⊕Kardec: Viagem Espírita [Ep02] Prefácio - podcast episode cover

⊕Kardec: Viagem Espírita [Ep02] Prefácio

Dec 29, 202436 minSeason 19Ep. 2
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Transcript

Olá, meu amigo! Olá, meu amigo! Como é que vocês estão? Sejam bem-vindos a mais um episódio onde estudamos mais Kardec, que é a obra Viagem Espírita. São as obras menos conhecidas de Kardec. Essa daqui, Viagem Espírita, em mil oitocentos e sessenta e dois, é muito interessante porque mostra a preocupação de Kardec em acompanhar o desenvolvimento do próprio movimento espírita. Então é bem legal. Vamos sem demora para o prefácio

de hoje. Não obstante quanto de bom, respeitável e digno já se tenha escrito, a história do Espiritismo dorme ainda no teclado de um autor

desconhecido. No decurso dos últimos cinquenta anos houve a brava tentativa de Sir Arthur Conan Doyle, na qual, todavia, o trabalho gigantesco de Kardec, por contraste, é quase impalpável, diluído, e apenas se insinua entre as páginas bem elaboradas, nas quais constata-se que o grande escritor absorveu, cronologicamente, todo o essencial a partir de mil oitocentos e quarenta e oito, mas que geograficamente, não foi capaz de ir além do que o

inglês, limitado pelas fronteiras de sua língua, pôde alcançar. Em verdade, ao invés é de ser uma história Do Espiritismo, diríamos que a obra de Doyle faz parte dessa história, exatamente pela admirável confissão e a inflexível segurança com que esse homem, famoso pela sutileza do raciocínio científico, apôs sobre ela o seu nome

celebrizado. Mas essa história, em contexto integral, haverá de ser escrita e nela nos impressionaremos com o capítulo dos que se dispuseram a sair pelo mundo, a enfrentar a enigmática substância das plateias, para transmitir a doutrina dos espíritos, ainda que ao preço de danos morais e físicos. A esse capítulo se intitulará, talvez, Os Atos dos Espíritas, parafraseando por um simples impulso de descobrir o futuro no passado, os atos dos apóstolos.

Doyle menciona o curioso fenômeno da oratória, em transe que, em azado momento, fez um arrepio de perplexidade eriçar as plateias anglo-saxônicas. Jovenzinhas em flor, Thais Cora, Pouge, Emma Brittain, Nettie Colburn, adormeciam em face de ávidas assistências e só vinham a despertar, ruborizadas e confusas, depois que os aplausos expoucavam.

Haviam feito revolucionárias abordagens de temas filosóficos, teológicos ou científicos, que, ao lhes serem mencionados, faziam-nas quase perder o fôlego em seus rigorosos espartilhos. Em contrapartida, certamente porque o mundo espiritual leva em conta, até onde não podemos imaginar, certos condicionamentos de caráter psicológico e social.

Essa ocorrência não tem nenhuma significação mais profunda no ambiente kardecista e é o próprio codificador, lúcido e desperto, que se encarrega de iniciar a divulgação das verdades espíritas através das tribunas. Em seguida a ele, em perfeita coordenação, surgirá Leão Denes. Léon Denis, é claro que a leitora aqui, que você viu, eu troquei, né? Agora não é mais Ossiri, é Assiri, não sabe ler certas coisas e eu tô vendo que tem alguns errinhos de português que eu já vou corrigir neste

documento, tá? Bom, o que ele tá começando a falar? Tá falando desse livro aqui, ó. A História do Espiritismo, de Arthur Conan Doyle. Sim, nós estamos falando do escritor do Sherlock Holmes. É, ele era espírita e mais ainda espiritualista, né?

E, na verdade, essa obra aqui está sendo revisada, o título, para ser, em vez de A História do Espiritismo, mudar para A História do Espiritualismo, porque fala muito mais... de antes de Kardec, o que aconteceu, então ainda não era espiritismo, mas eram manifestações espíritas, então não é a história que começa com Kardec, entende?

Ele começa bem antes, então super recomendo, é um pouquinho grosso, ele tem quase quinhentas páginas, Mas é muito interessante saber que Kardec não inventou nada. Ele pode ter inventado a palavra espiritismo, espírita, mas já existiam os fenômenos mediúnicos desde sempre e é isso que Doyle foi abordar. Mas vamos continuar aqui na

leitura. Em um como o outro... e tal sucede ainda em nossos dias, ele está falando do Doyle e está falando também do Léon Denis, que foi, digamos assim, o seguidor mais assíduo e mais que contribuiu com a doutrina espírita que a gente tem história. Então, se você não conhece, Pode procurar coisas. Nós temos até um estudo aqui de uma coleção chamada A Arte no Espiritismo, ou Espiritismo na Arte, eu sempre faço esse rolo de nome, mas ele tem diversos livros, um melhor do que o

outro, eu super recomendo. Então, voltando. Em um como o outro, Doyle e Denis, e tal como sucede ainda em nossos dias, a preocupação se converge para uma ética que, em sendo, até certo ponto, patrimônio das mais antigas culturas, era praticamente apenas letra que mata. Agora vai ser espírito que vive e fica, subversiva no sentido de arremeter do exterior para o interior, da teoria para a ação.

Seu caráter renovador torna-a evangelicamente desmistificada e autenticamente apostolar, o que nos leva a estabelecer a comparação com o livro dos Atos, essa crônica de viagem durante a qual os inúmeros personagens têm, o tempo todo, os lábios entreabertos como que preparados para traduzir em palavras o pensamento da boa nova e especulações sobre ações passadas e presentes se acumulam em seus espíritos com a força do rio comprimido contra as paredes de uma barragem Esta viagem

espírita em mil oitocentos e sessenta e dois é qualquer coisa semelhante, e assim Allan Kardec nela se comporta. Entretanto, tudo começa não exatamente em mil oitocentos e sessenta e dois, como o título sugere, mas dois anos antes. O novo Atos se inicia nos derradeiros dias do outono de mil oitocentos e sessenta. E a gente vai ver, então, essa introdução do que se trata. Muito bem? Preparados? Vamos embora!

O livro dos espíritos e o livro dos médiuns tinham se constituído, desde os seus lançamentos em êxitos de livraria, e o seu autor se fez, de imediato, notado. Dilacerada por uma cabrunhante tristeza, a humanidade disputava pensamentos capazes de oferecer uma nova e veraz interpretação para tudo quanto pudesse ser julgado de real importância.

As religiões apresentavam sinais de uma incurável senilidade e deixavam de ser o freio esterilizante, mas a ética que trezandava do ensino comunicado pelos espíritos superiores podia ser considerada não como uma religião, mas a própria religião, surgindo de uma tenebrosa noite sufocada pelo fumo acre que trezandava a carne humana assada nas fogueiras. O seu símbolo não era o freio, porém, a chave, e nisso estava implícito ao mesmo tempo uma esperança e uma ameaça.

Havia algo de esgotante e doentio naquele decisivo século XIX, em que o homem alcançara o superlativo de uma técnica elaborada em um suceder inimaginável de gerações, a de amar tão bem, amando tão pouco. Allan Kardec, com seu olhar acobreado e fosforescente, não apreciava ver-se colocado na galeria marcial dos filósofos e enfrentava os louvores que lhe tributavam como algo de perigoso e inquietante.

Era taciturno, e a única coisa que parecia interessá-lo, ele haveria de ser sempre um pedagogo, era um processo de educação ao qual se engajara com tanta paixão quanto dantes o fizera em relação ao de pestalozzi consistia em varrer do homem e das instituições sociais um fator tão simples quanto terrível o egoísmo substituindo-o por outro igualmente tão simples que faria muita gente, durante anos de insensatez, rir-se a socapa, a caridade.

Em seu sentido global essas duas categorias breves guardam em si toda a complexidade da dor e da alegria humana, da mais negra miséria e da mais estuante felicidade. A negação de um e a afirmação da outra eram a garantia do reino prometido, e por isso, o professor sentia-se impelido a escrever milhares de palavras, a deixar a posse livros capazes de, nas coordenadas mesmas dos evangelhos do Cristo, enfrentar

os séculos. Em conjunto esse trabalho deveria contar com um fator decisivo para sua definitiva conclusão, o tempo. e os ponteiros do relógio, como dedos acusadores, muitas vezes apontavam em riste para o professor. Por esse motivo suas viagens de propaganda se reduziram a menos de meia dúzia. Não podia comprometer a feitura da obra, toda ela dependente de introspecção, toda ela educação, recursos do intelecto para lutar contra as intimações do coração violento.

Olha que interessante, né? Kardec era um educador e ele fez isso com maestria na doutrina espírita. Só que ele já tinha uma idade e precisava se apressar. Tanto que ele teria, se não tivesse desencarnado, ele teria publicado muitas outras obras, não tenha dúvida. Então ele não podia passar o tempo todo viajando para ver como é que as coisas estavam andando. Como a gente viu aí, já tinha lançado o Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns e era um sucesso absoluto.

Então as pessoas se interessavam. Centros nasciam em tudo quanto é canto, não só dentro da França. E ele queria acompanhar como bom mestre para saber como é que a educação dos seus pupilos estava ocorrendo. E que ele sempre confirmava nessas viagens a importância da caridade em oposição ao egoísmo. Então esse era o objetivo principal. Mas vamos continuar na leitura.

Vamos lá. Como sucedeu à maioria dos grandes reformadores, uma parte de seus contemporâneos soube ver nele as qualidades exigidas ao predestinado. E um desses homens foi o Sr. Guillaume, residente em Lyon. Guillaume guarda a honra histórica de ter motivado a primeira viagem de propaganda do espiritismo kardecista. Kartearam-se a respeito em agosto de mil oitocentos e sessenta. Kardec partiu sozinho, deixando para trás uma Paris em volta nas brumas de Mortiço, outono.

Pode-se imaginar como voltou a pisar o solo de sua cidade natal. Nas vésperas da partida, exprimindo sua surpresa pelo desenvolvimento do Espiritismo na Terra em que vira a luz, ouviu de uma entidade comunicante o comentário seguinte, Por que te espantas, Leon à cidade dos mártires? A fé ali ainda é viva. Ela dará apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lyon é o coração.

Cem anos depois, escrevendo sua admirável obra, Ave Cristo, o Espírito Emmanuel, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, ofereceria ao mundo, por um enfoque que só os arquivos da espiritualidade superior permitiriam, a crônica dos heróis do cristianismo nascente, e que fizeram de Lyon a cidade dos mártires. Cortada em duas pela fita nebulosa do Rony, Kardec deve ter percebido que a cidade de sua infância já não existia mais.

Quarenta anos se tinham passado, e da casa da rua Sala no setenta e seis, onde nascera, nenhum único vestígio podia ser

encontrado. fora posta abaixo logo em seguida as inundações de mil oitocentos e quarenta o mesmo destino sofreram o estabelecimento de águas minerais de frederico syriac de timar e a residência de françois tarde os dois amigos de seu pai que tinham firmado no tribunal a certidão de nascimento do menino e politi Por outro lado, as escassas notas históricas não informam se o velho juiz Rivail ou a dama Jindou Amel, seus pais, ainda viviam. Allan Kardec é sempre

extremamente econômico. Há cerca de Hippolyte Léon Denisard Rivail, de sorte, que a biografia do segundo se dilui na obra do primeiro, um alicerce tenaz e insólito, mas fatalmente oculto e desapercebido. Como Saulo possuído de vertiginosa incerteza, e que se transforma em Paulo pela decisão de agir. A caminho detivera-se em Sens, Macron e Saint-Etienne. É ainda o presidente da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris.

Sua renúncia ao cargo fora, pouco antes, negada e Kardec vira-se reeleito por quase unanimidade, um voto em contrário, um em branco. Como você pode ver, nós estamos ainda num prefácio que não foi escrito por Kardec, obviamente, senão não ia falar sobre Emmanuel, Chico Xavier e tudo

mais. Mas só para dar um panorama do que estava acontecendo naquela época e um dos primeiros lugares que Kardec visitou é justamente a cidade que ele nasceu, Lyon, só que ele não encontrou absolutamente nada, nada como era antes. O que é de se esperar, né? As cidades mudam, são muito dinâmicas, né? E aí ele continuou e fez a sua viagem que foi acertada já começando em mil oitocentos e sessenta, né? Então vamos continuar mais um trecho do estudo de hoje.

Noite de dezenove de setembro de mil oitocentos e sessenta, Kardec é recebido no centro espírita de Botô, o único existente em Lyon, sua terra natal, né? A porta esperam no Ju, de Ju, eu não sei se é assim que fala, operário, chefe de oficinas e sua esposa. Este é, na história, o primeiro encontro de dirigentes espíritas, olha que legal. Ju encontra-se à testa do grupo lionês Kardec, que desempenha as funções maiores na sociedade

parisiense. A mão do emérito pensador aperta vigorosamente os dedos calosos e ásperos do companheiro a quem chama irmão. No olhar grave que trocam, vê-se que mutuamente se entendem, embora em planos diferentes suas responsabilidades se equivalem. Imagina, né? O criador de espiritismo visitar um centro espírita. E curiosamente, caso você não saiba, eu acho que deve aparecer aqui nestes estudos, é que a maioria dos estudantes do Espiritismo eram os trabalhadores, era o

proletariado. Olha que interessante, né? Mas vamos continuar aqui. transpostos os portais, o coração de Kardec se rejubila, um milagre a que tantas vezes já fizera menção, sempre com arrebatamento, e orgulho, o grande feito que compete a doutrina espírita realizar, consubstancia-se ali, ante seus olhos, e é um mentor espiritual, Erasto, em sublime epístola dirigida à comunidade lionesa, Quem vai encontrar palavras para vestir a emoção do codificador?

Não podeis imaginar quanto nos é doce e agradável presidir ao vosso banquete, onde o rico e o operário se abraçam, bebendo a fraternidade. Kardec dirige-se à tribuna singela e o centro espírita de Brutaux, pelo futuro em fora, será lembrado como o local da pira. Ali é aceso o fogo sagrado que empunharão, através dos séculos, todos aqueles que se compromissaram, mesmo ao preço de injúrias, suor e lágrimas, a divulgar as glórias do Espiritismo pela bênção da Palavra.

Todavia a noite inesquecível transcende insignificações. A mulher, perfumada de amor e vestida de renúncia, vai ser a valiosa companheira do Espiritismo. Os dois cúmplices, de mãos dadas, disserão as escadas sombrias ou baterão, docemente, as portas das mansardas. Secarão lágrimas e reacenderão esperanças. Mas e melhor do que o homem, ela comporá a galeria torturada dos grandes médiums que abalarão os negadores mais recalcitrantes.

Tinha seguido os passos de Jesus e se mantivera solitária aos pés da cruz até que as roucas invocações subiram ao Gólgota quando as cortinas do templo se partiram. Agora que o Consolador Prometido se anunciava, pressurosa ela corria a ocupar o lugar de seu destino. Se ontem chamara-se Maria de Magdala, Marta, Maria, ou Salomé, hoje chama-se Senhora, de Jou.

Por isso todo o encanto se prejudicaria-se, naquela noite outonal, de mil oitocentos e sessenta, imprescindível presença, ela não tivesse disserrado a Allan Kardec as portas do centro espírita de Bruchaux. Todavia ali está a Senhora, de Jou. Seu sorriso sem artifícios é como um maravilhoso diálogo, seu olhar resoluto, é cheio de convicção. Pode-se imaginar que tenha de sido da Croix-Rousse para os Terriaux, nos grupos tumultuosos de operários quando lhes faltou

o trabalho. Agora, firmemente especada ao lado do marido, ela é a segunda potência nesse momento histórico. Qual é o seu prenome? Por que veio a partilhar essa situação da qual, em obediência ao status social vigente no tempo, apenas o homem deveria ser o ator visível? Kardec, entretanto, pressentiu que ela se tornaria em um monumento, e por isso, bem ao seu modo, guardou-lhe não os traços físicos, mas os traços

morais. Do jantar amável que lhe foi oferecido pelo operariado de Lyon, transcreveu na sua revista espírita o pequeno discurso do Sr. Coutet, um negociante no qual a Srta. Dijoux se encontra de corpo inteiro. É interessante este trecho aqui, que ressalta a importância da mulher na própria doutrina espírita, em tudo o que está acontecendo desde a sua confecção. que Amélie Boudin, esposa de Kardec, foi imprescindível colaboradora em tudo.

Ela não foi um enfeite. Ela é uma mulher que estava dando só suporte. Não, ela analisava junto, ela estudava junto, ela foi o braço direito e esquerdo de Kardec o tempo todo. Vamos continuar. Senhores, na qualidade de membro do Grupo Espírita de Brutaux, e em seu nome, venho vos propor um brinde em honra do Senhor e da Senhora, de Jô. Senhora, cumpro um dever muito agradável, servindo de intérprete de toda a nossa sociedade, que vos agradece por tudo o quanto fizestes em nosso

favor. Quantas consolações havéis feito brotar entre nós! Quantas lágrimas de ternura e de alegria nos fizestes derramar. Vosso coração, tão bom e tão modesto, não se orgulhou com os vossos sucessos e com isso, vossa caridade aumentou. Bem sabemos, Senhora, que apenas sois o intérprete dos Espíritos superiores, que a vós estão ligados mas, também, com que devotamento realizais essa

tarefa. Por vosso intermédio nos iniciamos a essas altas questões de moral e filosofia, cuja solução deve trazer o reino de Deus e, por consequência, a felicidade aos homens neste mundo. Também vos agradecemos, Senhora, a assistência que dás aos nossos doentes. Vossa fé e vosso zelo disso recebem a recompensa pela satisfação que experimentais em fazer o bem e aliviar o sofrimento. Nós vos pedimos a continuação dos vossos bons ofícios.

Ficais certa de toda a nossa gratidão e de nosso eterno reconhecimento na história do Espiritismo Kardecista, essa mulher do povo, essa esposa e mãe de operários. É a primeira figura feminina que se projeta na linha de um horizonte difuso, no qual, entretanto, firmemente acendem-se as luzes das mais altas aspirações e expectativas jamais oferecidas ao gênero humano.

A senhora, de Jô, sobrepõe-se às personalidades torturadas, para além do suportável, às mulheres de sua classe, em seu tempo, e cerrando. As portas do Centro Espírita de Brutaux, a saída de Allan Kardec, fim da sessão memorável, serra também as portas do passado.

Em verdade todas as mulheres que hoje vivem e abençoam a situação e a condição de espíritas, devem-lhe gratidão, pois que a Senhora de Jô é um ser distinto, marcado com os sinais precisos e irrefutáveis de uma ação que lhe deve ter custado a ameaça de mil perigos invisíveis. Olha que interessante, né? Senhores, na qualidade de membro do grupo...

Eita, mostra realmente que Kardec, no seu primeiro discurso, já vai falar, já vai citar a importância de uma mulher estar à frente, recebendo ele nessa viagem a Lyon. E isso é muito bonito de se ver. Continuando, vamos lá. Essa primeira viagem de Kardec tem o dom de acender entusiasmos além do imaginável. Já agora o homem não pode deixar de pensar. Uma imprensa teuda e manteuda por interesses bem conhecidos, também Lyon acaba de se

despertar. Mas em torno do casal de Ju e do senhor Guillaume, Guilhom, eu não sei falar, o espiritismo é feliz e espontâneo. Arregimenta adeptos e estes se unem por uma teia de fidelidade de ideias sem hesitações. Nada e ninguém já poderá afastá-los. Pela revista Espírita Kardec escreverá estas impressões de viagem. Eu bem sabia que em Lyon...

Os adeptos eram em grande número, porém, estava longe de suspeitar que fosse tão considerável, pois se contam por centenas e em breve, espero, serão incontáveis. Então, a primeira surpresa de Kardec, como que estava grande já o movimento espírita. Continuando. e foi para verificar se o seu prognóstico se tornara em realidade, que Kardec retorna à cidade dos mártires no ano seguinte, mil oitocentos e sessenta e um. Como anteriormente, escolhe o

outono para a excursão. O vento frio soluça entre os ramos que se enrijecem, e as folhas cor-de-cobre pingam melancolicamente dos plátanos e castanheiros, quando ele desce de novo em Macon e, sem esparabraçar, depois de um ano, os companheiros espíritas, exatamente a dezenove de setembro, encontra-se de novo entre os amigos lioneses. Mas agora, como predissera, os grupos multiplicam-se.

Há-os em Guillotieri, em Perrache, em Croix-Rousse, em Weiss, em Saint-Just, sem contar o grande número de reuniões familiares. Kardec sente-se invadido por indefinível sentimento. A sua Lyon é, para ele, um doce tormento, uma dessas congeminações que traduzem o triunfo da causa pela qual dá sua vida e a ira deletéria de seus críticos impotentes. O tema predileto de Kardec é a caridade, porém ele bem sabe que o despeito pode ser tão

clarividente quanto a bondade. Um operário de Senjust emociona-o profundamente discursando com admiráveis palavras. Viemos de longe e subimos às alturas de Senjust com um calor extenuante. Trouxemos conosco as nossas ferramentas de trabalho juntamente com o pão e o queijo. Queríamos partilhá-lo convosco. Um verdadeiro ágapo oferecido com a simplicidade antiga e o coração sincero. E um copo de vinho que essa brava gente não pode beber todos os dias. Ah! Uma verdadeira festa.

Iríamos ouvir falar de espiritismo mas, pela Gazeta de Lyon, um certo senhor. C.M. chama, aos espíritas, alucinados que romperam com todas as crenças religiosas de seu tempo, e de seu país, a resposta de Kardec e Sarena. O Espiritismo não é uma seita política, como não é uma seita religiosa. é a constatação de um fato, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões, em todos os tempos, em todos os países. A moral que ensina é boa ou má?

É subversiva? Estudem-na e saberão do que se trata. Todavia, desde que a moral do Evangelho desenvolvida, condená-la será condenar o Evangelho. E foi para verificar... Que é fora de série, né? Hoje a minha leitora tá meio doidinha, né? Mas enfim, deixa pra lá. Kardec é fora de série porque ele faz dos limães umas lismonadas, né? Porque ele... Claro que é um chamal espiritismo, de quanto é nome feio possível, foi perseguido pra caramba, né?

E tava incomodando, porque tava juntando muita gente, né? Nessa segunda visita, em mil oitocentos e sessenta e um, né? Pra Lyon de novo. a coisa tinha tomado um outro tamanho e muita gente vinha de longe para ouvir falar do Espiritismo. Obviamente, a imprensa atacando, puxando o saco da igreja, atacando o Espiritismo e por aí vai. É interessante a gente saber disso, só no prefácio. Olha que interessante. Vamos lá, continuando. Em Kardec não há pusillanimidade.

Lembrando que o leitor não sabe direito falar as palavras em francês, nem eu sei, muito menos ela, né? Então, não sabe falar nem Kardec, fala Kardec, então há um desconto sobre isso, tá bom? No outono de mil oitocentos e sessenta e dois, deixa Paris para sua terceira viagem de propaganda espírita. Essa será a mais extensa a ser feita em toda a sua vida e se alongará até Bordeaux. Precisa constatar o processo de fermentação.

O mundo do homem encarnado era um mundo enfermo que se tentava analisar dentro dos quadros da psicologia ou da filosofia, mas tudo aquilo era suscetível de mais... de uma explicação. Kardec preparou com zelo habitual o material de sua oratória e, de fato, o seu tema de eleição está melhor do que nunca expresso no legado dessa viagem. Tudo quanto vai dizer é fruto de uma experiência pessoal. Essa experiência caminha para nós E a voz que é expressa apesar dos anos, nada tem de debilidade.

Entre o homem e sua felicidade ergue-se a sombra, a terrível paixão, o egoísmo. Isto é uma espécie de grito que precisa ser mil vezes repetido até que o grande obstáculo, a sombra, seja reconhecida como o pior dos inimigos, ou seja, o egoísmo. Enquanto isso não se faça, todos estaremos excluídos da felicidade que desejamos partilhar. Todavia, é inútil repetir o tema que o leitor vai encontrar neste livro. A gente vê que tem uma série de considerações.

Eu não tenho informação quem são os autores desse prefácio, mas você percebe que tem bastante gente escrevendo aquilo. Acredito que não seja uma pessoa só. Mas vamos continuar. A viagem espírita em mil oitocentos e sessenta e dois levou Allan Kardec a mais de vinte cidades diferentes, nas quais presidiu a cerca de cinquenta reuniões. Um convite subscrito por quinhentos assinaturas, efetuado mais uma vez pelo grupo lionês,

promoveu-a. No decorrer dessas seis semanas de mil oitocentos e sessenta e dois, ao outono sucedeu o inverno, e foi através da chuva, do frio e da neve que o grande missionário se locomoveu pela província francesa. Em novembro do mesmo ano, pelo editorial da Revue, prestava conta de seus passos, escrevendo, acabamos de fazer uma visita a vários centros espíritas da França, lamentando

que... O tempo não nos tenha permitido ir a toda parte onde nos haviam convidado, nem prolongar nossa visita a cada localidade tanto quanto desejávamos, dada a acolhida simpática e fraterna recebida. Durante uma viagem de mais de seis semanas e um percurso de seiscentos e noventa e três léguas, estivemos em vinte cidades e assistimos a mais de cinquenta reuniões.

O resultado nos deu uma grande satisfação moral, sob o duplo aspecto das observações colhidas e da constatação dos imensos progressos do Espiritismo. O relato dessa viagem, que compreende principalmente as instruções por nós. oferecidas aos vários grupos, é muito extenso para ser publicado na revista, pois absorveria quase dois números. Fizemos uma separata, do mesmo formato, a fim de, caso

necessário, a ela ser anexada. Esse editorial é fechado com chave de ouro através de dois magníficos parágrafos. Parece nos indicado aproveitar esta circunstância para retificar uma opinião que se nos afigurou muito generalizada. Várias pessoas, principalmente na província, tinham pensado que o custo dessas viagens corria por conta da Sociedade de Paris. Tivemos que explicar esse erro, sempre que se apresentou. Aos que possam ainda pensar assim, lembramos o que foi dito

em outra ocasião. A sociedade se limita a cobrir as despesas correntes e não possui reservas. Para que pudesse constituir um capital, teria que visar o número de adesos, é o que não faz, nem quer fazer, pois seu objetivo não é a especulação, e o número não dá importância aos seus trabalhos. Sua influência é toda moral, e o caráter de suas reuniões dá aos estranhos a ideia de uma assembleia grave e séria. A viagem espírita em mil... Para, mocinha. Este é o seu mais poderoso meio

de propaganda. Assim não poderia ela prover nenhuma despesa. Os gastos de viagem, como todos os decorrentes das relações que estabelecemos em favor de espiritismo, são cobertos por nossos recursos pessoais e nossas economias, acrescidos do produto de nossas obras, sem o que ser-nos-ia impossível enfrentar todos os encargos consequentes da obra que empreendemos. Digo isso sem vaidade, mas unicamente em homenagem à verdade e para edificação dos que imaginam que entesouramos

dinheiro. Ou seja, Kardec levava nome, né? Ah, a sociedade está pagando este passeio. Veja bem, Kardec não ganhava nada com o Espiritismo e ele parava para ir viajar com o seu próprio dinheiro e com o dinheiro que vinha da venda das obras espíritas. Então, ninguém... pagava isso. Então Kardec sempre foi muito

correto e também anunciava. Uma das coisas interessantes que eu vi aqui é que ele diz que essa viagem não foi colocada na Revista Espírita porque ia pegar duas edições de tão grande que seria. Então eles fizeram este Documento que a gente está estudando sobre a viagem, sobre tudo que aconteceu naquela viagem para não entupir a Revista Espírita de outras coisas. Mas nós vamos ver, estudando a Revista Espírita, relatos dessas viagens que aconteceram a partir de mil oitocentos e sessenta.

Mas a maior zona foi mil oitocentos e sessenta e dois mesmo. Então vamos finalizar o estudo de hoje. André Moreio, o mais recente biógrafo de Kardec, comenta a viagem espírita em mil oitocentos e sessenta e dois nos seguintes termos.

Essa grande viagem foi, mais tarde, publicada em obra especial, que se tornou auxiliar indispensável aos grupos espíritas, tanto no que concerne à doutrina, quanto no que diz respeito à organização e administração das sociedades espíritas, cremos que este livro não foi, até o momento, editado em língua portuguesa. Lançamo-lo não apenas por sua alta qualidade doutrinária, mas ainda como uma adesão.

Da casa de Caerbach Hotel às comemorações do um centenário de desencarne de Allan Kardec, ocorrido em mil oitocentos e sessenta e nove. Os conceitos nele contidos são tão atuais e frescos, tão fundamentais à boa conduta das entidades espíritas, que poderiam ter sido escritos em mil novecentos e cinquenta e dois. O leitor arguto e atento fará aqui mil descobertas de

transcendental valor. Cem anos transcorridos, as instruções de Kardec são ainda perfeitamente aplicáveis e uma garantia para a pureza doutrinária. Caracterizam-se pela firmeza, lucidez e responsabilidade. Finalmente, o seu curioso modelo de regulamento, O antepassado dos atuais estatutos das sociedades espíritas é um exemplo de ponderação, de repulsa ao misticismo e uma revelação de alto espírito universalista.

A Viagem Espírita em mil oitocentos e sessenta e dois é obra em que, de singular maneira, o homem Allan Kardec se nos revela com sua consciência histórica. em súbitos clarões, permite que o vejamos bem próximo de nós, o ser que já realizou o que intentamos, isto é, a substancial reforma interior, que, só ela, possibilita a mágica interação, a criatura vivendo no espiritismo, o espiritismo vivendo na criatura. Lindo, né? Muito bom. Fica quieta, coisinha.

Muito bom. E aí a gente entende que esta obra foi traduzida e apresentada a nós aqui no Brasil em mil novecentos e sessenta e oito, comemorativa a cem anos do desencarno de Kardec, e feito em Araraquara, pela casa Caibar Schutel, se eu não me engano, pela editora Oclarim, e que trouxe para nós este estudo de hoje, que foi este prefácio.

A partir do próximo episódio é que nós vamos começar a estudar a obra feita por Kardec. Até então a gente está vendo uma ambientação de como tudo aconteceu, de como tudo foi feito, mas a partir do próximo episódio, deixo o convite aí, nós vamos começar a estudar a obra escrita por Kardec. Já agradeço a sua presença. Não se esqueça de se inscrever no canal e, se puder, seja membro também. Eu te espero no próximo episódio. Até mais. Tchau.

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