¶ Intro / Opening
E o resto é história. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
¶ Introdução: O Legado de Franco e Salazar
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de E o Reste é História com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Durante boa parte do século XX, a Península Ibérica... teve esta característica muito particular. Foi dominada por dois ditadores que marcaram profundamente a história política dos dois países, mantendo-se no poder durante... praticamente 40 anos, até à morte de ambos já na década de 1970. É verdade que Salazar tecnicamente foi afastado do cargo.
por causa da famosa queda no forte Santo António da Barra, que o deixou incapacitado, embora, diz a lenda, enfim, acho que não é assim tão lenda, nós já falámos disso aqui, que ele nunca terá sido bem informado, que já não mandava no país. No entanto, hoje o nosso... programa não é propriamente sobre Salazar, é sobre... Outro ditador da Península Ibérica, o general Francisco Franco, o caudilho de Espanha, já que se assinalam 50 anos da sua morte, ocorrida a 20 de novembro de 1975. Rui.
Conta-nos então quem foi este homem que conseguiu manter-se no poder durante quase metade do século XX. Já agora diz-nos também se o franquismo foi um pouco como o salazarismo, com fases muito diferentes na década de 30 e depois nas décadas de 1940. e 50, depois mais tarde nas décadas de 60 e 70 e finalmente eu desafiava-te para isto que nos explicasses de um modo sucinto quais é que são as diferenças essenciais entre a ditadura espanhola e a ditadura portuguesa
Tu dirias que estas duas ditaduras foram muito parecidas entre si ou mais distintas do que muitas vezes imaginamos? As duas coisas foram muito parecidas e também mais diferentes do que... Pensamos. Eu ia convidar aqui os nossos ouvintes para fazer uma espécie de jogo, um jogo de semelhanças e diferenças entre o regime de Franco e o regime de Salazar, entre o chamado Estado Espanhol. e o Estado Novo, e para cada semelhança há uma diferença.
¶ 1ª Semelhança e Diferença: A Natureza do Poder
E portanto vamos falar de sete semelhanças e de sete diferenças a propósito das mesmas coisas. Ok, muito bem. Primeiro...
Lindo jogo. Portanto, a primeira semelhança foi aquela que tu já referiste. Estamos a falar de dois homens que estiveram à frente das duas ditaduras que no século XX mais duraram na Europa Ocidental, não em toda a Europa, porque as ditaduras... comunistas da Europa Oriental duraram mais tempo, mas Salazar foi chefe de governo de Portugal entre 1932 e 1968, durante 36 anos, e Francisco Franco foi chefe de governo, chefe de Estado.
Aliás, de Espanha, entre 1939 e 1975, durante também 36 anos. Pertenciam mais ou menos à mesma geração. Salazar tinha nascido em 1889, Franco tinha nascido em 1892 e estiveram... Os dois no poder até uma idade avançada. Salazar até aos 79 anos, em 1968, e Franco até aos 82 anos, em 1975. Primeira semelhança. Muitas semelhanças aí. Primeira diferença. Se a autoridade política de cada um na respectiva ditadura era óbvia, a sua posição não era a mesma.
Salazar era, o título oficial era Presidente do Conselho de Ministros, portanto nós hoje diríamos Primeiro-Ministro. Ele era, enquanto Primeiro-Ministro, portanto Presidente do Conselho de Ministros, era nomeado pelo Presidente da República. que, segundo a Constituição do Estado Novo, de 1933, o podia demitir a qualquer momento. Ele dependia inteiramente da confiança do Presidente da República. A demissão de Salazar nunca aconteceu.
Era improvável, mas era possível. Ou antes, nunca aconteceu, enquanto ele esteve capaz. Aconteceu em 1968, quando ele ficou incapacitado. A situação de Franco era completamente diferente. Franco era o chefe de Estado. Era também chefe de governo. até 9 de junho de 1973, quando ele nomeou, portanto, dois anos antes de morrer, nomeou pela primeira vez um primeiro-ministro, e era generalíssimo dos exércitos, portanto, era o comandante supremo das forças aeronaves.
Não havia uma segunda figura nem que fosse de cerimónia como presidente. Ele era o chefe, ele era o caudilho da Espanha. pela graça de Deus, era assim que estava nas pesetas, nas moedas espanholas, ainda alguém se deve lembrar disso, Francisco Franco, caudilho de Espanha, pela graça de Deus, ninguém o podia admitir. Nenhum outro poder do Estado lhe podia pedir contas ou limitava. Ele era...
Praticamente, ele é o último rei absoluto da Europa Ocidental. Como se dizia oficialmente, o caudilho só responde perante Deus e perante a história. Portanto, isto era o poder de Franco. E ele concentrava os poderes executivo, legislativo. Francisco Franco era o soberano de Espanha. Portanto, uma posição completamente diferente da de Salazar em Portugal.
Por detrás desta diferença estavam duas causas, quer dizer, ambos os regimes... assentavam nas Forças Armadas, mas Salazar era um civil, era um professor universitário de finanças, muito prestigiado na universidade, mas era da universidade que eu vinha, e Franco era um general que tinha adquirido uma grande reputação na guerra de... na década de 1920, uma reputação de herói, de grande combatente.
E era, claro, o Comandante Supremo das Forças Armadas. Por outro lado, e vamos falar disso a seguir, mas vou achar só desta indicação, o Estado Novo manteve instituições representativas de tipo tradicional. Embora, claro, que a base eleitoral não fosse genuína. A Assembleia Nacional, não é? Sim, um Parlamento, a Assembleia Nacional, fazia eleições regulares para a presidência da República, fazia eleições regulares para a Assembleia Nacional e a Espanha não fazia nada disso.
Franco não era eleito, não era nomeado, ele era pura e simplesmente como um rei. Isto estava ali como um rei. Mas, repito, voltaremos a isto a seguir. Segunda semelhança.
¶ 2ª Semelhança e Diferença: Origens Militares e Guerra Civil
Ambos os regimes têm origem em revoltas de... oficiais do exército, oficiais de opiniões conservadoras, contra repúblicas que eram anticlericais e dominadas. por partidos da esquerda. Portanto, a ditadura de Salazar começa com o movimento militar de 28 de maio de 1926 e a ditadura de Franco começa com o movimento militar também de 18 de julho de 1936.
Portanto, nem Franco nem Salazar são como Hitler, como Mussolini ou como Stalin. Isto é, não são líderes de partidos que tivessem tomado... o Estado, quando eles chegam ao poder, Salazar e Franco, não têm nenhum partido por detrás dele.
por trás deles. Portanto, eles dependem da confiança dos militares que tomaram o poder. Portanto, os seus regimes mantiveram sempre esse lado militar, quer o Estado Novo, quer o Estado Espanhol. As forças armadas valeram sempre muito mais de... qualquer partido, e os partidos que existiram, enfim, vamos chamar de partidos únicos que existiram, tiveram sempre uma dimensão secundária, quer dizer, quer a União Nacional em Portugal, quer o movimento, o movimento nacional em Espanha.
Enfim, eram... Não vamos dizer que não... que eram irrelevantes, mas não tinham a força do Partido Fascista e tal, e do Partido Nacional Socialista na Alemanha, na Asia, ou do Partido Comunista na União Soviética. Também havia a questão de haver ou não milícias. O espanhol tinha? Eles tinham sujeitas ao exército. Não precisava disso porque dominavam o exército. Era o exército, eram os exércitos que dominavam. Portanto, segunda semelhança e a partir daqui segunda diferença.
Porque o movimento de 28 de maio de 1926 em Portugal foi logo bem sucedido. Isto é, a revolta militar não encontrou resistência. Foi acolhida pacificamente. e só nos anos seguintes, a partir de 1927, é que da parte das esquerdas republicanas que tinham sido afastadas do poder é que houve umas tentativas de contragolpe geralmente sufocadas em poucos dias ou numa semana, quando foi à revolta da Madeira de 1931, por causa da distância durou um bocadinho mais de tempo. Em Espanha, não.
Em Espanha, o movimento militar 18 de julho de 1936, o alçamento, portanto o levantamento, em certa medida falhou. Falhou porque só metade do exército é cadril, a outra metade do exército manteve-se fiel ao regime republicano. ao regime republicano de esquerda, e como resultado desse fracasso do levantamento militar de 1936, o exército dividiu-se e houve uma guerra civil. É por isso que houve uma guerra civil, o exército dividiu-se.
E essa guerra civil teve duas consequências que diferenciaram imediatamente o Portugal de Salazar da Espanha de Francisco Franco. Primeiro... Franco só tomou verdadeiramente conta do poder em toda a Espanha, depois de três anos de guerra civil. em que ambos os lados lutaram com toda a violência e tentando matar o maior número de gente possível do outro lado, isto é franco, matou muita gente, cerca de 100 mil vítimas franquistas.
durante a Guerra Civil e depois da Guerra Civil, mas os republicanos também mataram esse agente, 40 mil pelo menos, mas pode ter chegado a 100 mil. execuções, massacres, etc. Franco matou mais gente porque ganhou e, portanto, continuou a matar. Os republicanos, a esquerda republicana e os comunistas, provavelmente, se tivessem ganho, também teriam continuado a matar gente.
não puderam. Aliás, houve uma guerra civil dentro da guerra civil, com os comunistas, por exemplo, a tentar exterminar os anarquistas, mas o resultado disto é que o regime franquista, quando emerge em França, em Espanha... com a vitória na Guerra Civil, em 1939, em abril de 1939, é um regime manchado de sangue. Isto é, não há...
nenhum mito dos brandos costumes em Espanha, quer dizer, como há em Portugal. Quer dizer, aquilo é um regime de violência que vai continuar a executar pessoas até pelo menos 1963 relativo a crimes que eles acusavam. os adversários terem sido cometidos durante a guerra civil. Continuou a executar, a condenar à morte gente a seguir. Não é um regime duríssimo, extremamente agressivo.
não disfarça, não estou a dizer com isto que a ditadura portuguesa fosse simpática e cordial, não, também era uma ditadura, como aliás observaram os diplomatas espanhóis em Lisboa, uma ditadura de mão dura. também tinha muita mão dura, mas conseguia disfarçar isso e permitia, por exemplo, esse aspecto dos brandos costumes. Por outro lado, a guerra civil em Espanha internacionalizou-se.
Houve intervenção externa das ditaduras europeias, da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler a favor de Franco, da União Soviética de Stalin a favor da esquerda republicana e dos comunistas. Portanto, eles enviaram armas, enviaram... homens... Toda a gente acompanhou a guerra civil espanhola entre 1936 e 1939, escreveram-se livros, fizeram-se filmes, Franco suscitou reações de toda a gente.
na Europa e nos Estados Unidos, toda a gente teve opiniões, quer dizer, acompanhou a guerra civil e teve opiniões, e isso nunca aconteceu a Salazar. Eu creio que não seria muito errado que em termos das grande opinião, quer nos países da Europa Ocidental, quer nos Estados Unidos, provavelmente nunca ninguém tinha ouvido falar do Portugal de Salazar, até para aí em 1961, quando começou a guerra em Angola. Ninguém se fazia ideia.
do que era Salazar, do que é que... do que tipo de regime é que havia em Portugal, enfim, isso depois já dá... Sim. Portanto, não há nada de comparação em termos da notoriedade, e estou a dizer até notoriedade, em termos... quase pejorativos, de um e de outro. Franco era conhecido por toda a gente e odiado por todas as esquerdas europeias e americanas e isso falava provavelmente pouca gente sabia quem era. Isso é um bom ponto, não é? Porque não falta um grande...
romances internacionais sobre a Espanha no século XX, mas tu não tens isso sobre Portugal. Não, há uma novela ou outra que se passa do Kingsley Ames, que vem a Portugal nos anos 50, mas são apolíticas, quer dizer, nada como por quem... Chines Dobran, do Hemingway, ou coisa assim, não há nada. Ou L'Espoir, do Antoine Malraux, ou a Homenagem à Catalunha, do George Laurel, quer dizer, não há nada disso para Portugal, porque em Portugal nunca houve aquele acontecimento.
tão dramático como a Guerra Civil em Espanha, onde houve muitos escritores franceses, britânicos, americanos, que foram para a Espanha durante a Guerra Civil, imensos jornalistas, foi tudo muito discutido, muito visível.
¶ 3ª Semelhança e Diferença: Neutralidade e Status Pós-Guerra
Terceira semelhança. Ambas as ditaduras nos anos 30 e no fim dos anos 30 e princípios dos anos 40 mantiveram-se não beligerantes na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1930. e 1945, e depois, durante a Guerra Fria, a partir de 1948, foram recuperadas pelos Estados Unidos.
como aliados para resistir à União Soviética na Europa. Portanto, os Estados Unidos adquiriram bases militares quer em Portugal, quer em Espanha. Por exemplo, o presidente Eisenhower dos Estados Unidos visitou a Espanha em dezembro de 1959. Portanto, há fotografias dele lá com muito som. sorridente com o general Franco e visitou Portugal em maio de 1970 e também há muitas fotografias dele muito sorridente com Salazar.
Portanto, isto é a semelhança dos países não beligerantes e depois integrados no bloco ocidental. Daí vem também uma terceira diferença. É que durante a Segunda Guerra Mundial, embora não beligerantes... E mantendo relações com ambos os lados, Portugal e Espanha não foram totalmente neutrais. Portugal esteve ao lado da Inglaterra, de acordo com a antiga aliança, aliás, isso foi declarado personalizado logo em 1930, portanto, era não beligerante.
não ia participar na guerra, mas respeitava o acordo que tinha com a Inglaterra, e a Espanha está ao lado da Alemanha e da Itália, uma vez que Franco devia também o seu poder em parte ao apoio que tinha tido. da Alemanha e da Itália. Franco vai enviar tropas espanholas para combater na Rússia contra a União Soviética em 1941, 1941 e 1943, para que ele participa na guerra de alguma maneira, embora nunca tenha participado.
na guerra contra os aliados ocidentais. O que é que isso significou? Significou que depois de 1945, a Espanha é tratada como um estado párea pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. quer pelos Estados Unidos, quer nos anos imediatamente a seguir ao fim da guerra, quer pela França, pela Inglaterra, isto é, tratam a Espanha de Franco como um antigo aliado de Hitler e de...
E nota-se no enquadramento internacional dos dois Estados, de Portugal e de Espanha, a seguir em 1945. Portugal tem acesso ao Plano Marshall em 1947, é um país fundador da NATO. em 1949, é um país fundador da EFTA, da Associação Europeia de Comércio Livre, em 1960, e a Espanha está fora de tudo. Está fora de tudo, em determinada altura, aliás, até esteve de relações cortadas, os países ocidentais até cortaram.
tornam relações diplomáticas com a Espanha. Eu tenho que interromper aqui porque chegou ao fim o tempo desta nossa primeira parte. Nós voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de O Resto é História. A propósito dos 50 anos da morte de Franco, o caudilho de Espanha, nós estamos aqui a traçar, o Rui se teve a ideia, a traçar diferenças entre o franquismo e o salazarismo.
E quando nós interrompemos na primeira parte, tu ias na terceira... Estavas na terceira diferença, na verdade, e estavas mais ou menos a meio da terceira diferença. Estava à meio da terceira diferença porque estávamos imediatamente no pós-guerra. No pós-guerra... Depois de 1945, a Espanha é tratada como um estado de paria, o Portugal de Salazar mais ou menos aceite nas organizações internacionais. Mas, curiosamente...
tanto Portugal como a Espanha, são admitidos na Organização das Nações Unidas ao mesmo tempo, em dezembro de 1955. E a razão para isso é que... meados da década de 50, Começa a notar-se que os preconceitos internacionais contra a Espanha estão a diminuir, isto é, a Espanha de Franco está a começar a ser aceita, ao mesmo tempo que os preconceitos contra Portugal estão a aumentar. Isto é, digamos que eles estão a trocar...
O Portugal de Salazar e a Espanha de Franco estão a trocar de posições internacionalmente. E qual é a razão para isso? A razão para isso tem a ver com o facto de que tanto Portugal como Espanha, nos anos 1930 a 1940, o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco, celebraram muito os seus impérios, consideravam-se impérios, mas depois de 1945 Franco cede à descolonização.
acaba por ceder o império, que não é muita coisa, é as possessões em Marrocos, que ele cede em 1956, e a Guiné Equatorial, que ele deixa tornar-se independente em 1968. Frank... despacha o Império Colonial Espanhol. Despacha pela razão que tu estás a dizer. Não é tanto uma questão de princípio, mas prática no sentido de... Não era muito importante. Este Império Colonial Espanhol é uma coisa...
minúscula e não tem muito interesse na Espanha. Tudo o que era importante já tinha sido perdido. A Cuba e o resto já tinha sido perdido no século XIX, portanto estes eram os restos e a Espanha neste momento até aliás está interessada em aparecer como uma vítima do colonialismo. Por causa de Gibraltar.
A Espanha põe-se ao lado dos povos oprimidos pelo colonialismo e pelo imperialismo ocidental nos anos 50 e para isso, claro, despacha as suas colónias e diz aqui estamos nós vítimas do imperialismo. britânico e queremos a devolução de Gibraltar. Sem sucesso até hoje. Mas os restos...
Portugal era um bastante maior... Salazar, não. Salazar decide defender Angola porque Angola e depois Moçambique são territórios grandes, têm grandes interesses. Há muita população europeia lá, que era uma coisa que também não havia... nas minúsculas restos do Império Espanhol, embora, curiosamente, preciso dizer, Franco estava associado a este Império, quer dizer, ele tinha se tornado famoso em Marrocos, e aliás em 1936 era, aliás, o comandante do...
e tinha-se tornado o comandante das forças que vinham de Marrocos para a Guerra Civil em Espanha. Mas de facto não é um império muito importante. Ora bem, mas esta... A diferença, a partir de, sobretudo, de 1960, faz com que as posições de 1945 se inverteçam. Isto é, Portugal passa a ter mais problemas de aceitação internacional do que a Espanha e, de repente...
é a Espanha que está a intermediar a favor isto é, em 1945 tinha sido Portugal um bocadinho, tinha tentado ajudar os espanhóis e depois é os espanhóis a tentar ajudar um bocadinho os portugueses. E isso também explica uma coisa também curiosa, que é a relação... entre Franco e Salazar.
Salazar coopera com Franco durante a Guerra Civil. É fundamental, aliás, para a vitória franquista na Guerra Civil. Portugal é uma grande retaguarda dos exércitos nacionalistas. Depois coopera com Franco nos... chamado Pacto Ibérico, isto é, naquele acordo entre as duas ditaduras em 1939, nem em grande medida para impedirem interferências na Península Ibérica, isto é, para isolarem a Península Ibérica.
Há muita consideração mútua entre Salazar e Franco. Há, de facto, muita consideração mútua. Eles consideram-se mesmo um ao outro. Mesmo em conversas privadas, em comentários, eles têm consideração... Chamar-lhes amigos. Não, não são amigos, mas são pessoas que têm respeito um pelo outro, quer dizer, têm mesmo respeito um pelo outro, genuíno respeito intelectual e político um pelo outro.
Mas isso não impediu que Portugal se tivesse distanciado um bocadinho de Espanha depois de 1945. Os espanhóis sentiram isso. Isto é, eles estão a ver se não se... Salazar não quer ser confundido com Franco. Aliás, era o que a oposição portuguesa queria, era que as potências ocidentais tratassem Salazar como estavam a tratar Franco. E obviamente... Em 45. E suponho que então na década de 100... E a partir de 1960 são os franquistas que se distanciam...
e nas Nações Unidas, de repente, fazem grandes discursos anticolonialistas que deixam completamente chocados os diplomatas portugueses. Aliás, é curioso, eles, Salazar e Franco, encontraram-se sete vezes. Só sete vezes. Isto é curioso. dois países vizinhos, e entre 1942 e 1963, em 20 anos, só se encontraram sete vezes. Mas é uma vez em 1942, e depois durante sete anos não se encontram mais.
Repara, em 1952, em plena guerra, 1945, e depois só em 1949 é que se encontra outra vez, isto é, quando a Espanha está a sair do frigorífico, digamos assim. E depois há vários encontros em 1950, em 52, 57, 60, geralmente em Espanha, em localidades fronteiriças de Espanha, e depois o último encontro é em 1963 e não sei.
voltou em contra mais, quer dizer, depois é a Espanha, francamente, não está interessada em manter grandes contactos com Salazar. Portanto, o fim da situação de párea de Espanha começa... coincide com o começo da situação para a área de Portugal e, portanto, esta ideia das costas voltadas, quer dizer, vem um bocadinho desta distância higiênica que os dois regimes decidem manter um do outro.
¶ 4ª Semelhança e Diferença: Apoios e Formato do Estado
aquelas coisas que são, do lado português, uma série de espanhóis que queixam-se dos complexos deles, julgam que nós os queremos anexar e aquelas coisas. Muito bem. Quarta semelhança? Quarta semelhança.
Tanto Franco como Salazar, inicialmente, portanto, Franco em 1936, Salazar em 1926, 28, 29, 30, 31, 32, tanto Franco... como Salazar inicialmente, puderam contar com o apoio de republicanos liberais e conservadores que estavam incomodados, genuinamente incomodados, com o radicalismo das repúblicas que foram derrubadas em...
Portugal e em Espanha. No entanto, o maior apoio, quer do regime... salazarista em Portugal, quer do regime franquista em Espanha, vem de católicos, de monárquicos tradicionalistas e também de revolucionários de tipo fascista. São esses os principais apoiantes quer do Estado Novo, quer do Estado Espanhol. Mas a partir daqui há uma diferença, a quarta diferença. É que Salazar parece ter feito muito mais questão em manter o apoio dos republicanos liberais e conservadores do que Franco em Espanha.
Isto é, Salazar parece fazer questão de manter um equilíbrio entre estes republicanos liberais e conservadores e os católicos, os monárquicos e os revolucionários de tipo fascista. Portanto, nunca se apoiando... apenas nesta segunda categoria. E isso nota-se em que Salazar vai manter a forma republicana do Estado, nunca vai restaurar.
A monarquia recusa sempre isso. Apesar dos muitos pedidos que houve, não é? E das possibilidades, oportunidades que houve. Nós já falamos disso aqui há muito tempo. Exato, em 1951, quando morre Carmona, por exemplo. Portanto, mantém-se República. O Estado Novo é a República Portuguesa. O nome oficial é a República Portuguesa, não é Estado Novo. Salazar mantém a separação entre a Igreja e o Estado de 1911.
revista pela concordata com o Vaticano de 1940, mas mantendo a separação da Igreja e do Estado. É uma aquisição... republicana que ele mantém. E, finalmente, é verdade, Salazar proclama a chamada Revolução Nacional, em meados da década de 30, anuncia um Estado corporativo. Mas o Estado Novo, a partir de 1933, teve sempre a Câmara Corporativa como um mero órgão consultivo.
e manteve as instituições representativas típicas dos regimes liberais, com eleições regulares por sufragio individual para a Presidência da República, para a Assembleia Nacional, as primeiras eleições para a Presidência da República.
Pública foram, aliás, em 1928 e depois foram em 1935, eram de sete em sete anos, e as primeiras eleições para a Assembleia Nacional foram em 1934, e foram feitas sempre regularmente, mesmo durante a guerra. Portanto, Portugal, o Portugal do Estado Novo é um dos... países da Europa que mais eleições fez no século XX.
É verdade que estas eleições nunca foram genuínas, nunca foram livres, mas foram sempre feitas e sempre nos prazos previstas. Isto não tem nada a ver com a Espanha, com o Estado espanhol franquista. República Portuguesa e em Espanha? Em Espanha é o Estado Espanhol. O Estado Espanhol é o nome oficial. E que regime era aquele afinal? Franco avançou mesmo a partir de 1947 para a restauração da monarquia. Isto é, passou a ser uma monarquia sem rei. A sucessão monárquica só estava prevista.
por morte ou a incapacidade do caudilho. Portanto, Franco iria ser chefe de Estado e, quando deixasse de ser chefe de Estado, iria ser sucedido por um rei e, por lei de 1969, o herdeiro de Franco como chefe de Estado foi... declarado o príncipe Juan Carlos da Casa de Bourbon, neto do rei Afonso Tereus, ficou como príncipe de Espanha, isto é, seria sucessor do caudilho. Portanto, é uma monarquia com um chefe de Estado.
sem rei e com o chefe de Estado. E o Franco nunca teve essa tentação de ficar com a coroa? Não, não. era um general, era um oficial, e além disso a legitimidade dinástica. Também Napoleão, não é? Os tempos eram outros, não estavam de restaurar, quer dizer, a restauração aqui tinha de ser da monarquia tradicional, não podia ser inventar monarquias novas, exato.
No princípio do século XIX ainda dava, ou no fim do século XVIII, no princípio do século IX ainda dava para inventar monarquias. Aqui já não dá. No século XX... O máximo era restaurar uma monarquia que já havia e mesmo assim isso já não era fácil, quanto mais agora inventar monarquias. Portanto, Franco restaura a monarquia, faz do catolicismo outra vez. religião do Estado, portanto a República Espanhola tinha separado a Igreja e o Estado, Franco.
declara outra vez o catolicismo religião oficial do Estado, o que lhe permite nomear os bispos. É Franco que... Portanto, a Igreja passa a ser do Estado. Franco nomeia os bispos. E, antes de ter lugar... O Estado espanhol leva mesmo a sério a representação corporativa. Não há eleições. para um Parlamento durante quase 30 anos, até 1967. Portanto, o que há desde 1942 em Espanha é umas cortes espanholas.
Uma espécie de assembleia de representantes das... que são procuradores, portanto, uma espécie de assembleia corporativa de procuradores nomeados pelo governo ou nomeados por sindicatos, por municípios, por universidades, isto é, por corporações. Isso é o que existe em Espanha até 1967. Em 1967, pela primeira vez, o regime admite que há membros dessas cortes que possam ser diretamente eleitos pelos cidadãos.
Isso aconteceu pela primeira vez em 1967. Mas, mesmo assim, os espanhóis só podiam eleger 102 dos 564 membros das cortes. Era uma representação um pouco coxa, não é? Minúscula. Portanto, os restantes continuaram a ser nomeados pelo governo e pelas corporações. Portanto, ao dizer isto, não estou a dizer que em Portugal a Assembleia Nacional é livremente eleita pelos cidadãos portugueses em eleições...
livres e genuínas, não é isso, mas em Espanha nem sequer havia esse simulacro, nem se fingia que era assim. Aquilo era mesmo um Estado em que a representação até 1967 é corporativa e quando se... introduz uma representação baseada no sufragio direto dos cidadãos, é uma coisa, é um quinto quase da Assembleia de Representantes. Portanto, o Estado espanhol é um Estado que corresponde muito...
¶ 5ª Semelhança e Diferença: Repressão e Controlo Social
muito mais à ideia de uma revolução nacional e de um Estado corporativo do que o Estado novo português. E quinta semelhança? Quinta semelhança à repressão. Nós estamos a falar de duas ditaduras, dois regimes que...
Recusaram o pluralismo partidário, que proibiram partidos, que não os movimentos oficiais, a União Nacional e o movimento nacional, que perseguiram organizações políticas de oposição, que tinham... que só podiam existir na clandestinidade, e era crime fazer parte delas, que exerciam censura sobre a imprensa, sobre a edição de livros, sobre os espetáculos, sobre o teatro, sobre o cinema, embora nesta altura também houvesse censura.
sobre o teatro e sobre o cinema na Inglaterra e na França. Mas isto aqui era um bocadinho diferente. Notava-se pela leitura dos jornais que eram coisas completamente diferentes. Mas a repressão também não era igual. E esta é a quinta diferença. Em Portugal, desde 1945, é consentida a atividade da oposição em períodos de eleições para a Assembleia Nacional e para a presença da República?
Portanto, quando há eleições para a Assembleia Nacional e para a Presidência da República, as oposições portuguesas podem apresentar candidatos, começam a dar entrevistas nos jornais, alguns até falam na rádio, por exemplo, no Rádio Clube Português, o Cunha Leal faz umas conferências. Na rádio, quer dizer, colam cartazes, podem colar cartazes, há uma liberdade condicionada, além de que a oposição em Portugal, mesmo em tempos de repressão normal... Tem jornais.
Portanto, jornais conotados com a oposição, o República em Lisboa, o Diário de Lisboa também em Lisboa, são jornais da oposição, sujeitos à censura, claro, não podem dizer o que lhes apetecia dizer, mas têm artigos, têm um ponto... de vista completamente diferentes do governo. E nada disso existe em Espanha.
em Espanha, nunca há um momento como, por exemplo, as eleições, a campanha eleitoral do general Humberto Delgado em 1958, em que publicamente, nas ruas, a autoridade de Salazar é posta em causa com manifestações. Em Espanha não há nada disso. Não há cá manifestações contra o General Franco. Ninguém pode desafiar o caudilho. Há um ambiente completamente diferente que tem a ver talvez com uma coisa...
uma coisa importante. É que em Espanha, além da repressão, movimentos correntes de opinião ideologicamente opostas ao regime... há também repressão a movimentos de contestação da hegemonia castelhana em Espanha. Isto é, o regime em Espanha está a defender também a unidade de Espanha. Há uma repressão especial contra os bascos, contra os catalães, contra o falar basco, contra o uso da língua basca, contra o uso da língua catalã.
Enquanto em Portugal a maior preocupação é manter o ultramar, digamos assim, as colónias, a ditadura espanhola é manter mesmo a Espanha unida. E isso faz, de facto, uma... uma diferença importante e que explica em parte também o grau de controle do espaço público em Espanha, um controle muito mais forte. Muito bem, então...
¶ 6ª Semelhança e Diferença: Transformação Económica
íamos para a sexta semelhança. A origem é uma sexta diferença, uma vez que todas as semelhanças se tornam diferenças quando nós olhamos para elas. Embora as semelhanças continuem a ser semelhanças, não estou a dizer que não há semelhanças, mas nessas semelhanças, a partir dessas semelhanças podemos encontrar diferenças. Sexta semelhança, ambos os regimes, o regime de Salazar em Portugal, o regime de Franco em Espanha,
enquadraram grandes transformações das sociedades depois da Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, 1960 e princípio da década de 1970. A época, tanto em Portugal como em Espanha, de grande industrialização, urbanização, começo da construção daquilo que em Portugal, aliás, começou logo a chamar o Estado Social. Aliás, estas enormes diferenças que são grandes crescimentos de bem-estar. estar e de mudança de tipo de vida.
contribuíram muito para a aceitação das ditaduras nos anos 60 e no princípio da década de 70. Isto trata-se de formar uma classe média, as pessoas estão a viver melhor e, portanto, não estão tão insatisfeitas como poderiam estar. Mas a partir desta semelhança... Há uma relativamente importante diferença. É que a Espanha, sob Francisco Franco, atinge um patamar de desenvolvimento muito superior ao Portugal de Salazar. Em 1973, o PI per capita...
português era 60% do espanhol. Por vezes, para se explicar esta diferença de desenvolvimento, há quem fale do facto de os tecnocratas. chamados tecnocráticos ligados ao Opus Dei e que estão no governo espanhol a partir dos anos 50, teriam tido uma influência muito maior em abrir o país e em provocar maior desenvolvimento em Espanha. Eu não me parece que essa seja a boa razão. Eu acho que a boa razão é, de facto, a diferença que já existia à partida. Isto é, a Espanha, logo no começo...
era já muito mais desenvolvida do que Portugal. No começo do século XX ou no começo da ditadura? Sim, no começo do século XX, no começo da ditadura, no começo do pós-guerra. Isto é, em todos os momentos, a Espanha é mais rica do que Portugal, talvez tirando para aí durante a Guerra Civil, em que há um empobrecimento da sociedade espanhola devido às destruições, às enormes destruições da guerra.
E tendo isso em conta, de facto, o que há na segunda metade, no pós-guerra, depois de 1945, o que há é até uma convergência de Portugal. com a Espanha. Em 1953 o PIB per capita português tinha sido 55% do espanhol. Em 1973 era 60%. Portanto, Portugal até cresceu mais do que cresceu a Espanha, mas à partida... os níveis de desenvolvimento já eram tão diferenciados no nível de alfabetização, o nível de industrialização, todas essas coisas que pôde-se...
Portugal recuperou, mas obviamente não atingiu o mesmo nível de Espanha. Mas claro, isso era uma diferença. Quer dizer, quem vinha a Portugal, digamos, em 1968... Notava que a sociedade portuguesa era mais pobre do que a sociedade espanhola. Finalmente, a sétima semelhança? Sétima semelhança e sétima diferença. Esta aqui é uma semelhança e uma diferença bastante...
¶ 7ª Semelhança e Diferença: Transição para a Democracia
óbvias, no fim da década de 1960, portanto, aí por volta de 1966, 67, 68, à medida que Salazar e que de Franco Começaram a ficar muito velhos, quer dizer, a entrar nos 70 e tal anos e, portanto, a atingir aquilo que estatisticamente seria o seu prazo de validade biológica, vamos dizer assim, de uma maneira assim um bocado estranha, mas até soa assim um bocado estranho, mas é mesmo assim.
Toda a gente começou a esperar que houvesse uma sucessão nos regimes e que essa sucessão nos regimes coincidisse com uma... transformação política que de alguma maneira correspondesse à transformação social e económica que estava a acontecer. Isto é... Tanto a sociedade espanhola como a sociedade portuguesa estavam a começar a convergir com a Europa Ocidental e era previsível que também convergissem politicamente com a Europa Ocidental, isto é, que houvesse uma transição para um tipo de regime.
como o da Europa Ocidental. Isto é uma democracia pura e partidária, com as liberdades que estavam garantidas na Europa Ocidental. Em Portugal... Essa expectativa é muito óbvia quando Marcelo Quetano chegou ao poder em 1968 e substitui Salazar. Toda a gente fica à espera... enfim, toda a gente, nem toda a gente, mas muita gente fica à espera que isso acontecesse. Não aconteceu.
A democracia teve de vir depois de uma revolução, de 25 de abril de 1974, e isso teve a ver um bocadinho pela forma como o impasse... ultramarino, isto é, o impasse em relação às colónias africanas, criaram um impasse político, isto é, o regime não conseguiu resolver o problema nas colónias e por isso também não foi capaz... de conduzir uma transição. De certa maneira, a opção de Salazar por defender as colónias...
comprometeu o regime e tirou-lhe capacidade de liderar politicamente esta transição. Ora bem, essa é a sétima diferença com Espanha. Há transição, depois de Franco morrer em 1975, há uma transição para a democracia dentro do quadro do regime. Aliás, há quem diga que essa transição começou mesmo ainda com o Franco em vida, quando em 1973 Carreiro Blanco, o almirante Carreiro Blanco, é o sucessor de Franco.
é assassinado pela ETA e o regime desconjunta-se a partir daí, quer dizer, já não tem força. Quem viveu em Espanha nessa altura diz testemunha. que a partir de 73 começou a haver uma liberdade inesperada, embora o regime ainda fosse capaz de violências e de condenações à morte e de execuções, mas... nitidamente já a tanta gente está à espera que Franco morra para se iniciar o processo de transição. Esse processo de transição é concluído em 1977.
Portanto, chega-se a um regime democrático, tipo o Europeu Ocidental, com um pluripartidarismo, etc. Provavelmente iremos falar disso quando houver efemérides. Mas com esta característica, que é uma característica curiosa. Morreu muito mais gente em Espanha nesta transição para a democracia entre 1975 e 1977. Isto é, morreu muito mais gente por violência política.
por causa do terrorismo baixo, por causa do terrorismo escardista, do que em Portugal durante a revolução em 1974 e 1975. Isto é a nossa revolução com toda a agitação. Teve uma contabilidade em termos de mortos muito inferior à transição supostamente pacífica não revolucionária de Espanha.
Há aqui mesmo uma diferença entre Espanha e Portugal. A Espanha nem em transições pacíficas consegue evitar bastante sangue, quer dizer que corra de maneira bastante sangrenta. É possível que ela tenha sido mesmo uma grande diferença, não é? Os níveis de violência... Os níveis de violência, mesmo numa transição controlada, com os grandes partidos, as grandes forças políticas de acordo, de chegarem de acordo, mesmo assim, os níveis de violência foram extraordinários, com centenas de mortes.
dezenas de mortos em Espanha. Muito bem. E então é assim com estas sete diferenças que termina o e o resto da história desta semana. Até para a semana.
