¶ Intro / Opening
Música Música Olá pessoal, sejam todos muito bem-vindos a mais um podcast filosófico, atividade promovida pela Organização Internacional Nova Acrópole do Brasil. E para conversarmos hoje, recebemos o professor voluntário da... sede São José dos Pinhais, no Paraná, Marcelo Silveira. Seja muito bem-vindo, Marcelo. Olá, Danilo, muito obrigado. Olá, ouvintes.
¶ Amizade na Filosofia: Uma Série
Hoje nós vamos começar uma série de podcasts falando sobre a ideia da amizade, naturalmente sobre o ponto de vista da filosofia. Evidentemente não vamos esgotar o tema, Longe disso, e menos ainda vamos trazer aqui verdades no sentido absoluto. Pelo contrário, a gente vai fazer como sempre, conversar, ouvir, refletir, e que cada um de nós possa extrair aquilo que é útil, prático,
E levar a ação para as suas vidas. Bem, Marcelo, esse é um tema muito rico e muito amplo. E nós falávamos aqui, antes de começar a gravação, sobre a relação desse tema com a filosofia. Ou seja, ele é afim à filosofia? Tem correlação? Tem semelhança?
¶ A Filosofia e a Essência da Amizade
Legal, Danilo. Bom... Como a gente tem conversado, esse é um tema muito peculiar para um filósofo, porque a própria palavra filosofia... Significa amor à sabedoria ou também amizade à sabedoria, porque o amor ali do filus, da filia, é justamente o termo que traz a ideia de amizade, de proximidade. Então esse realmente é um tema...
sempre presente na história da filosofia e que possui uma peculiaridade. Porque, embora existam muitos tratados sobre amizade, talvez o ouvinte já tenha... já tenha tomado contato com o da Amizade, de Cícero. ou com a Ética Nicômaco de Aristóteles, que tem dois capítulos dedicados à amizade, tantas outras obras clássicas dedicadas ao tema, a experiência da amizade parece ser daquelas que não se esgotam nunca. Tem tantas possibilidades e tantas formas de experimentar.
quanto às possibilidades humanas e cada contexto, cada época vai encontrar a sua ou as suas, porque efetivamente é uma experiência muito variada. É interessante porque é justamente o tipo de experiência que nos leva à percepção e vamos... notar isso à medida que a gente desenvolva esse e talvez outros podcasts sobre o tema, a ideia de que amizade é justamente um dos fatores que nos ensina sobre a unidade na diversidade humana, na variabilidade humana.
porque ao mesmo tempo nos traz a possibilidade de harmonizar elementos, ou seja, pessoas diferentes, e ao mesmo tempo nos coloca em um ponto de unidade, que é justamente o ponto de amizade. Não somos iguais, mas somos unos em algum aspecto.
Então, não à toa os filósofos de todos os tempos se dedicaram a tentar entender esse fenômeno. E é interessante porque nenhuma explicação parece suficiente. É a amizade... parece não se prestar a uma definição final, a uma interpretação final, senão que sempre nos exige um tipo de experimentação que vai nos levar a um novo degrau, a um novo entendimento do que ela é.
Exatamente, Marcelo. E essa ideia de um novo degrau, um novo entendimento, vai de encontro à pergunta que eu vou te fazer. Antes das obras que você citou, o Cícero, o Platão, o Aristóteles, que vão abordar o tema da amizade com muita profundidade. Obviamente, temos também Calil Gibran, o grande poeta, outros escritores. Em suma, as próprias experiências humanas, as mais dignas e elevadas, nos ensinam no cotidiano o que é amizade. Porém...
¶ Mitos como Arquétipos da Amizade
Antes disso tudo, temos os mitos. E existem mitos que tratam da ideia da amizade, ou seja, o mito como arquétipo. como o modelo ideal do que simboliza a amizade, com mais elevação, com esse degrau que você falou, que a gente vai escalonando, e os mitos são muito profundos e trazem muitas ideias. Eu gostaria que você falasse da amizade dentro dessa perspectiva.
Sim, de maneira geral os mitos antecedem a própria filosofia e acabam por comprovar a antiguidade do interesse do ser humano por essa temática e da importância que sempre demos a isso. Na mitologia... De vários povos existem inúmeros mitos que colocam os enredos sempre tendo como chave central a ideia da amizade, embora isso possa se apresentar de maneiras muito diferentes.
A gente encontra isso na civilização egípcia, a gente encontra isso na Índia, encontra isso na Grécia, em Roma, que geralmente são as matrizes principais, mas também na China, no Japão e em mitos americanos, né? período pré-colombiano, das civilizações que já existiam na América. Porém, pra citar um mito que pra mim é o... talvez o mais especial em relação a esse tema, porque não tem amizade como parte do enredo, senão que fala do nascimento de uma amizade, existe uma passagem dessa...
¶ O Mito de Teseu e Pírito
personagem tão especial da mitologia grega, que é a figura de Teseu. que talvez todos conheçam, porque Teseu é famosíssimo em função do seu combate com o Minotauro. É desse Teseu que estamos falando. Então a parte mais conhecida do mito é a parte em que ele, enfim... liberta o povo aí do jugo desse monstro, o Minotauri, que tem todo o seu simbolismo. E é ajudado por Ariadne, uma jovem que se apaixonam também.
E a todo o enredo que ocorre aí. Porém o mito ele continua e nem sempre essa continuidade do mito é conhecida de todos. Teseu depois do embate com Minotauro. Ele é obrigado pela deusa a abandonar Ariadne em Naxos. Isso é uma grande prova para ele. Vai ter e viver outras peripécias. Até que já bastante maduro, e esse é um ponto importante, bastante maduro, bastante adulto, já não tão jovem, ele vai ser o rei de Atenas.
durante muito tempo. Então esse é o período mítico de Atenas, quando Teseu é o seu rei, o seu grande governante. E ocorre que já em um momento de maior tranquilidade, digamos assim, passadas essas aventuras juvenis e de grandes combates, Teseu, no ensejo dessa experiência de estar no governo de Atenas, fica sabendo que há uma outra figura que também era conhecida como um grande herói da época, que era Pírito ou Perito.
que talvez duvidoso da grandiosidade, da grande fama que possuía Teseu pelas suas conquistas e pelos seus combates,
Coloca ou aprova de alguma maneira. Na verdade, talvez motivado pela inveja ou pela curiosidade, não sabemos. O mito não traz esses detalhes. O que se sabe é que em determinado momento, Teseu é informado de que perito na planície de maratona... está furtando o seu gado está roubando os seus bois que na época era a riqueza, a preciosidade maior de qualquer um E obviamente Teseu, como um grande guerreiro, se levanta, se arma e vai atrás do seu suposto inimigo.
Que é perito e que está roubando o seu gado. E aí é que vem a passagem interessante e ao mesmo tempo comovente. Algo muito curto, mas muito belo, que pode nos trazer muitas reflexões, Danilo. Quando Teseu encontra Pirito, na planície de Maratona, Os dois estão armados para combate, os dois são grandes heróis, os dois são grandes guerreiros e agora podem medir as suas forças e bom, um deles vai sair vitorioso se esse combate acontecer.
Mas o que ocorre é que Perito nunca tinha tido contato com Teseu, e Teseu é o grande herói, é o grande mestre aí nesse cenário. Então... Quando o perito olha nos olhos de Teseu, ele reconhece Teseu pela sua grandiosidade de alma, digamos assim. E reconhece que estava cometendo um delito, um crime contra alguém muito alto e muito nobre. a quem ele deveria estar servindo e não furtando. Então, o perito se coloca de joelhos, olha nos olhos de Teseu e, sem ameaçar o combate, submete.
E diz a Teseu, seja isto mesmo, que pena me exiges. Então ele se submete a Teseu e aceita qualquer pena que Teseu, o rei, o grande herói, imponha sobre ele. E aí é que vem o ponto mais interessante, porque uma vez que Pirito consegue reconhecer Teseu, Teseu também consegue reconhecer Pirito. E por isso Teseu olha nos olhos de Pirito e diz, bom, tua pena é a minha amizade.
Ou seja, a penalização de perito, pelo que estava fazendo, é agora tornar-se amigo de Teseu. E o mito narra que essa foi uma das maiores, se não a maior amizade de todos. Todos os tempos, porque a partir daí se tornam amigos muito íntimos, muito fiéis e que vão viver novas peripécias. Agora já não peripécias ou combates solitários, senão que vão aprender.
medir suas forças juntos e avançar juntos e promover aventura juntos e nunca mais vão ser vistos de maneira dissociada sempre estão trabalhando conjuntamente. A senda do mito, obviamente esse mito continua, mas a senda do mito mais importante é essa e narra justamente o nascimento de uma amizade em meio ao campo de batalha, digamos assim, entre dois... supostos inimigos. E daí, por curta que seja a passagem, nós podemos extrair muitas ideias, Danilo.
¶ Amizade como Vínculo Sagrado
Sem dúvida, Marcelo. Enquanto você falava, eu estava aqui pensando em uma ideia que tem a ver com esse tema também, desde uma perspectiva mais sagrada. Quando a gente entende que a amizade é algo sagrado, é algo muito profundo, muito elevado, Isso faz com que a gente tenha mais consciência e uma ação melhor também, um cuidado melhor com os amigos, com as pessoas de um modo geral.
Quando a gente pensa o contrário, ou seja, entendendo a amizade como um vínculo qualquer, corriqueiro, efêmero, enfim, algo trivial, isso vai diminuindo a experiência da amizade. Isso é algo bem prático quando a gente coloca coração nas coisas que a gente vai fazer com as pessoas. pessoas que a gente ama, isso do ponto de vista prático.
faz com que a gente se aproxime das pessoas, e o contrário também, e esses vínculos vão, através das experiências, se fortalecendo. Eu gostaria que você falasse disso, Marcelo, da amizade com esse vínculo sagrado que supera as provas, que amplia a possibilidade... ou seja, essa concepção sagrada da amizade vai fortalecendo os vínculos que a gente tem com as pessoas e conosco mesmo também. Gostaria que você falasse um pouco mais dessa ideia.
¶ Distinguindo a Amizade de Outros Amores
Legal, Danilo. É interessante porque parece que os antigos tinham uma visão talvez até mais profunda que nós em relação a essa ideia da amizade como algo mutável e que pode ter muitas camadas. E por esse motivo... Não há uma definição precisa, uma tradução exata para a palavra filia ou para o amor filotes dos gregos. Tampouco para o termo que utilizavam os egípcios para falar disso, que era o seneb, ou maitri, sânscrito. São palavras que englobam em si...
Inúmeras interpretações possíveis, e já na época de Platão e Aristóteles isso era interessante e ao mesmo tempo um problema, porque quando precisavam definir essa ideia de filia, de amor amigo, digamos assim, não era algo assim. assim tão fácil. E isso nós podemos compreender desde a seguinte perspectiva. Você falava, né? Falar da amizade inevitavelmente é falar do amor. Bom, que tipos de amor nós conhecemos? Conhecemos alguns tipos de amor.
O ouvinte talvez conheça esses tipos de amor. O amor de duas pessoas, um relacionamento num casal. O amor da amizade, que às vezes é de colegas, às vezes é aquele tipo de relação muito próxima, muito íntima. de confidência, inclusive, o amor entre irmãos, de sangue, entre pais e filhos, entre pessoas que participam de um grupo que tem uma finalidade comum, ou seja...
O amor dos avós pelos netos, que é diferente dos pais pelos filhos e vice-versa. São muitas formas em que as nossas relações podem se expressar. E a amizade tem a peculiaridade... e talvez a altitude de sentimento, digamos assim, de poder estar presente em qualquer um.
desses tipos de relações, ou seja, você pode ser o amigo da sua companheira e vice-versa, você pode ser amigo do seu pai, do seu irmão, mas o inverso não é verdadeiro, não necessariamente por ser um casal, por ser filho, por ser irmão, você vai ser amigo. Então parece que amizade é algo que pode e precisa ser construído nas relações. Temos inúmeras relações e dentre essas relações variáveis que envolvem tipos de amor. específico, em algum momento podemos subir esse degrau
De colocar a amizade como elemento que nos unifica para além dessas formas que dependem de circunstâncias, né? As formas da relação entre duas pessoas, em um casamento, em um namoro, entre dois... dois irmãos, entre pai e filho, depende de circunstâncias. Se não vai amar o pai de outro, você vai amar o seu pai, a sua mãe.
É uma circunstância você ter este pai e esta mãe. Agora, amizade você pode ter por qualquer pessoa, indiferente dessas circunstâncias. E esse é um ponto muito interessante aqui. Leva a amizade a ser vista como um sentimento de amor sagrado e muito elevado. E tem uma característica muito interessante na amizade. Quando se torna verdadeira. Que é justamente o fato de que quando você ama.
profundamente alguém, sem que isso gere algum tipo de desejo, de dependência, como que é o que acontece num relacionamento familiar qualquer que seja, ou até social que seja. O que surge como consequência disso é um desejo de servir ao outro. E não um desejo de receber algo do outro que envolve a maior parte das relações, das outras relações. Então esse é um ponto interessante porque nos coloca em contato com uma virtude, com um tipo de valor.
muito importante pra experiência humana, que é justamente a ideia de colocar-se a serviço dos demais, colocar-se a serviço do amigo, colocar-se a serviço da humanidade. Como um todo é depender do grau de amizade, de sentimento, talvez até de devoção que a gente desenvolva. Então efetivamente podemos ver a amizade como algo sagrado.
¶ A Complexidade da Verdadeira Amizade
Algo que eu considero interessante também é que não existe uma fórmula mágica para isso. Talvez para tornar o assunto mais palpável para os nossos ouvintes, Danilo, a gente poderia colocar certas perguntas. São perguntas que eu faço em relação... a esse tema. Se eu perguntar para cada um dos que estamos ouvindo agora, se possui amigos, possivelmente vão responder que sim.
Alguns mais, outros menos, né? Talvez possam nomear quem são os seus amigos. Se eu perguntar, ok, e o que é a amizade? Provavelmente a maioria vai ficar desconcertado sem saber explicar muito bem o que é. Porque sente esse amor, sente essa proximidade com alguém ou alguém, mas não consegue explicar racionalmente por que isso acontece.
Isso nos leva a degraus ou a alturas distintas de relações, que às vezes confundimos com isso que estamos chamando de amizade. Por exemplo, o coleguismo. Trabalhamos juntos ou fazemos um trabalho juntos e agora somos colegas.
colegas de classe, colegas de trabalho e pensamos que isso é amizade. Mas o primeiro vento que passe por nós dissolve esse tipo de relação e você não sustenta isso por longo tempo. Então não estamos falando da amizade porque a amizade ela tem... a característica de ser duradoura e de poder permanecer, mesmo que as pessoas não estejam juntas, e não possam mais estar juntas.
Nós temos as relações que chamamos de amizade que às vezes são certas relações que nos dão algum tipo de prazer ou segurança, por exemplo. Quando duas ou três ou um pequeno grupo de pessoas são afins a alguma ideia, que às vezes a ideia inclusive pode ser de ser críticos em relação a outras pessoas.
Na juventude a gente experimenta muito isso, no colégio experimenta muito isso, de participar de um grupo específico, ou de uma gangue específica, depende do colégio que estudamos, e esse grupo se fecha em relação aos outros.
E acaba se fortalecendo na medida em que se impõe sobre os demais. Então aí também não estamos falando exatamente de amizade, embora muitas vezes enxerguemos assim. Também existem as amizades... de excessiva lisonja, em que um fica lisonjeando o outro e como que tentando proteger o outro, que muitas vezes estão pautadas somente no interesse do que o outro pode prover para nós.
muito comum em âmbitos sociais, em âmbitos de trabalho, em que você vai, entre aspas, se tornando amigo daquele que é líder, que pode gerar um benefício pra você. também não estamos falando da amizade aí. Então perceba que falar, conceituar amizade é realmente algo complexo, porque teríamos que transcender todas essas camadas para poder começar a falar da amizade como um tipo de relação que, embora...
Exige a reciprocidade. A reciprocidade é a única coisa que ela exige. Que o amigo também seja... Nosso amigo, aquele por quem eu sinto amizade também sinta amizade por mim. E o resto é variável. Nessas relações é possível que ocorram muitas experiências e muitas circunstâncias completamente inusitadas, como é o caso.
que traz esse mito do Teseu e do Perito, que inicialmente se apresentam como inimigos e imediatamente ao se reconhecer se tornam amigos e se perdoam um ao outro e continuam a sua saga conjuntamente. É interessante pensar na mesma coisa. amizades surgindo em um momento de risco de batalha. Danilo, não sei como isso soa pra você.
¶ Virtudes Fundamentais para a Amizade
Isso é algo muito importante da gente refletir, não é Marcelo? Porque no mito de Enkidu e Gilgamesh, dois grandes heróis da história, essa ideia mítica e simbólica também que é trazida através desses dois amigos, nos ensina muito sobre os graus...
de amizade, como você falou em uma das suas expressões ao longo da nossa conversa, e essas possibilidades, ou seja, de levar isso pra nossa vida, essas ideias mais amplas, mais atemporais da amizade, se a gente não se coloca à prova, a gente nunca vai saber se as nossas relações com as pessoas são realmente verdadeiras, sólidas, maduras, fortes também.
E dentro dessas reflexões, Marcelo, um parâmetro que nos ajuda a entender e nos aproximar dessa ideia de uma amizade mais atemporal seria o parâmetro da virtude, do valor, ou seja, ambos nos ajudam a aproximar, ou seja, nos alinhar.
com esse arquétipo da amizade. É como uma antena, quando a gente vai sintonizando a virtude, é essa sintonia que a gente vai buscando, embora os mais jovens não devam ter visto uma antena parabólica como era antigamente, mas enfim, quando você vai alinhando essa antena... O sinal vai melhorando e a imagem na televisão, as televisões antigas, elas ficavam mais nítidas, mais claras, mais visíveis, sem distorções. E quando a gente compreende melhor a virtude e o valor...
do que significa amizade, mais a gente pode ampliar essas possibilidades. Como você bem trouxe também, Marcelo, as pessoas podem se juntar para fazer qualquer coisa. Isso Aristóteles vai trazer na sua obra. Ética Anicômaco, o fato é que ele vai falar também da virtude como ideia da amizade, como parâmetro, como linha a se seguir. Eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso para a gente entender melhor do que se trata na prática.
¶ Compreensão, Reconhecimento e Ousadia
Sim, eu penso que a gente pode falar de algumas, eu ia falar da virtude do valor como algo macro, falar de algumas virtudes. que eu extraio como reflexões desse próprio mito que narramos agora há pouco. Uma delas, por exemplo, é a ideia de, vamos colocar assim, aceitação e de compreensão. Compreensão seria o termo. Por quê? Porque veja que no mito que narramos existe um confronto e desse confronto surge a amizade. O que isso significa? Que nem sempre aquele que nos confronta é nosso inimigo.
Olha que interessante, porque de maneira geral, qualquer pessoa que nos confronta, nós temos como inimigos. E talvez por isso o mundo esteja tão caótico, não só nos aspectos macro do mundo, mas também nas relações, no micro, né? Nas nossas relações cotidianas. Basta que alguém expresse... uma ideia contrária à minha, um ponto de vista contrário ao meu, ou apresente uma crítica contra o meu comportamento e essa pessoa começa agora a ser vista por mim como um inimigo e a gente...
Não vai ter amizade, pelo contrário, vai começar a cultivar uma certa distância e talvez até um sentimento negativo um pelo outro. Aquele que nos confronta muitas vezes está nos apontando, consciente ou inconscientemente, coisas que estamos falhando, coisas que necessitamos melhorar. Ou às vezes está nos pedindo ajuda. Nem sempre a pessoa que nos...
Ataca, digamos assim, ataca porque quer nos ferir. Às vezes é um grito de ajuda, é instintivo, ela precisa de alguma solução. É como alguém que está sentindo muita dor e alguém que vem ajudar, ela reage e acaba machucando essa pessoa. Então, esse tipo de reconhecimento que a compreensão
é um valor fundamental que propicia o surgimento da amizade e que se cultiva no processo de amizade. Outro processo... que a gente pode depreender daí, extrair daí, é a ideia de capacidade de reconhecimento, reconhecimento daquilo que é verdadeiro, reconhecimento daquilo que é, para além das ilusões, das circunstâncias. temporais, das variações. E isso ocorre por quê? Percebe que no mito, Pirito olha nos olhos de Teseu e reconhece Teseu e corre o risco.
de submeter-se a qualquer pena. E Teseu também olha nos olhos de Perito, reconhece Perito como uma grande alma e corre o risco de impor a pena da amizade a alguém que inicialmente se mostra como um criminoso. O resultado disso é muito valioso. Mas para que essa ousadia, que também é um valor, possa ocorrer, primeiro é necessário o reconhecimento. E aí nós já temos mais dois valores. Falamos de compreensão, agora estamos falando de reconhecimento.
de ver o outro pelo que ele efetivamente é, humanamente falando e não pelas formas temporais e a ousadia consequente disso. Que é justamente o que gera a possibilidade da amizade e das relações mais profundas entre os seres humanos. A capacidade de ousar aproximar-se. A capacidade de ousar olhar nos olhos. A capacidade de ousar submeter-se, inclusive, àquilo que...
às vezes a gente não sabe o que vai ser. E correr o risco. Mesmo que a consequência às vezes seja negativa, quem não corre o risco não vai saber qual é a consequência, não vai poder se entregar a determinados tipos de experiência. Então realmente é interessante porque as grandes amizades exigem atos de ousadia. É interessante também porque quando Teseu dá a pena a Pirito, eles juram...
Fidelidade absoluta. Nessa amizade. Esses juramentos de fidelidade são importantes. Não como um elemento de forma. Porque hoje você fazer um juramento formal com palavras é talvez a coisa mais vazia que possa ocorrer, dado que as palavras estão tão esvaziadas e nossos compromissos também. mas um juramento interno de fidelidade às pessoas que amamos e de abertura a outras pessoas que podemos aprender a amar.
Os nossos novos amigos que vão surgindo ao longo da nossa vida são fatores também que envolvem esses valores, essas virtudes que você comentava e a fidelidade, o compromisso e a fidelidade.
¶ Fidelidade, Autoconhecimento e Franqueza
constituem valores de grande importância para a experiência humana. Outro ponto interessante é que a amizade, à medida que se desenvolve, vai gerando autoconhecimento. Ocorre algo na sequência do mito, Danilo? que é o fato de que o Teseu e o Pirito aprontam coisas muito interessantes, mas também aprontam algumas coisas, fazem algumas coisas não de todo morais, digamos assim, quando estão juntos.
Parece que quando estão juntos a sua força se potencializa. Isso é um ponto interessante. Quando estamos entre pessoas que amamos e onde há reciprocidade de amizade.
A nossa força se potencializa. Isso tem um aspecto positivo, porque se direcionamos isso para o bem, será maravilhoso, mas também pode ser direcionado para o mal. Nossa amizade pode nos levar a cometer crimes, a fazer coisas que não são assim tão... tão interessantes pelo simples fato de queremos testar as nossas capacidades, testar os nossos...
Por esse motivo, a amizade envolve e exige, ao mesmo tempo, uma capacidade de autoconhecimento. E um autoconhecimento não só no sentido de saber como somos, mas saber também quais são os valores, a luz. E os defeitos e vícios, as sombras que estão em nós, porque todos nós temos luz e sombra. E é justamente... Essa experiência de autoconhecimento que as relações humanas nessa camada tão profunda e tão íntima podem gerar em nós.
obviamente isso exigirá certas escolhas, né? Se vamos ceder pela potência da sombra ou se vamos ceder pela potência da luz. Porém, se não trilhamos essa jornada, não vamos ter essa experiência. Então... São valores também, é um valor também, o autoconhecimento que a relação de amizade pode gerar. E se a amizade é verdadeira, Danilo, à medida que ela se desenvolve, vai existir uma franqueza cada vez maior.
Não é uma grosseria, mas uma franqueza, uma sinceridade. E todos aqueles que têm amigos de verdade... Sabem o importante que foi quando o amigo lhe chamou a atenção, quando estávamos passando do ponto, quando estávamos nos perdendo em algum processo, desistindo de algo importante. Assim como sabemos quantas vezes intervimos na vida de um amigo alertando para o fato de que ele está mudando o curso daquilo que pretendia fazer ou ser, sem que perceba, enfim.
Chamando atenção para algum comportamento indevido, para algum excesso. Por mais que isso doa, porque dói, dói ser criticado, dói ouvir quando estamos nos equivocando. É como o remédio que é um pouco amargo num primeiro momento, mas necessário. E que nos ajuda a nos curar dessas tendências. Outro valor muito importante que vai surgindo aí nas relações de amizade. Eu colocaria por fim para fechar, Danilo.
¶ Amizade e a Jornada da Maturidade
Acabei atirando aqui um monte de elementos em relação aos valores que você comentou, que é a maturidade. A maturidade também pode ser entendida como um valor. Porque, de maneira geral, nós olhamos para a natureza e pensamos, o tempo amadurece as coisas. Eu diria que para o ser humano, e aprendemos isso na filosofia, não é só o tempo passando que amadurece as coisas.
É o tempo com a consciência, o tempo com a vontade. Porque se você ficar sentado esperando, na experiência humana, ao menos nada vai acontecer. A fruta até pode amadurecer ali no teu cestinho de frutas, à medida que o tempo passe. Mas o ser humano... Não amadurece pelo simples curso da passagem do tempo.
Parece que para nós a experiência é um pouco diferente, precisamos colocar um ingrediente de vida que para nós é ingrediente de consciência humana nesses processos. E justamente as relações amistosas, as relações de amizade... E qualquer relação que pode ser transpassada pela amizade nos permitem nos conhecer e por isso amadurecer. E é por esse motivo que bons amigos hoje serão amigos, porém muito diferentes amanhã.
Porque quando nos tornamos velhos amigos, há um conjunto de ingredientes de conhecimento mútuo e de autoconhecimento que vão nos levando a uma maturidade humana. E por que não dizer uma maturidade espiritual? Que não só nos permitem ser melhores como pessoas, como também nos permitem ajudar a outros a ser melhores. Não por palavras, mas por comportamento, porque a maturidade é sempre...
provada e comprovada pelo comportamento, e não por aquilo que nós falamos. Então aí a gente tem um conjunto de valores, porque estamos assim, falando num podcast com pouco tempo, né, pra desenvolver. que as relações de amizade bem podem nos proporcionar.
Sem dúvida, Marcelo. Por isso, essa nossa série, justamente em função de aprofundarmos com mais tempo nos outros episódios um pouco mais dessa ideia da amizade e que a gente possa levar isso para o coração e para a ação concreta para ver se isso realmente... tem sentido e tem valor para cada um de nós. Dessa maneira, encerramos o nosso podcast. Novamente, lhe agradeço a presença e, claro, desejo que seja sempre muito bem-vindo aqui no podcast da Nova Acrópole.
Muito obrigado Danilo e um grande abraço a todos, que todos possam buscar viver mais e mais, ou um pouquinho mais, essa jornada de relações profundas e mágicas que constitui a amizade. Com certeza, Marcelo. E para aqueles que queiram nos contatar, podem fazê-lo através do nosso site E para quem quiser saber mais sobre o nosso curso de Filosofia para Viver, basta acessar nova-acrópole.org.br. Até a próxima!
A trilha deste podcast é de autoria de Frédéric Chopin e chama-se Noturno nº 2 em Fá Maior Op. 9.
