Aos 4 anos, ela fugiu de casa para poder sobreviver - podcast episode cover

Aos 4 anos, ela fugiu de casa para poder sobreviver

Apr 24, 20258 min
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Aos 4 anos, a Stefany era obrigada a vender balas no calçadão de Campo Grande, no Rio de Janeiro. Um dia, ela tomou a decisão que mudaria tudo: decidiu que não voltaria mais para casa. Era mais do que uma fuga, era um grito por socorro.

Criada pelos avós, depois que a mãe foi internada por ser dependente química, Stefany cresceu em um ambiente instável e perigoso. A avó era sua única referência de proteção. O avô era agressivo, os tios estavam envolvidos com drogas. 

Na casinha pequena que eles viviam, moravam umas 11 pessoas. Quando ela passava da sala pra cozinha, encostavam nela e a assediavam. E ninguém fazia nada.

Sua fuga aconteceu depois da morte da avó. Stefany pegou um ônibus sozinha e foi até a praia. Ela ficou na areia até escurecer, quando vieram dois guardinhas. Ela só dizia que não queria voltar pra casa porque seu avô iria te bater. 

A partir disso, a vida da Stefany mudou. Ela foi encaminhada a um abrigo, onde começou o difícil processo de adoção.

Dos 5 para os 6 anos, ela foi adotada por uma família extremamente amorosa, mas o medo de ser devolvida, de incomodar, se fazia presente. Stefany não falava dos seus desejos. Só anos depois teve coragem de dizer que sonhava fazer aulas de dança ou visitar alguns lugares. 

A arte foi seu refúgio. A música chegou pelas mãos do pai adotivo, um homem doce, que tocava em asilos e abrigos. Ele a incentivou a experimentar instrumentos até ela se encontrar na viola (pros leigos, é tipo um violino grande). 

O dia mais esperado era o da sua apresentação com a orquestra da cidade, mas o pai não chegou a assistir. Ele havia partido repentinamente. Ali ela se perguntou se deveria continuar tocando, já que sua maior inspiração se foi.

Mas voltou. Com o apoio dos amigos, seguiu estudando e tentando uma vaga na @ojesp_.

E conseguiu!

A Stefany toca em uma das melhores orquestras jovens do país, na @salasaopaulo_. A música a salvou e a curou de traumas que ela talvez nunca superasse sozinha. 

Hoje, Stefany segue na música. Sua realização é essa: tocar com amor, como seu pai a ensinou.

Transcript

Os meus 4 anos eu tive que ter uma coragem muito grande de sair de casa num dia que eu estava vendendo bala, como se eu tivesse só indo mais 1 dia. E naquele dia eu pensei e falei assim, não, hoje, hoje eu não vou voltar para casa, tipo a minha mãe, sim, ela era envolvida com com drogas e outras coisas, né? Prostituição? Ela Foi internada e aí a única coisa que eu ouvia dos meus parentes era que ela tinha ficado doida.

E aí eu fui morar com meus avós, então eu só tinha intimidade com a minha avó praticamente porque o meu avô, ele era bem ruim assim ele maltratava. E naquela época, eu com meus 4 anos e meus tios, todos envolvidos com droga. E aí eu saía todos os dias, eu IA para o calçadão de Campo Grande pender bala. Teve um certo dia que a minha mãe, ela voltou para casa e ela estava muito, muito agressiva, muito doida. E aí meus avós prenderam ela numa cadeira. E ela só gritava, gritava,

gritava. E se eu me lembro na época, a minha mãe, acho que ela tinha uns 17 anos, depois disso passou pouco tempo assim. Aí eu recebi a notícia, vieram avisar pra mim que ela tinha falecido. E aí eu perguntei pro pra minha vó, pergunta pra minha avó, falei, vó, que que é faleceu, que eu não sei o que que faleceu, não sabia o que que era sempre que acontecia alguma coisa lá em casa que. Que eu ficava com medo do meu

avô. Eu IA pra uma igreja que tinha atrás da minha casa, tinha uma igreja lá que tinha aula de balé e aí acho que morava umas 11 pessoas dentro de casa. Quando eu passava da sala pra pra cozinha, eles ficavam chamando, querendo passar a mão, encostar, e aquilo me incomodava assim, e aí eu o que eu fazia era sair de casa. EEE. Sempre tentar ir pra essa igreja assim é muito traumático. Você você lembrar que que você tinham pessoas dentro da sua casa que que abusavam de você e

ninguém podia fazer nada. E aí por isso que que depois que minha avó morreu, que era a única pessoa que que praticamente me defendia lá dentro, né? Aí eu eu não quis ficar mais naquela situação, né? Então eu tive que ter uma coragem muito grande de sair de casa no dia que eu tava vendendo bala, como se eu tivesse só indo mais 1 dia. E naquele dia eu pensei, falei assim, não, hoje, hoje eu não vou voltar para casa, tipo, eu

não voltei. Aí nisso eu peguei um ônibus, aí eu fui pra essa praia e fiquei na Areia, tipo, por um tempão assim. Aí quando começou a escurecer, vieram uns guardinhos assim e falei que eu não queria voltar para casa, que eu não queria voltar para casa, que meu vô IA me bater, só falava isso. E aí eles ligaram o conselho ter lá, tiraram finalmente a guarda do meu vô e me levaram para um abrigo depois disso, né? Então aí eu já tinha meus 6,

quase 7 anos. É o processo de adoção tardinha, né, que é muito difícil você adotar criança mais velha, negra principalmente. Geralmente as famílias querem bebês ou crianças mais novas até 34. E aí um dia me falaram que é tava aí numa família me buscar, Ah, eu acho que que a chave virou. Quando eles falaram mesmo, tipo meu pai, ele falou que que não é você agora vai ser minha filha. E aí eu falei, como assim? Tipo ele, é porque a gente tá te levando pra você morar com a

gente. Aí, ó, mas de verdade ele é de verdade. Só que ainda assim, depois a criança ela morre de medo de de ser devolvida. Eu tinha muito medo de pedir as coisas. Eu tinha medo de de falar o que eu gostava e o que eu não gostava, porque eu não queria passar esse incômodo, então não pedia nada. Então, depois de anos que eu fui falar assim, nossa mãe, eu queria muito ter feito aula de dança, nossa, eu queria tanto ter ter visitado tal lugar.

Aí ela falou, nossa, porque você nunca falou essas coisas, tipo? Aí eu, eu sempre eu cresci com com esse medo de incomodar, só que são coisas que você não cura fácil, né? Então até eu tive muitos anos problemas com com toque, mas com o livro, porque eu tinha medo, eu tinha trauma. E aí o meu pai, ele era uma pessoa muito amorosa com todo mundo, assim que conhece ele vai.

Ouvi falar do meu pai, ele era um super pai, então desde novo ele iniciou a gente na música ele é comprou umas flautas 2. Colocou eu e meus irmãos pra tocar, porque ele tocava violão. Aí ele IA tocar em asilo, IA tocar em abrigo, IA tocar nesses lugares assim e levava a gente pra tocar com ele, né? E aí ele falou, vai, se não precisasse de fazer um instrumento. Aí iniciou a gente no chello, no piano, no violino, em tudo. Até a gente gostar de algum, né?

Aí acabei me identificando com a viola, que é o instrumento que eu gosto. E aí no final de 2018, né, meu primeiro concerto com a orquestra jovem, né, em Barra Mansa, e aí, tipo, eu tava todo num preparo assim Pra Ele ver minha. IA ser minha primeira apresentação de ballet também, que aí eu finalmente tomei coragem, né, pra pra fazer minhas aulas de dança, e aí ele IA assistir meu primeiro espetáculo de ballet e assistir meu primeiro concerto da orquestra.

Aí ele não chegou a assistir, tipo em setembro. Foi. Foi muito triste assim, porque tava tudo bem. Né? E aí meu pai, ele tinha mania de ir dormir na sala porque ele ficava assistindo coisas de tarde, aí como eu sempre, sempre tive insônia, eu acordava de madrugada, ele tava assim, deitado assim, aí eu levantava ele, ele IA pra cama, e aí nesse dia, tipo, ele tava assim, e ele tava sentado assim no sofá com cabeça pra trás, normal, como se tivesse dormido, e aí eu fui

acordar ele Pra Ele deitar. Eu tinha prova no outro dia na escola assim, e aí ele não acordou, tipo, eu tentei acordar ele, ele não acordou, aí minha mãe foi lá assim, tentou de todo jeito, aí ela já começou a ficar desesperada assim. Aí a gente desceu, chamou a vizinha que estava embaixo, aí a vizinha subiu, ela olhou na hora falou, Augusto, não está vivo.

Daí ali eu pensei, nossa, tipo, depois que que passou mais semanas assim, eu fiquei perguntando, por que que eu vou continuar tocando, pensando que meu pai era uma inspiração muito grande. Aí se sua inspiração não está ali, você não quer continuar. Mas aí depois eu vi que nossa, realmente é isso que eu quero fazer. Voltei pros ensaios da orquestra, meus amigos me

apoiaram assim. Eu lembro que tinha um amigo do do meu pai que me deu um cartãozinho assim da Sala São Paulo, e aí eu fiquei misturado na Sala São Paulo, eu falei, eu vou chegar lá, eu vou chegar na Sala São Paulo, você tem que fazer participar de uma seleção. E já era o segundo ano que eu tentava, né? O primeiro ano eu não passei na prova prática, você tem que vim tocar e aí vem várias pessoas e uma delas só que vai passar, sabe?

É é muito competido assim, muito, muito competido, essa orquestra em. Em específico, ela é orquestra jovem do estado de São Paulo. Aí, por fim, passei, passei na orquestra. O meu pai era ele era uma pessoa muito sábia mesmo, muito estudioso e tal. E geralmente quando eu tô tocando, quando eu tô na sala fazendo um concerto assim, é geralmente final de algum concerto que eu olho assim, vejo onde é que eu cheguei? Tipo, não tem como não lembrar dele, porque ele sempre falava

do da situação que fica depois. E como é que você tá se sentindo tocando aquilo? Você pode tá tocando 2 notas. De qualquer maneira, e você pode estar tocando 2 notas, sentindo aquelas 2 notas, sentindo que você precisa fazer, as pessoas que estão te ouvindo sentir. Então eu sempre tento tocar tudo com muito amor, assim, com muito sentimento.

E porque ele me falava isso, que tudo que você toca, independente se você está numa sala de conserto, se você está dentro de um presente tocando pra mim, aí você tem que tocar com o mesmo sentimento. As pessoas falam que Ah, é realização, é quando você é adulto, já tem sua família, sua casa, e pra mim não. Eu acho que depois de tudo pra

mim realização isso aqui, tipo. Conseguir tocar numa numa das melhores orquestras jovens que existe, tendo aula com um dos melhores professores, então a música, né, a arte no geral, a dança, a música. Ela me ajudou a superar coisas que eu acho que eu nunca superaria, talvez sozinha assim.

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