em latim significa, e repitam comigo, púnicos,

Daí, as guerras púnicas terem esse nome em vez de se chamarem guerras fenícias e ficaram, para a história, não como guerras fenícias, mas como guerras púnicas, que é o equivalente latino de cartaginês. Confusos? Pois. Eu pelo menos estou um bocadinho. Para o que nos interessa, a influência fenícia foi galgando território para o ocidente e no século IX a.C. foi fundada a mítica cidade de Cartago, provavelmente por fenícios provenientes da cidade de Tiro.

na região onde hoje existe a moderna Tunis, na Tunísia. Historicamente, a data de 814 a.C. está referenciada como o ano mítico da fundação da cidade de Cartago. existindo, porém, estudos que indiciam que a cidade poderá ter sido fundada anteriormente. De qualquer das formas, no século IX a.C., Todo o Mediterrâneo Ocidental foi o palco de operações destes fenícios do Ocidente, sendo que diversas colónias poderão ter sido fundadas até anteriormente, cerca de um século antes.

Urbes como Onoba, a atual Welva, e Gadir, a atual Cádiz, foram fundadas nessa época, ambas para lá do Estreito de Gibraltar ou para cá, caso estejam em Portugal. Em território português, a sua distribuição foi fundamentalmente litoral, tendo partido das colónias do Elva e da região do Golfo de Cádiz. Esta ocupação terá sido programada no âmbito comercial para aproveitar os abundantes recursos mineralíferos da região.

como já referi anteriormente. É de crer que esta integração terá ocorrido com a colaboração dos povos já instalados na região, como os Cónios. Acho que se toda a gente pudesse ganhar mais alguns cobres sem ter de ser trucidado em guerras e guerrilhos locais, tanto melhor.

Os fenícios eram, afinal, uma civilização mais avançada, que construiu a sua prosperidade numa bastante ativa e disseminada empreitada comercial, portanto, eu, se fosse Cónio, optaria por umas compras e vendas ao invés de me meter à abulha com estas novas gentes vindas do Mediterrâneo, mais poderosas e seguramente melhor armadas.

A presença fenícia está documentada primeiramente junto a ambientes estuarinos, inicialmente junto ao Tejo, havendo escavações arqueológicas que comprovam a existência de bairros fenícios nas urbes já estabelecidas da atual Lisboa, Santarém. Em Lisboa, por exemplo, foram descobertas duas inscrições numa lápide funerária com caracteres fenícios propondo a teoria de que a escrita e a língua fenícias terão sido adotadas. Elementos identitários.

Por esta altura, ocorreu também uma alteração profunda da paisagem, com a diminuição da floresta, o aumento da área cultivada e o plantio da vinha. o que indicia um acréscimo da população da região nessa época, bem como uma modificação dos seus hábitos sociais e alimentares. Numa fase posterior, os estuários quer do Sado, quer do Mondego, sofreram influências orientalizantes, bem como mais a sul na região estuarina do Guadiana, no século VII a.C.

Estas relações com o mundo fenício-ocidental provam-se mediante espólios e arquiteturas com diversas categorias, sendo elas defensiva, habitacional ou cultural. Ou seja, muralhas, casarios...

E potes e pratos. Enfim, olaria. De referir finalmente que a presença dos fenícios em Portugal ocorreu várias décadas ou até um século mais tarde depois da fixação no território hoje andaluz, e corresponde à terceira vaga de colonização que se verificou sensivelmente a quando da fundação de Cartago, o que tem uma certa lógica devido ao constante mas contínuo avanço da influência oriental de leste para o ocidente ao longo do Mediterrâneo.

Bom, fico-me por aqui. Acho que ficaram com uma ideia do que se passou na península desde o final da Idade do Bronze e da transição para a Idade do Ferro e para a Antiguidade Clássica. Grosso modo, temos um território com celtas a norte e fenícios a sul. À espera que a história avance e se molde a outra realidade, bem mais importante e preponderante na construção do mundo antigo, a ascensão e o domínio de Roma.

No próximo episódio, a República Romana, potência emergente da Bacia Mediterrânea, vai disputar a supremacia do Mediterrâneo Ocidental com os cartagineses, ao longo de três guerras púnicas. com a anexação do território peninsular por parte dos romanos, senhores da Ibéria, em 206 a.C., e a posterior destruição da cidade de Cartago e a consequente aniquilação do Império Cartaginês, em 146 a.C. O mundo latino veio para ficar, sob muitos aspectos, até aos dias de hoje.

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