A médica que ensina a morrer com dignidade - podcast episode cover

A médica que ensina a morrer com dignidade

Mar 06, 202511 min
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Episode description

Desde pequena, Ana Claudia Quintana Arantes  @acqa  sabia que queria ser médica. Mas crescer em uma família com dificuldades financeiras fazia esse sonho parecer distante. Ainda assim, ela insistiu e conseguiu entrar na USP, um passo que parecia impossível, mas que abriu o caminho para tudo o que viria depois.Foi na faculdade que começou a perceber algo que a maioria dos colegas evitava: a morte. O assunto era tratado como um fracasso, um erro da medicina, algo a ser contornado a qualquer custo. Mas para Ana, essa negação não fazia sentido. Quanto mais ela estudava, mais entendia que a morte não era o oposto da vida, mas parte dela. E foi assim que encontrou sua verdadeira vocação nos cuidados paliativos.Ela começou a trabalhar com pacientes em fase terminal e percebeu algo fundamental. Não era só sobre aliviar dores físicas. Era sobre acolher, ouvir, permitir que as pessoas vivessem seus últimos dias com dignidade. Ana descobriu que a maior parte do sofrimento vinha do medo, do silêncio ao redor do tema, da solidão de não poder falar sobre o próprio fim.Enquanto a maioria dos médicos olhava para a morte como um inimigo, Ana a via como parte do processo. Falava sobre isso com naturalidade, escrevia, dava palestras. Queria quebrar o tabu, ensinar que a morte não precisava ser um momento de desespero, mas sim de significado.A experiência com os pacientes trouxe reflexões profundas sobre a vida. Sobre como gastamos tempo demais preocupados com coisas que não importam e tempo de menos vivendo de verdade. Sobre como postergamos conversas difíceis, como temos medo de dizer “eu te amo” ou pedir perdão. Ela via isso todos os dias, e isso mudou como escolheu viver.Olhando para trás, Ana Claudia não tem dúvidas: escolheu a medicina para salvar vidas, mas aprendeu que, às vezes, salvar alguém significa apenas garantir que seu fim seja tratado com respeito e humanidade.O livro "Cuidar até o fim" da Ana Claudia Quintana Arantes, publicado pela  @EditoraSextanteTV , você pode comprar aqui pelo link: https://amzn.to/3ENHubq.

Transcript

Então eu tinha um pensamento mágico que se eu fosse médico eu IA resolver tudo, né? Eu IA curar a minha avó, eu IA curar a minha irmã e aí eu curando eles, meu pai IA parar de beber e eu sou médico, eu não tenho o que fazer, o que que eu estou fazendo aqui? Você perdeu o sentido de vida aos 19 anos, o que que acontece? Planejei meu, seu signo e a minha avó, ela já era, tinha um quadro de adoecimento por conta de uma doença arterial, o sangue não chegava não.

Direito, não nas pernas dela. A Ana Marta nasceu e aí ela começou a ter 11 retardo do desenvolvimento neurológico dela. Aí, com isso, minha mãe teve que se dedicar muito a levá la no neurologista, a levar na fono, a levar na fisioterapia. Minha avó é que cuidava de mim e meu pai tinha uma doença psiquiátrica. Ele era alcoaltra, oculista, né? E aí eu tava com 5 pra 6 anos. A minha avó tinha muita dor, ela gritava de dor.

Dessa parte eu me lembro que ela gritava e ela pedia a Deus misericórdia, que matasse ela, que levasse ela embora, que ela morresse. E aí, Nessas Horas mais críticas, vinha um médico em casa, mudava a casa depois da visita dele. Na minha lembrança de criança era tipo magia. Eu falava, vó, eu vou ser médica, eu vou cuidar de você. E minha vó piorou muito e teve que amputar a perna, e aí eu cortei as pernas de todas as minhas bonecas EE, aí eu fiz uma enfermaria de bonecas, então

tinha todos esses adoecimentos. Aí eu tinha um pensamento mágico, se eu fosse médico eu IA resolver tudo, né? Eu IA curar a minha avó, eu IA curar a minha irmã, e aí eu curando eles, meu pai IA parar de beber. Nesse período em que eu estava na escola, meu pai perde tudo. Eu estava com 89 anos, a gente não tinha onde morar, a gente tinha uma Brasília, aí minha avó foi pra casa do meu tio e a gente não tinha onde morar e a gente foi pra lá também.

Então eu IA pra escola rural e a gente IA de carona com carro de boi e voltava a pé com a lama No No, no joelho. Assim o meu pai IA de carro atolava toda vez eu lembro meu pai forrado de lama assim, só olhinho verdinho dele assim quando a gente IA. É pra lá, EE atolava e não tinha celular, né? Estava demorando pra chegar e mandava alguém pra estrada pra ver, porque provavelmente a gente estava preso na estrada, então a gente IA e voltava a pé.

Quando eu voltava a pé estourava boiada de vez em quando. Então é, eu devo ter cicatriz na cabeça, porque a gente corria para debaixo da seca de de aranha farpado quando estourava boiada para fugir. Aí voltamos pra São Paulo e aí naquele primeiro ano. Eu não passei no vestibular. Se eu consegui fazer um ano de cursinho e eu passei na USP, aí entra no quarto, então vamos lá conversar com seu Antônio.

E aí a história dele era um homem que era utilista, alcoólatra e que estava com cirrose e câncer hepático, e era um paciente terminal, porque não tinha o que fazer com ele. Ele não conseguia falar direito comigo porque ele estava com muita dor. Vou lá falar com o professor, aí falei com ele. Ele falou assim, não, não tem nada para fazer para ele porque. É assim, ele tá na fase

terminal. Aí eu olhei aquela cena, falei, meu Deus, se meu pai voltar a beber, ele vai ficar assim, aí ele vai ficar assim, não tem o que fazer. E eu sou médico, ele não tem o que fazer. EE aí eu falei, o que que eu tô fazendo aqui? Eu vou fazer tudo isso. E tava muito sacrificado fazer faculdade porque meu pai de novo, ruim de grana, não tinha dinheiro para comer ele me ele brigava comigo todo dia.

Para me dar o dinheiro da condução e aí eu só conto com você, só conto com você, você tem que parar. Medicina não é para você, não é para nossa família, então não tava fácil e aí vem essa, eu falei assim, que eu tô fazendo aqui, eu acho que eu vou parar mesmo, eu vou. Aí você perdeu o sentido de vida aos 19 anos, o que que acontece, o que que você pensa? Planejei, meu sensível, vou

morrer, eu não vou conseguir. Não vou conseguir salvar minha avó, não vou conseguir salvar meu pai, não vou conseguir salvar minha irmã, eu não vou conseguir eu terminar a faculdade porque não está dando. Era um mundo muito injusto e eu não, eu não era daquele mundo, não tinha condição financeira nem social de transitar naquele mundo. Então eu falei, não dá, vou morrer.

E aí eu continuei indo pra faculdade, um Belo dia eu vi passando visita, tinha uma menina que era um pouco mais velha que eu, que tinha tentado e não conseguiu. E ela ficou gravemente sequelada da tentativa dela. E eu lembro do olhar dela e a raiva com que ela era tratada no hospital, porque os profissionais de saúde não tem treinamento para lidar com a doença psiquiátrica. Tortura, não é? Tipo assim, Ah, não quer viver? Ah, menina animada, Ah, não dá valor na vida.

AI que besteira. Faz as coisas com raiva, como se ela tivesse que ser punida por estar em sofrimento. De não não querer mais viver. Eu olhei para aquilo e falei assim, isso vai acontecer, com certeza, não tem competência para nada, nem para morrer. Aí eu desisti, aí quando eu desisti ficou pior, né? Porque aí eu não tinha nenhuma saída, só que eu IA desistir da faculdade e eu fui lá Na Na Secretaria da faculdade falar com a dona egley.

Aí ela falou assim, você não vai parar não, você vai trancar. Porque você está muito cansado, sua vida é muito difícil e você está cansada. Você não dorme com sua irmã, não deixa. Você está preocupada com seu pai, com a sua mãe, com essa história aí da do que você falou dos pacientes, não é assim, mas ainda é cedo pra você lidar com isso, não é assim, tem muita gente que sabe o que fazer e tal, tem coisas pra serem descobertas. A faculdade de medicina é muito grande pra você ainda, você

precisa. Descansar, depois você vai, você volta com o tempo. Espera aí, não se eu fui esperto o suficiente para entrar na faculdade de medicina da USP e não tem nada para fazer pelos pacientes, eu vou descobrir. E aí eu voltei e aí eu fiz clínica médica para depois fazer Geriatria, porque aí veio a questão da morte e a minha avó tava morando com meu tio ainda no interior de São Paulo. Ela morreu no dia da formatura. Assim, muitos anos eu carreguei

um sentimento de culpa. Eu. Eu falava assim, eu devia ter entrado antes, quando? Quando eu terminei o colegial, devia ter entrado direto, porque aí pelo menos eu teria tido um ano para cuidar dela. Foi muito difícil, até que um dia, na terapia, eu tive um site assim, porque eu eu voltei para faculdade por causa dela, porque eu tinha prometido uma coisa para ela. Falei assim, eu vou conseguir descobrir o que tem para fazer.

Pra tratar a dor das pessoas. EE não pode chegar e falar não tem nada pra fazer, então eu voltei pra faculdade pra honrar essa promessa. EE eu penso que ela me conhecia o suficiente pra saber que eu só voltaria se eu tivesse alguma promessa pra cumprir. Então ela viveu até o dia que eu me formei, porque ela ela tinha que ficar viva até ela terminar, né? Porque aí eu terminaria por

conta dela. E aí eu comecei AA entrar em contato com as questões relacionadas ao Alívio da dor, aí eu sou a doutora, parece que eu sou a doutora da da foice, né? A hora que eu chego é porque o paciente vai morrer, morrer. Já tem muitos aqui morrendo, né? Quem é que vai viver bem até que a morte chegue, né? Eu era muito boa de ouvir o paciente, porque ninguém queria ir no quarto paciente no final de vida, então eu entrava nos quartos. EE, todo mundo dizia, nossa,

quando você chega, meu pai muda. Aí eu lembrava do doutorado mesmo, eu falei, Ah, tive um bom professor, né? E aí eu gostava disso, dessa coisa, do que eu trazia vida pro processo, eu devolvi a vida pro paciente quando eu tirava a dor dele. Então eu eu não estava preparando pra morte, eu estava é trabalhando pra que ele pudesse estar vivo até quando a morte chegasse. Então só o meu trabalho é aliviar o sofrimento, não vou conseguir tirar o sofrimento, é é uma.

Uma ilusão de poder muito imaturo também. Não tem como você tirar o sofrimento de alguém Ah, não quero que meu pai sofra, desculpa pessoa morrendo, ela sofre o que que você não quer que seja um sofrimento desnecessário? Toda vida termina com a morte todas, né? 100% não falar sobre isso, não conversar sobre isso, não vai fazer você não morrer, só vai tirar de você a consciência da beleza da vida. Ah, eu acho a vida linda demais pra falar da morte.

Não, amada, você não tá vendo a beleza da vida ainda porque você só enxerga a beleza da vida realmente. Se você tiver a tua morte mostrando pra onde você tem que olhar, ser um pouco mais corajoso pra viver a própria vida. Acho que a morte me traz isso e a morte traz isso para as pessoas que eu cuido. Se se ainda tem gente que acredita que cuidar do paliativo é escolher morrer, tá mal informado. De cada 10 pessoas novas vão morrer de doença, mas entre de

cada 10 pessoas, 10 vão morrer. Então, mesmo que você tenha uma morte súbita, né? Tem gente que fala assim, Ah, eu quero morrer dormindo. Um Monte de gente fala isso, Ah, que delícia, vou morrer dormindo, né? AI, meu companheiro, está preparado para contar, amor, estou do lado dele. Você já conversou sobre isso com ele? Porque quando a gente adoece, a gente ajuda as pessoas a viverem em processo de luto, que a gente

chama luta antecipatória. Mas quando você morre, de repente, o trabalho do luto é de quem ficou, é um se vira. Então é um trabalho horrível se lidar com o luto da morte súbita, mesmo que seja um paciente de 90 e tantos anos, a gente acha tudo bem uma pessoa de 90 anos ou 100 anos morrer, desde que não seja seu pai, seu avô, né? Se for o velhinho do vizinho, tá tudo bem morrer com a cidade. E faz julgamentos. Ah, por que que as pessoas sofrem tanto? Porque morreu que a cidade, né?

Já tava bom, já viveu, cala a boca, se for abrir a boca, falar uma besteira dessa é melhor silenciar, não pode falar isso. Toda vida importa é cuidar até o fim é você tá com o seu tempo, o seu corpo, o seu coração e o teu pensamento tudo ao mesmo tempo a serviço de quem você ama. E cuidar até o fim é esse exercício da da escolha de amor. Olhando para trás, eu acho que tem alguns momentos em que eu gostaria de falar comigo, talvez

uns 5 anos. É o é o momento menos necessário, porque ali eu sonhava, EE sentia que eu tinha poder, mas eu falaria com aquela menina da faculdade, é, eu diria para ela, que bom que você não desistiu, que bom que você não saiu. Que bom que você decidiu ficar, porque depois ficou muito bom. É muito bom isso, muito bom a vida que eu vi. E queria agradecer que ela não desistiu.

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