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ITLT-2-P – Se me permitem a ousadia
Em princípio, devia ser um assunto arrumado, pelo menos aqui nos EUA. A própria Constituição garante a liberdade de expressão na Primeira Emenda, que faz parte da chamada Carta de Direitos. Mas esta questão da liberdade de expressão tornou-se uma das questões mais quentes que agitam a sociedade americana nos últimos anos.
As Primeiras dez Emendas à nossa Constituição são conhecidas como a nossa Carta de Direitos, e a primeira destas emendas diz "O Congresso não fará nenhuma lei em respeito a um estabelecimento de religião, ou que proíba o seu livre exercício; ou condicionando a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito do povo a reunir-se pacificamente, e a requerer ao governo uma reparação das suas queixas. "
Ao criar o novo país que chamaram os Estados Unidos da América, a primeira preocupação dos fundadores foi garantir as liberdades relativas à religião, à expressão, à reunião e ao direito de petição ao governo. A emenda proíbe o Congresso de promover uma religião sobre as outras e de restringir as práticas religiosas de um indivíduo. Ela garante a liberdade de expressão ao proibir o Congresso de restringir a imprensa ou os direitos das pessoas a falar livremente. Também garante o direito dos cidadãos de reunirem-se pacificamente e de fazerem uma petição ao seu governo.
Hoje a questão está empacotada e abrangida sob o termo "a cultura de cancelamento". Os indivíduos, e até mesmo as empresas, que são vistos como tendo pontos de vista contrários aos de um grande segmento da população são "cancelados". Fazem campanhas para boicotar companhias; autores, atores e cantores são colocados na lista negra; oradores e palestrantes nas universidades são declarados "persona non grata" porque as suas opiniões não estão de acordo com o que eu chamo o "textus receptus" dos que gritam mais alto. Eles escrevem o guião e calam aqueles que se recusam seguir o enredo.
Tudo isto gerou um novo termo na nossa língua. Aqueles que se consideram habilitados a tomar estas medidas de cancelar a voz dos outros, são descritos em Inglês pelo termo “woke”, isto é "acordados". Implica que estas pessoas estão acordadas e sensibilizadas, em sintonia com a nova realidade da sociedade. Portanto, estas pessoas assumem que têm o direito de cancelar quaisquer outros que não estejam em sintonia com a sua versão autorizada da verdade. Este fenómeno tem sido aplicado a uma série de assuntos, desde a interpretação de como a América foi colonizada e constituída, até questões de raça e equidade racial; de género – transgénero, posição neutra, ou a auto-identidade de género; e o aborto – o direito de ser ou não ser. Estas são algumas das questões atualmente na linha da frente da batalha pela liberdade de expressão.
Mas o que despertou o meu interesse e me fez pensar mais sobre isso nos últimos dias foi uma notícia que apareceu no meu telemóvel. Para mim, foi uma ilustração clara da diferença entre proclamar o princípio da "liberdade de expressão" e praticá-lo. Newsweek, CNN e outros meios divulgaram tweets que incluíam clips de um talk show na televisão ucraniana. O programa foi exibido no dia 18 de fevereiro, que foi apenas uma semana antes da invasão russa da Ucrânia. O painel representou uma mistura de pontos de vista: os participantes incluíam o ex-presidente da Ucrânia, Poroshenko; havia um político da extrema-direita Biletsky e um político pró-russo Murayev, que alguns observadores ocidentais acreditam estar a ser preparado pela Rússia para substituir Zelensky como um presidente fantoche na Ucrânia. As trocas de palavras passaram a vias de facto. Em certa altura, Biletsky levantou-se e esbofeteou Murayev e depois lutou com ele no chão e apertou o seu pescoço com o braço. Os outros participantes do painel saltaram e tentaram separar os dois. Diante de uma plateia ao vivo e de todos os telespectadores em casa, quatro homens rolaram no palco, lutando e gritando. Foi um minuto de caos.
No canto inferior direito do ecrã, a intérprete dos surdos estava a assinar o debate quando surgiu a cena da luta livre. Ninguém dizia nada: todos estavam envolvidos nos seus exercícios físicos. A pobre intérprete ficou ali sem expressão e imóvel, até que um dos homens gritou alguma coisa e depois de interpretar isso ela reassumiu a sua posição de estátua. Afinal, o que ela ia ou podia dizer?
Vários meios de comunicação reencaminharam o clip, mas nenhum deles que eu vi reparou na imensa ironia desta cena. O nome do programa de TV apareceu no logótipo no canto inferior esquerdo do ecrã. Enquanto os homens brigavam no palco, as grandes letras no canto do ecrã proclamaram "Svoboda Slovo": "Liberdade de Expressão"
