¶ Intro / Opening
Oi, meu nome é Natália e esse é o do centésimo octagésimo segundo episódio do Para Dar Nome às Coisas, um podcast que nasceu para ser uma mesa de bar na web.
¶ Introdução: O Dilema da Performance
daquelas que a gente senta e sente que não estamos sós. Um lugar em que a gente pode ser do nosso próprio tamanho, sem precisar esticar e nem se exprimir. Como é que você está? Como é que estão as coisas para você? Como é que está o seu mundo dentro desse mundo? Como é que você está? Eu queria te fazer uma pergunta nessa abertura. Já aconteceu?
De você olhar para uma coisa que você fazia muito livremente e você perceber que o jeito que você fazia essa coisa livremente foi tomado por um engessamento. Vou dar um exemplo mais prático. Já aconteceu com você, de você, de repente, ter sido uma criança que adorava desenhar, pintar, escrever, ter sido uma criança que adorava organizar coisas?
E você fazia isso de um jeito muito livre, de um jeito muito encantado, de um jeito muito único, de um jeito muito seu. E aí na vida adulta, em algum momento, você percebeu que a forma com que você faz essa coisa hoje... É muito mais engessada? É muito mais rígida? Tem muito mais uma preocupação com o resultado do que com a coisa em si? Já aconteceu isso com você? É mais ou menos por aí que vai o episódio dessa semana.
Esse episódio é fruto de um processo de elaboração que levou bastante tempo para eu alcançar. Eu acho que eu já tinha pincelado esse assunto algumas vezes e eu acho que, para dar minhas coisas, ele é muito interessante para mim por isso.
Porque os assuntos que eu trago aqui são assuntos que partem da minha própria elaboração, do meu próprio processo de autoconhecimento. Isso quer dizer que... Às vezes eu vou trazer o mesmo assunto aqui a partir de perspectivas diferentes, porque cada perspectiva que eu trago...
faz parte de um pedaço da elaboração que eu precisei fazer para entender alguma coisa. E aí eu acho que eu já falei talvez desse assunto aqui, mas eu sinto que desse lugar que eu vou falar hoje, é a primeira vez que eu falo. E talvez por ter conseguido encaixar uma peça que eu senti que estava faltando. É como se eu estivesse em um cruzamento. Então imagina, tem uma rua que vai para frente e tem uma rua que corta essa rua.
como se a gente estivesse fazendo uma grande cruz, um símbolo de cruz. E aí é como se eu já tivesse feito esse caminho para frente, mas não tivesse feito esse caminho que corre na horizontal, no meio dessa rua. E aí eu acho que agora veio um pedaço de uma elaboração que eu precisava fazer para entender esse assunto completamente. E se eu estou trazendo isso aqui, é porque eu acho que outras pessoas além de mim...
talvez estejam paradas nesse cruzamento, talvez estejam tentando encontrar uma fluidez nesse cruzamento, tentando escapar da paralisia desse cruzamento. Então, eu espero muito que esse episódio faça sentido para você. Mas que se não fizer, que ao menos ele te faça uma boa companhia. Boa audição.
¶ Minha História de Amor com a Leitura
Tem uma cena, meus amigos de bar, que vira e mexe e volta na minha cabeça, volta a minha memória. Nessa cena eu tenho 17 anos, mais ou menos, 16, 17. Eu tô deitada de costas no quarto do meu irmão, na cama dele, com os cotovelos apoiados em cima do lençol e tô segurando um livro aberto. Meu irmão, nesse momento, não tá em casa, ele tá na escola.
E eu decido ficar no quarto dele, ler esse livro no quarto dele, porque no quarto dele, o quarto dele era o único lugar da casa que batia o sol da tarde. O apartamento dos meus pais era um apartamento que batia o sol da manhã. E aí o sol da tarde só batia no quarto do meu irmão. Então eu amava o quarto do meu irmão à tarde, porque batia esse sol, então o sol passava pela janela e pegava bem uma parte grande da cama, que ficava de frente para a janela.
e gostava muito do quarto do meu irmão à tarde também porque nesse horário as crianças brincavam no parquinho tinha um parquinho bem próximo à janela do meu irmão e eu amava ouvi-las brincar Isso sempre foi um dos meus sons preferidos, enquanto eu morava na casa dos meus pais. Eu lembro de... Meu irmão foi o primeiro a se mudar, dos filhos. E eu lembro de...
Quando ele se mudou, de ter feito do quarto dele um escritório para o home office na pandemia. E eu lembro que logo quando começou a flexibilizar... O barulho das crianças brincando me faziam voltar pro corpo, me lembravam que eu tava ali, que eu tava viva, que no meio daquele horror todo eu tava ali. E pra mim sempre foi um barulho muito curador.
Mas a gente não tá ainda na pandemia. A gente tá anos, muitos anos antes da pandemia. Eu tô com 16, 17 anos no quarto do meu irmão. E eu tô exatamente nessa posição deitada de costas. Deitada com as costas, apoiada na cama. Tô segurando um livro aberto. acima dos meus olhos, mas às vezes eu também desvio os olhos das páginas do livro e fico olhando para o teto branco. Nas minhas mãos está o livro do Dostoiévski, O Crime e Castigo.
E é a segunda vez que eu tento ler esse livro. E nesse momento, conseguindo ler esse livro e compreender esse livro, eu tô tomada por uma euforia dupla. A primeira euforia tem a ver com o fato de que eu consegui engrenar na leitura. É um livro difícil, é um livro extremamente maravilhoso, mas é um livro difícil e da primeira vez eu não tinha conseguido ler. E naquele momento eu tô conseguindo ler.
E a segunda euforia é a gratidão por ter sido alfabetizada. Essa é uma euforia que eu compartilho com muitas pessoas que amam ler. Que é essa sensação de de repente você tá lendo um livro e esse livro... tá completamente em cada poro do seu corpo, você tá muito feliz de ler aquilo, você tá muito feliz pelo autor ter escrito aquilo, você tá muito hipnotizada, sequestrada com aquele encantamento do livro, e aí você é lembrado da satisfação
que foi ter sido alfabetizado. Você fala, cara, eu agradeço muito o autor desse livro, agradeço muito por essa história ter nascido, agradeço muito pela editora ter publicado esse livro, mas antes de tudo, eu sou grata por ter sido alfabetizado, porque isso me permite ler. E é exatamente isso que tinha acontecido, que tava acontecendo naquele momento. Eu tava deitada, tomando solzinho da tarde.
E completamente preenchida por essa euforia de que bom que eu tô entendendo essa história e que bom que eu fui alfabetizada. Eu não fui uma criança prodígio, nem uma adolescente prodígio, nem uma jovem adulta prodígio, nem uma mulher prodígio. Nunca fui prodígio, sempre fui muito comum. Isso quer dizer que eu aprendi a ler com 7 anos, bem na fase que geralmente as crianças aprendem a ler, na fase que a maioria das pessoas aprendeu a ler.
Eu não fui a criança que aprendeu a ler com seis anos, que sabia algumas palavras aos cinco, que já era extremamente inteligente aos quatro, que era aquela criança que os pais apontam e dizem, cara, olha o que ela sabe fazer aos três anos. Não, eu era uma criança extremamente comum.
Eu lembro que eu tinha muito medo de gaguejar quando a professora me dizia que era a minha vez de continuar o texto. Vocês lembram que as professoras faziam isso? Não sei como se fazem ainda, mas ali no processo de aprendizagem, da leitura... Tinha muito esse exercício da professora pedir para que cada aluno lesse um trecho do texto. E aí cada aluno ia lendo esse trecho do texto. E quando ela dizia, continua da última linha, Natália, eu suava frio. Eu amava ler.
Eu amava muito ler, mas eu soava frio quando eu era escolhida pra ler em voz alta. Me dava vergonha, eu tinha medo de errar. Isso quer dizer que eu era tão comum quanto a maioria das outras crianças. Eu tinha vergonha ali de errar em público e das pessoas verem que eu tava errando. Mas eu preciso dizer que esse era o único momento que a leitura me dava alguma sensação ruim. Porque eu amava ler, como eu disse.
Era um momento em que eu me sentia completamente entregue no presente. Eu ficava completamente... imersa nas histórias, as histórias do Pedro Bandeira, por exemplo, eram histórias, a droga do amor, a droga da obediência, eu ficava completamente obcecada por aquelas histórias, eu realmente amava ler. E eu lembro que no fundo da minha sala tinha uma caixa de papelão. Essa caixa de papelão ficava apoiada entre duas mesas escolares.
E a gente podia, eu não sei, eu não lembro exatamente as regras, mas na minha cabeça, na minha memória, eu lembro que a gente podia pegar os livros que a gente quisesse, acho que só tinha que ser um de cada vez. E era uma euforia, assim, era um êxtase pra mim ficar escolhendo entre aqueles livros qual que eu ia levar pra casa, qual que ia ser meu companheiro. Eu ficava realmente feliz de poder escolher.
Na minha escola também tinha uma biblioteca e eu tinha um cartão todo marcado por todos os empréstimos de livro que eu pegava. Quando eu não estava fazendo isso, eu estava encantada com a minha própria habilidade de ler. Eu tenho uma memória tão antiga quanto essa, da época dos 16 anos, mas eu era bem mais nova, eu devia ter uns 7, 8 anos no máximo.
E meu pai estava imbicando o Fiat Uno dele, verde metálico, na entrada do estacionamento. Me lembro como se fosse hoje. Ele estava imbicando ali na entrada do estacionamento, onde ele ia pegar o papelzinho para passar pela catraca. E do carro, eu vi uma placa. Era uma placa amarela, escrita com letreiro em caneta. Não me lembro mais o que estava escrito. Mas eu me lembro de dizer... Mãe, você quer que eu leia pra você o que está escrito naquela placa?
Eu tava fascinada com a possibilidade de aprender a ler, de saber ler. E aí minha mãe sempre dizia assim e eu começava a ler. Fascinada mesmo por decodificar o som que faziam aquelas letras todas juntas. Achando mágico essa possibilidade de conseguir traduzir o que estava escrito. Eu era tão apaixonada por ler Meus Amigos de Bar que eu lia mais de um livro de uma vez. Quando eu cansava de uma história, eu mudava pra outra. E era uma...
Uma questão de... eu não queria parar de ler. Então quando uma história me cansava, em vez de largar o livro e brincar de boneca, ou ver um desenho animado, ou descer pra brincar no pega-pega, eu pegava outro livro. Eu mudava de história. Eu gostava muito de ler. E aí no dia seguinte, quando eu chegava da escola e ajudava minha mãe ali em casa, lembro que uma das...
Duas das minhas funções era limpar o fogão e lavar a louça. Eu voltava para o mesmo esquema. Eu voltava para aquele livro que eu tinha parado no dia anterior. E aí quando cansava, pegava outro. Era sempre assim. Eu lia muito e eu amava tudo.
¶ Da Leitura Livre à Autocobrança
Ler e descobrir várias histórias ao mesmo tempo sempre foi pra mim uma coisa maravilhosa. Eu sempre achei isso incrível. Acontece que os anos foram passando e eu continuei lendo muitos livros ao mesmo tempo. Às vezes tinha dois livros abertos na escrivaninha e mais dois no Kindle, tudo ao mesmo tempo misturado. Mas a forma com que eu comecei a olhar pra esse hábito, de ler vários livros ao mesmo tempo, mudou.
É como se a minha curiosidade pelos livros continuasse a mesma, mas a forma com que eu enxergava isso mudou. Eu não lembro exatamente como é que foi que isso aconteceu, não lembro quando é que isso começou, mas eu lembro de um dia... numa determinada noite, eu olhar para aqueles livros todos abertos ao meu redor e determinar, escolhe um, Natália. Não dá para você ficar lendo vários, escolhe um. Eu comecei a notar naquele dia que nos últimos tempos eu ia abrindo livros...
conforme o meu interesse, e eu ia criando um rastro de livros abertos e não lidos até o fim. Na época, eu entendi que isso tinha a ver com uma curiosidade inata, que sempre fez parte de mim, mas também... Eu defini que isso tinha a ver com uma falta de foco, que precisava ser vista com cuidado. Afinal de contas, eu estava começando a ler vários livros, mas eu não terminava nenhum.
E aí desde então, desde essa noite, que não me lembro se foi a primeira, mas desde essa noite, que foi um marco, eu comecei a ficar extremamente hipervigilante com o meu hábito de leitura. Então, às vezes eu vivi uma experiência e essa experiência me fazia... Querer ler um livro sobre. E por mais que eu comprava aquele livro sobre. Ou eu não me deixava ler imediatamente. Porque eu estava lendo o outro. Ou eu começava a ler e depois logo me corrigia. Escolhe um, Natália. Foque em um.
No momento, aquilo que me parecia curiosidade, interesse, liberdade, fluidez, paixão, virou um momento de atenção, de hipervigilância e eu comecei a me cobrar foco, como se eu tivesse que escolher uma coisa só. Fiquei um tempo com essa sensação de que tava me faltando foco, de que eu precisava escolher uma coisa só. Fiquei um tempo...
observando demais isso numa hipervigilância, me culpando por não focar num livro só. Até que essa sensação de falta de foco começou a ser tensionada por uma outra ideia que foi mas por que eu preciso de foco, né? Essa experiência íntima que é ler meus livros. Quando é que a sensação de foco ficou mais importante que a experiência de ler esses livros todos à minha maneira? Quando é que essas regras rígidas...
se infiltraram na minha maneira de experimentar isso que é tão meu. O que eu tô querendo provar com esse controle todo? E pra quem? Eu acho meus amigos de bar que muitas vezes as perguntas importam mais do que as respostas. Porque as perguntas movimentam mais do que as respostas. As perguntas são um campo aberto. E aí, para a gente conseguir achar alguma coisa, a gente tem que se lançar na experiência.
E por isso que eu acho que às vezes as perguntas valem mais do que as respostas, porque as respostas são um caminho marcado. Elas são uma linha de chegada e a pergunta é a linha de partida. Tudo pode acontecer a partir das perguntas.
¶ A Sociedade da Performance Infiltra-se
são elas que fazem a gente se movimentar são elas que fazem a gente mudar de lugar e foi nesse ponto que eu cheguei hoje eu não sei exatamente quando é que essa experiência com os livros que era livre e aí vocês podem substituir a experiência com os livros
por qualquer outra coisa que venha à cabeça de vocês, mas eu não sei quando que é que essa experiência com os livros, que era livre, autêntica, curiosa, virou algo controlado, engessado, com todos os requintes de um relatório... da sociedade da performance. eu não sei exatamente quando é que essa experiência com os livros que era livre, autêntica, curiosa virou algo controlado engessado com todos os requintes de um relatório que precisa ser entregue eu não sei dizer
Nem pra mim, nem pra você. Mas o que eu sei, e talvez eu pudesse chutar uma resposta, é que esse controle, esse engessamento... Tem tudo a ver com uma coisa que a gente tem vivido nesse momento historicamente, socialmente, que é a sociedade da performance. Que é esse conceito que vai dizer que a gente precisa produzir, render e performar. o tempo todo, não só nos nossos trabalhos profissionais, onde a gente ganha dinheiro para pagar as contas e tudo mais, mas também na nossa vida pessoal.
E por mais difícil que seja assumir isso, eu acho que em algum momento, isso que não deveria entrar na minha intimidade, nas minhas escolhas, se infiltrou na minha intimidade e nas minhas escolhas, feito um cupim.
E aí a quantidade de livros que eu leio e finalizo passou a ser mais importante do que a experiência que eu tenho com eles. E aí uma resposta... boa pra esse tempo histórico, pra esse fenômeno da sociedade da performance, acabou se tornando mais importante do que a experiência que eu tinha com a leitura quando eu era criança e adolescente.
E eu não tô dizendo aqui que eu não tivesse mesmo, que eu não precisasse mesmo de, de repente, uns ajustes de foco, sabe? Mas naquele lugar, nessa relação com os livros, e aqui de novo a gente pode trocar por qualquer outra coisa... O foco nunca foi uma questão. Nunca deveria ter sido a questão. Porque a ideia... com os livros, nunca tinha sido chegar no destino, chegar num lugar. Sempre tinha sido o estado que eu ficava durante esse caminho, durante a travessia, durante a experiência.
Por que eu lia no fim das contas? Por que eu fazia esse caminho no fim das contas? Porque eu amava ler. E isso era o bastante. Isso era o suficiente. Se eu lia três ou quatro livros, isso não era sobre a minha capacidade de foco, a minha capacidade de produtividade, a minha capacidade de retenção. Era porque eu amava ler. Mas aí em algum momento eu comecei a cair numa lógica de engessar uma curiosidade que era nata a endireitar um caminho que sempre foi cheio de curvas e que era gerador de vida.
E isso, não à toa, começou a trazer, na verdade, uma fonte de sofrimento. E não faz o menor sentido isso. Não faz o menor sentido fazer isso. Numa resposta para essa sociedade da performance... E eu gosto muito de lembrar que quando a gente fala em sociedade, a gente tá falando de...
de um grupo de pessoas muito grande, do qual a gente faz parte. Então, para responder a essa lógica que eu internalizei também, porque eu faço parte da sociedade e eu fui afetada por ela, para responder a esse desejo... da sociedade da performance que em algum momento eu internalizei eu comecei a focar muito mais em coisas que não faziam parte daquilo que era minha paixão no início, sabe?
¶ O Perigo de Transformar Tudo em Performance
O problema da sociedade da performance não é estimular a performance ao meu ver. Porque às vezes o rendimento, a disciplina, a métrica é importante mesmo. Então o problema... Pra mim, não é estimular a performance, mas transformar tudo em performance. E o problema de transformar tudo em performance é que a gente começa a se ver querendo ganhar medalha em coisa que sequer é uma competição.
O que nem deveria ser. E aí o que era pra ser só um hobby, só lazer, só descanso, só curiosidade, só diversão, só descoberta, só experimentação, só paixão, vira algo engessado e que precisa ser medido a partir de uma lógica positiva. bem rígida, pra provar pra gente e pro outro que aquilo rendeu.
Pra provar pra gente, pro outro, que aquilo foi produtivo. Pra provar pra gente, pro outro, que a gente aprendeu algo. Esse senso de utilitarismo vai ganhando muito mais voz e mais força ao ponto de levar a zero as coisas que acontecem só porque a gente gosta, só porque a gente é apaixonado por elas, só porque elas nos fazem bem, só porque elas nos trazem bem estar. É esse desequilíbrio, né?
de transformar tudo em performance, tudo em resultado. E aí o que não é performance ou resultado tem que virar performance em resultado e a gente vai se desconectando de outros sentidos de vida e de outros modos de viver.
¶ Diferenciando Jogo e Brincadeira
Como é que a gente sai disso? Eu particularmente não vejo outra saída que não seja lembrar a gente mesmo. Quando é que a gente tá ali pelo jogo, pelo resultado, pela vitória? E tem momentos da vida que a gente entra em campo pelo jogo mesmo, pela vitória mesmo, pelo resultado mesmo, pela métrica mesmo. Tem momentos da vida que é assim que a gente faz.
Porque há momentos da vida que são sobre isso. Mas a gente também não pode esquecer quando é que a gente está entrando só pelo prazer. Só pela brincadeira. E é esse exercício que eu tenho feito com o livro. retomando essa minha relação com os livros. Cara, nunca foi sobre resultado. Nunca foi sobre produtividade. Nunca foi sobre quantos livros eu consigo ler num ano. Nunca foi sobre isso. E aí eu tenho me falado, Natália, volta. Volta.
Não é. Cara, sai desse jogo. Pendura a chuteira desse jogo, porque não é sobre isso. Porque se a gente não fizer a gente mesmo essa diferenciação e cada um vai ter que fazer a sua, tudo vai virar uma coisa só, porque nesse tempo histórico é isso que acontece. E aí eu tenho uma outra experiência em que isso funcionou pra mim, que essa diferenciação funcionou pra mim. Mas antes de contar dessa experiência, queria só compartilhar com vocês algumas coisas que eu lendo sobre...
Sociedade da Performance, me dei conta de que são sintomas dessa sociedade que eu acho que pode ajudar a gente a perceber também quando a gente está indo para esse lugar. São sintomas claros da sociedade da performance. A autocobrança constante. Então é isso, né? Eu acho que eu nunca fiz o suficiente. então eu tenho que sempre fazer mais a lógica da positividade sem critério então tudo é possível se você se esforçar bastante
A cultura do faça mais, então a regra é sempre ultrapassar as metas, se destacar, ser visto, estar sempre disponível, melhorar sempre. E mesmo quando você bate meta... Aí a gente dobra a meta. E a abolição da pausa. Essas são alguns dos sintomas. Que essa ideia do descanso vira quase um castigo. É um pecado. E não à toa falei castigo. Porque é isso. Mesmo quando você está descansando. Você está mal por descansar.
E aí o lazer também... Então, pra gente aliviar essa angústia, o lazer tem que virar produtivo. Assim, eu tô descansando, mas eu tô descansando pra produzir melhor. Enfim, quando li essas ideias da sociedade da performance, eu binguei quase todas.
Mas é isso, eu acho que a única saída disso, uma vez que isso tá... encrustado na nossa cultura, no nosso tempo histórico, é a gente mesmo aprender a fazer essa diferenciação, e eu tenho uma história de anos atrás, uma experiência de anos atrás, em que eu consegui fazer isso, eu queria compartilhar com vocês.
¶ A Lição da Caminhada Pessoal
Alguns anos atrás, eu estava tentando voltar a fazer exercício físico. E o meu cenário era o seguinte. Eu morava na zona sul de São Paulo e trabalhava em Osasco. E eu entrava 11h30 no trabalho. E minha rotina era, eu acordava às 9 da manhã, que era o limite do horário para acordar, tomava banho, tomava café e saía de casa para um deslocamento que, em geral, demorava duas horas.
Então eu tinha que sair no máximo dez e meia de casa. Chegava em casa tarde, chegava em casa perto de umas nove, nove e meia da noite. Tomava banho, comia, via um pouquinho de televisão, ia dormir e no dia seguinte acontecia a mesma rotina. E aí, com o tempo, eu comecei a perceber que esse ritmo pra mim, essa dinâmica, não tava me fazendo bem. Nem fisicamente, nem mentalmente, nem emocionalmente. Então eu olhei pra minha vida ali naquele momento.
E me perguntei, dentro das condições que eu tenho, do cenário que eu estou, o que eu posso fazer para melhorar? Naquele momento eu entendi que eu precisava voltar a fazer exercício físico, porque isso ia me ajudar em vários sentidos. E aí eu comecei a separar ali uma hora para me exercitar.
E nessa de escolher o exercício. Eu lembrei de uma época que eu fazia caminhada. Sempre gostei de fazer caminhada. Mas não era exatamente qualquer caminhada. Era uma caminhada que eu saia de casa. E eu ia seguindo minha intuição. Então eu ia andando.
pelo bairro ia entrando em ruas que eu nunca tinha entrado e aí essa rua me levava a outra rua que me levava a outra rua e aí quando eu via eu falava meu Deus, eu tô aqui aí depois eu ia voltando, enfim aí quando eu tava cansada o suficiente pra voltar pra casa tomar banho e dormir dormir bem, eu voltava. E aí naquele momento eu voltei a fazer isso e comecei a acordar mais cedo, a organizar minha rotina e a reservar realmente aquele tempo ali pra caminhar.
E aí no meio desse processo, eu comecei a sentir como aquela caminhada estava me fazendo bem. Eu olhava para trás e falava, caramba, faz três meses que eu voltei a fazer caminhada e eu já percebo que eu durmo melhor, que as minhas emoções estão mais... equilibradas, que eu tô me sentindo melhor, enfim, eu comecei a perceber que aquilo tava me fazendo muito bem. E essa sensação de bem-estar começou a me mostrar
que eu podia ir cada vez mais longe. Então, assim, nossa, pra além de estar melhor emocionalmente, eu percebo que eu tô melhor, o meu condicionamento físico tá melhor. E eu comecei a perceber que eu tô podia ir mais longe. E eu comecei a ficar orgulhosa disso. E eu comecei a ter vontade de registrar quantos quilômetros eu tava andando. E aí eu fiz isso uma vez... Fiz isso duas vezes, registrando ali no aplicativo quantos quilômetros eu tava andando. E quando eu fui fazer na quarta vez...
eu vi que na quarta vez eu tinha andado menos do que na primeira e na segunda. E aí nesse momento que eu vi que eu tinha feito menos do que em dias anteriores, Eu comecei a ficar preocupada com meu rendimento, com meu desempenho. E fui pra um lugar de... O que será que aconteceu que agora eu tô andando menos?
Nossa, será que o meu rendimento caiu? Será que o meu condicionamento caiu? E fui pra um lugar meio que de julgamento, sabe? Como se eu precisasse sempre ser melhor do que eu já tinha sido. E aí eu lembro que na hora eu me dei conta de... Do lugar que eu tinha chegado. Me dei conta da autocobrança que eu tinha alcançado. E na hora eu pensei. Ou eu mudo essa rota agora. Ou eu vou transformar algo que era bom. Numa competição desnecessária.
Ou eu lembro que eu tô fazendo isso aqui pra colocar o meu corpo em movimento. Ou eu vou entrar numa competição que o objetivo nunca foi vencer. O objetivo inicial nunca foi esse. Não era esse. Então ou eu mudo a rota agora ou eu paro com essa coisa de querer registrar. Ou eu vou entrar num buraco que não vai ser bom pra mim. E aí eu decidi naquele momento que eu não ia mais registrar quanto tempo eu tava andando. Até que eu conseguisse internalizar que o mais importante era o movimento.
¶ Redescobrindo o Prazer no Movimento
Sair todos os dias, ou sair nos dias que eram possíveis pra caminhar, era a métrica mais importante. E hoje, gente, olhando pra trás em retrospectiva, isso faz, acho que, deve fazer uns cinco anos, quatro anos, talvez. Hoje eu olho pra trás e essa memória me ficou muito forte, porque eu percebo quanto foi uma decisão acertada, sabe? o quanto foi uma decisão cuidadosa e quanto foi sábio mesmo ter olhado pra aquele momento e dizer cara, não vai por aí, Natália.
Não vai por aí porque não vai dar bom. Não vai por aí porque você vai se distanciar da razão pela qual você começou. Não vai por aí porque, cara, você vai perder o para quê. Você está indo para um lugar que vai te distanciar do pra quê e você não precisa fazer isso. Hoje eu vejo o quanto foi bonita essa decisão e o quanto foi importante e o quanto foi acertada.
Que esse lembrete de... Não era sobre... não era sobre performance nunca tinha sido sobre não é agora que vai ser então não transforme isso numa coisa que nunca foi que não foi feita pra isso e o mais simbólico disso é que hoje eu faço exercício, né, desde aquela época que eu faço, com o caminho não linear, como é o de todo mundo. E hoje eu registro os quilômetros que eu corro. E mesmo que eu corra hoje, muito menos do que eu já corri um dia, isso não mexe comigo.
e nem me aciona mais o lugar da cobrança porque hoje as coisas estão no lugar certo então hoje registrar ou não registrar Hoje, perceber se eu corri mais ou menos, isso não faz a menor diferença pra mim, honestamente. Porque nessa corrida, e aqui eu tô falando metaforicamente mesmo, o movimento pra mim é o mais importante. O que importa pra mim é que eu tô me movendo.
É que eu tô cuidando de mim, tô cuidando da minha saúde, das minhas emoções, enfim. É que eu tô fazendo o melhor que eu posso nas condições que eu tenho nesse momento. E não é, definitivamente, não é sobre demonizar a métrica. mas é sobre lembrar pra quê e pra quem ela serve em cada momento.
Sabe? É sobre fazer essa diferenciação que eu disse, que é quando que a gente vai entrar no campo pra jogar e aí vale a pena. E aí é importante olhar o resultado, o quanto a gente tá produzindo, a performance, o placar.
¶ Afeto e Autenticidade Contra a Performance
quando a gente tá entrando só pela brincadeira, sabe? Porque no fim das contas, eu acho que é aí que eu queria chegar, das muitas coisas que a sociedade da performance tenta matar em nome desse progresso, em nome dessa melhor versão... Em nome dessa melhor versão mesmo. Eu acho que isso é um bom resumo. Acho que das coisas que mais me assustam e que mais me amedrontam nessa ideia. É o risco da gente perder...
o afeto, o prazer e a autenticidade em coisas que a gente faz porque a gente ama. O risco da gente começar a ler livros... e isso é um exemplo que poderia ser trocado por qualquer outro. E a gente lia livros com desejo, com prazer, com autenticidade, com liberdade na adolescência e na infância, e a gente amava fazer isso. E aí, de repente, a gente tá olhando pra aí,
fazer isso como se isso fosse uma tarefa ser cumprida sabe eu acho que o risco dessa dessa Dessa ideia da sociedade da performance É a gente perder isso Perder o afeto, o prazer e a autenticidade Porque são exatamente essas três coisas Que no fim das contas sempre nos levam de volta pra criança e pra adolescente que a gente foi. E talvez seja com elas que a gente precise se reencontrar agora. Talvez seja com resgatar...
o que mobilizava as nossas versões quando criança e quando adolescente, sabe? Eu tava muito reflexiva sobre isso, assim, me sentindo muito que... Um lugar muito sagrado pra mim, que era o lugar da leitura. Um lugar muito íntimo pra mim, que era a minha relação com os livros. Tinha sido contaminado por essa sociedade, sabe? Da performance. Como se em algum momento tivesse comprado essa ideia. Não sei exatamente quando.
eu comprei essa ideia, não sei exatamente como ela se infiltrou, mas sei que ela se infiltrou porque a minha relação com os livros mudou. E fiquei tentando elaborar como é que eu saía disso. Onde é que estava a porta de saída? E aí essa semana eu consegui entender minha porta de saída era entender que eu não precisava performar aqui, nesse lugar
Nesse lugar eu não preciso performar. Nesse lugar eu não preciso me preocupar com quantos livros eu li, se eu tô deixando livros não lidos no caminho, se eu tô lendo todos, se eu tô lendo mais de um. Eu não preciso de foco nesse lugar. Nesse lugar eu não preciso. Nesse lugar eu não preciso me cobrar produtividade. Nesse lugar eu não preciso me cobrar resultado. Nesse lugar eu não preciso me cobrar métrica. Nesse lugar eu não quero fazer isso. Nessa quadra eu vou entrar brincando.
Nessa quadra eu vou entrar brincando porque o que me interessa nesse jogo é a brincadeira do jogo. Assim.
¶ Decidindo Onde Apenas Brincar
E eu queria trazer muito isso hoje aqui, gente, porque a gente está falando de um fenômeno cultural mesmo. E muito provavelmente essa ideia da sociedade da performance... deve ter se infiltrado em alguma coisa que pra você era muito cara e que era autêntica, prazerosa, livre e que por alguma razão virou engessada, virou rígida, virou... Uma sede por performance. E eu não sei, eu não tenho condições de saber qual é essa coisa pra você, mas eu acho que você tem essa condição de saber.
e talvez o meu encorajamento e o meu convite é pra que você olhe pra essa coisa e que você autonomamente possa decidir se nessa quadra você quer entrar jogando profissionalmente, entrando, pensando em métrica, em resultado, em produtividade, ou se você quer só entrar brincando. E se for só brincando, entre sem essa culpa. Porque entrar brincando em algumas quadras não quer dizer que você não esteja se preocupando com a performance, né?
Porque vão ter áreas que você vai continuar se preocupando com a performance porque é importante. Só quer dizer que você não tá transformando tudo em performance. E não transformar tudo em performance é algo que só os seres humanos podem fazer. Ai, gente, é isso. Espero que tenha feito sentido pra vocês. Espero que tenham te feito uma boa companhia. Tem alguns episódios que assim que eu gravo, antes de terminar de gravar, eles já me fazem muito bem.
e esse é um desses episódios então eu espero que ele tenha gerado coisas bonitas, movimentado coisas em você assim como ele me movimentou espero que ele tenha te feito uma boa companhia se você gostou, se fez sentido pra você e você puder, quiser, conseguir
compartilhar esse episódio nas suas redes sociais. Isso ajuda a gente a chegar mais longe. Se você puder contar também aqui nos comentários qual foi a frase, o trecho, o que mais te marcou, eu vou amar saber. Ou se quiser contar também qual é essa coisa que era tão linda. livre pra você e que hoje é engessada mas que você se compromete a fazer esse caminho de volta eu também vou amar ler
E lembrando que no dia 24 de setembro tem minha palestra sobre o meu livro Medo de Dar Certo no Teatro Bibi Ferreira. O link tá na descrição. Até a última vez que eu vi faz alguns dias, faz uma semana mais ou menos, 60% dos ingressos já tinham sido vendidos. Então se você quiser estar lá com a gente. Aproveita para comprar. Porque é isso. A palestra é em setembro. Mas os ingressos estão indo muito rápido. E é isso gente. A gente se encontra na semana que vem. Lembrando.
que daqui a alguns dias vai ter episódio exclusivo de novo lá no Apoia-se, que é o nosso financiamento coletivo. E se você quiser entrar, o link também tá na descrição. É isso. A gente se encontra na semana que vem. Um beijo e até lá.
