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“Todos os europeus deviam conhecer os EUA”

Apr 14, 202543 minSeason 3Ep. 180
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Summary

Neste episódio, o economista e ex-ministro Manuel Caldeira Cabral revisita as viagens que o marcaram profundamente. Desde os seus primeiros Interrails numa Europa em ebulição, passando por uma reveladora Coast to Coast nos Estados Unidos que desafiou as suas perceções sobre liberalismo e puritanismo, até às intensas aventuras de moto na Indonésia e as desafiantes paisagens da Bolívia. Ele reflete sobre como estas experiências, incluindo o período em Timor-Leste, não só enriqueceram a sua perspetiva pessoal e profissional, mas também o ensinaram sobre a importância de viajar para além do turismo convencional, destacando o valor da descoberta e da imersão cultural.

Episode description

Do Coast to Coast nos Estados Unidos, aos Interrail, passando pelas incursões a Marrocos, Manuel Caldeira Cabral recorda as viagens que mudaram o seu mundo.

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Transcript

Viagens de Infância e Juventude em Portugal

Chegávamos a uma estrada asfaltada, começa a andar a estar... Ah, agora sim, vou descansar um bocado. Ao fim de 30 quilómetros, para e quando o autocarro era de noite à volta, vê-se fogueiras no meio da estrada. Ui! Sejam bem-vindos. O viajante desta semana é a de contas, ou seja, é economista. E conta já com uma bela soma de países visitados, cerca de 80. Tudo somado dá 90% do PIB mundial. Já vão perceber por que refiro isto. E algumas das parcelas dessa soma...

aparecem até em duplicado. Começou cedo nisto das viagens, nos anos 80, a caminho da Serra da Estrela, onde a família tinha e tem... Uma casa. Não havia autostradas, o país era um atraso de vida e as viagens demoravam horas e horas e horas de curvas e contracurvas, para cima e para baixo. Depois fez dois inter-rails e a partir daí foi sempre a abrir.

Ficou-se nos Estados Unidos, deembolou pela América do Sul, conheceu o meio-mundo, viveu em Inglaterra seis anos, dois semestres em Timor-Leste. Manuel Calera Cabral, Sr. Ministro, bem-vindo! Muito bem, cá estamos. Já ninguém trata por ministro, pois não. Às vezes, mas é mais a brincar do que a sério. Muito bem, só assim entre amigos, não é? Viajaste muito com os teus amigos, não foi? Quando é que começou isto das viagens e porquê?

Começou muito cedo. Comecei a viajar primeiro com os meus pais, essas viagens míticas para a Serra da Estrela, mas também para a Espanha e para o Algarve, etc. E depois viajei para os Açores com o meu pai. O pai viveu lá uma série de anos e ainda tive lá um ano nos Açores que me marcou muito. Mas depois, quando comecei a ganhar alguma autonomia...

que foi quando tive a minha primeira moto, comecei a viajar de moto pelo país todo. Ah, ok. Então és ainda motar? Ainda sou motar, mas eu tive a minha primeira moto aos 14 anos, que é a moto talvez mais ordinária jamais. fabricada em todo o mundo, quem sabe, que era Casal Boss. Casal Boss. Uma moto só com duas mudanças, portanto tinha a primeira e a segunda e depois não tinha mais. Era uma moto portuguesa, não era? Aquilo era modelo português. Era uma moto portuguesa.

Era uma moto portuguesa, com certeza. A minha ainda era daquelas com mudanças de mão, porque isto é uma referência só para os motares. Mas, aos 14 anos, fiz uma viagem desde Carcavelos, que era onde eu vivia. até São Pedro Moel, passando pela Ericeira, passando por São Martinho do Porto. 14 anos. Isso hoje em dia era impensável. Bastante, eu acho. Tu és pai, tens dois filhos, deixarias os teus filhos fazer essa viagem?

É, teria que ponderar. Mas na altura liguei os meus pais, estavam em Lisboa, disse vou ali com o meu amigo Luís, vamos fazer aqui uma semana de férias e tal. Ah, com certeza. Eu acho que os meus pais acharam que eu ia com o pai deles, que eles conheciam. O país também era outro, não é? É verdade. E a realidade era totalmente outra, porque eu telefonei três dias depois...

De uma cabine telefónica, não havia telemóveis nessa altura. Coisa impensável nos dias de hoje, não é? Sim, três dias sem dar notícias. E o meu pai perguntou, levou a mota? Eu, levei, levei. Ah, está bem, tenha cuidado. Não ando muito depressa. Esse foi um conselho que eu segui com, de facto, a letra.

Porque a moto também não passava dos 40 a 50. Portanto, nunca fui depressa. Segui as instituições do meu pai. Mas depois disso, tive uma Gilera, que já era uma moto um bocadinho mais forte. Uma italiana, não é? Com 5 mudanças, já dava para aí 80 ou assim. E aí fui até Caminha, fui de Lisboa até Caminha, até Alentejo, Algarve, ou seja, Moledo, Lamego, tivemos na Serra da Estrela também, percorri o país todo de 50 antes de 18.

Interrail: A Europa em Transformação

a fazer viagens de carro. De carro, muito bem. Quando é que aparecem os Interrail na tua vida? Foi na faculdade? Os Interrail já estavam na faculdade. Porque essas sim são as tuas primeiras grandes viagens, é isso? Sim, os Interrail. Sim. Tuas e de uma geração inteira Sim, o Interrail era a viagem daquela geração ainda continua a existir

O Interrail que eu fiz estava a trabalhar como jornalista. Estava a trabalhar como jornalista e, portanto, estava a ganhar algum dinheiro e tirei um mês e tal para fazer o primeiro Interrail. Um ano depois fiz o segundo. no segundo. E foram os dois muitos giros? Foram feitos em 1989 e 1990. Portanto, ali naqueles dois anos em que o mundo estava todo a mudar. O bloco soviético estava a ruir, enfim, a Europa estava em...

Em ebulição, Portugal tinha aderido há pouco tempo, não é? Portanto, tudo estava a acontecer. Tudo estava a acontecer. Tu foste do outro lado, não foi? Foste aos países soviéticos. E... Aí nada estava a acontecer. Isso é o mais interessante. Em 89, no verão, o muro de Berlim cai em novembro.

Em 89, no verão, estava business as e o show. Aquilo continuava a ser comunista, pacatamente comunista, com escassez de bens à lá comunista. E onde os portugueses se sentiam ricos, não é? Exatamente. Os portugueses quando se iam despedir... entravam em França. Era uma diferença enorme em termos de custo de vida. Na Alemanha, um cachorro custava, na altura, 900 euros. Uma pessoa que ia jantar a um restaurante e comia bem... 900 euros? 900 escudos. 900 escudos, sim. Para quem não vive...

e meio hoje em dia. Não é nada especial, mas na altura, de facto, uma pessoa ia jantar aqui um tacho por 400 e 500 euros. Escutos. Mais uma vez, escudos. E, de facto, era... A Europa era muito cara para nós e depois quando se passava para o outro lado, por sem escudos, nós jantávamos.

Até chegarem ao bloco soviético, andavam a comer salsichas e atum, não era? Depois, quando chegavam lá, que eram bifes. O que aprendemos, e da pior maneira, foi que tínhamos que sentar cedo. Porque eu sonhei um stock de bifes. outras coisas que acabavam. Cada restaurante só tinha 30 ou 40. E se chegaste lá depois, comias uns ovos mexidos ou qualquer coisa. Surpreendeu-te essa realidade que foste encontrar, não só no Bloco Soviético, mas...

Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Itália, os países por onde fizeste o teu interrail? Surpreendeu-me muito. Acho que abria muitas perspetivas uma pessoa ver uma Europa mais desenvolvida. vida é diferente, e ver nos países de leste uma Europa que era também ela própria desenvolvida, mas com coisas, algumas delas lembravam Portugal, nós tínhamos também um atraso mais visível nessa altura.

Outras eram... Sobretudo fora de Lisboa, Porto, não é? Sim, quer dizer, uma pessoa quando vai a Praga ou Budapeste, eram cidades desenvolvidas. O que era estranho era, em alguns aspectos, na arquitetura, em algum desenvolvimento...

eram parecidas com as cidades que nós tínhamos acabado de deixar da Alemanha, mas depois os carros eram travantes em vez de serem Mercedes e os supermercados tinham umas coisas indescritíveis quando tinham alguma coisa. Muito bem, fizeste essas viagens com amigos, não foi? Fiz estas viagens com amigos. Comecei a viajar muito com amigos. Eu comecei a viajar à moda antiga.

Primeiro voltas aqui ao pé de moto, depois a entrar por Espanha com grupos todos os anos fazíamos sete amigos de um Peugeot a 504. de sete lugares e viajávamos pelo norte de Espanha, chegávamos até San Sebastián, Galiza e tudo mais. Todos os anos fazíamos viagens por Espanha e depois então com os interradores abriu-se a Europa e a Europa obviamente já tinha mais diferença.

e mais coisas a descobrir. Eu adorei a Itália e a Itália tinha essa mistura engraçada de lojas espetaculares ao nível do melhor que se encontrava em França com um estilo bestial e mesmo as pessoas, etc. Mas depois... Também sentes das cidades às vezes muito decadentes. Eu lembro-me de chegar a Génova e a zona portuária de Génova era super decadente e misturava excelência, luxo com decadência, mas de uma forma muito italiana.

muito interessante. Portanto, um português aí dos anos 90 não se sentia muito... Não se sentia tão deslocado em França e na Alemanha. Era de facto... tudo muito caro, tudo muito impecável, tudo muito à frente e de facto nós sentimos muito pobres nessa altura lá. Era o que era. Ainda sentimos, não é? Sim, ainda longe. Eu acho que hoje em dia vai-se a França e as lojas já são mais parecidas com as nossas. É verdade. E uma pessoa consegue alguns bisos de rosa, etc. jantar a preços...

que janta em bons restaurantes em Lisboa. E ao nível das compras, Manuel, há sítios, há por essa Europa fora, há países onde até os frescos, enfim... As coisas de supermercado são mais baratas do que em Portugal. Na Alemanha, sim. Na Alemanha, por exemplo, não é mais caro. Os serviços são mais caros. Eu vivia em Inglaterra em que era tudo mais caro.

E de pior qualidade, porque isso é uma questão. Uma pessoa vai a um bicho de rouco, que é o equivalente de um tasco em França, mas come maravilhosamente. De facto, a comida em França é uma coisa espetacular. Como ele for.

Marrocos e Incursões Jornalísticas

Como ele foi, exatamente. Muito bem. Então e onde é que aparece Marrocos na tua vida? É logo a seguir aos inter-rails? Marrocos aparece logo a seguir aos inter-rails? com uma viagem que faço, a primeira viagem que faço a Marrocos é como jornalista. Foi uma experiência giríssima, fui com jornalistas, eu tinha 20 anos e fui com jornalistas mais velhos e, portanto, teve tanta piada a viagem em si.

como o contacto com essas pessoas que tinham vivido o 25 de Abril, que tinham tido experiências de facto diferentes, que não eram as da minha geração, porque eles eram de facto mais velhos. Também não era uma geração dos meus pais, era uma geração intermédia, mas que tinha 20 anos no 25 de Abril. Tu foste jornalista há quantos anos?

Eu fui três anos. Três anos? Três anos, jornalista. Viajaste muito enquanto jornalista? Viajei bastante, mas não demasiado. Fui a Marrocos, fui à Alemanha, fui à França, fui à Inglaterra também, mas não fiz demasiadas viagens como jornalista. Há dentro várias coisas no Porto, etc., mas não se viajava assim tanto como jornalista na altura. Ah, ok. Hoje também não.

Talvez. Se calhar há tempos para tudo. Há tempos para tudo. Eu lembro da altura que acabei por viajar um bocado e por entrevistar muitas vezes. Entrevistei comissários europeus, etc. Com 20 anos, o que parece um bocado estranho. Mas era aquela coisa estúpida. Eu falava inglês. E falava bem inglês. Aquela geração que era um bocado mais velha do que eu...

não fazia. Falava melhor francês do que inglês e às vezes não falava mesmo nada de inglês, o que me deu alguma vantagem de ir a algumas dessas coisas. Muito bem, tinhas essa vantagem competitiva. Ainda bem. Olha, Estados Unidos também fizeste um coast to coast, não foi?

Coast to Coast: A Grande Escala Americana

Fiz um curso de curso quando tinha 23 anos e foi uma experiência muito interessante. Os Estados Unidos, na altura, eram... Isso foi mais ou menos em que ano? Foi em 92. 23, 24. Guerra do Golfo. Sim, mas a experiência foi muito interessante porque na altura é preciso perceber que Portugal tinha acabado de abrir há muito pouco tempo uma autostrada Lisboa-Porto. É verdade. Mas viajar...

Portugal, e eu tinha viajado muito por Portugal, fazia-se numa estradas indescritíveis. E uma pessoa chegava aos Estados Unidos e não era haver autostradas para o outro lado, claro que havia, mas eram autostradas de seis, sete faixas. Era uma coisa que para nós era tipo... noutra escala. E isso foi uma das coisas que me marcou imenso. Uma pessoa chega a Nova Iorque e tem imensos sítios de Nova Iorque que são familiares, porque já viu em não sei quantos filmes e séries.

Mas a escala, uma pessoa não está preparada para isso. De repente uma pessoa está a ver aquele prédio ali ao lado daquele pequenino. O pequenino que tem 40 andares seria o maior prédio de Lisboa. E seria por muitos andares. A escala é muito grande.

os carros na altura eram aqueles carros tipo banheira americana, hoje em dia a maior parte dos carros já são mais SUVs ou carros compactos nos Estados Unidos, continua a haver muitas banheiras e carros muito maiores do que na Europa, mas até na Europa uma pessoa vê isso quando vai parar o carro num parque de estacionamento antigo.

Os carros em Portugal cresceram imenso. Você olha o Mini moderno ao lado do Mini antigo, tem o dobro do tamanho e quando para num desses parques quer abrir a porta e não tem muito espaço, não é? São parques feitos nos anos 90 ou nos anos 2000. E isso de facto... eram de uma desproporção de tamanho. Eu aqui usava um Renault 4 com 800 centímetros cúbicos, lá fizemos o Coast to Coast num carro normal de 3.800 centímetros cúbicos, um buique, uma coisa, você punha a pata no acelerador e aquilo...

Era uma potência, mas uma potência estúpida. O carro a 140 não tinha equilíbrio nenhum porque eram carros muito mal fabricados. Gastavam muita gasolina, tinham muita força. Era brata, não é? Eram muito grandes, muito espaçosos. Mas foi uma experiência muito gira. Quanto tempo durou essa viagem? Um mês e tal. A nossa sorte é que tínhamos... dos três amigos que fomos, tinha um primo meu que vivia em Nova York...

Um destes meus amigos tinha estado em Boston a fazer o AFS, aquela coisa que se ficava um ano... Ah, numa família americana, no secundário, não era? Uma família muito gira, liberal, mesmo tipicamente dos arredores de Boston. Foi uma experiência muito gira. Visitámos o Maine, que é muito bonito. E depois estivemos em Chicago e tínhamos na outra costa também um colega meu de mestrado que estava a fazer o doutoramento na Universidade de San Diego, que é uma universidade giríssima.

com um campus, agora temos a 9SBE, que foi, por acaso, onde eu tirei o curso, mas que era em Lisboa na altura, mas aquilo tinha um campus a acabar numa praia onde se fazia surf. Eu imagino que isso para um jovem de 23 anos a viver em...

América: Liberalismo, Puritanismo e Sociedade

Portugal seja, enfim, um abre-cabeças, não é? Eu acho que foi um abre-cabeças, eu tinha uma relação, eu sempre... tive alguma posição mais de esquerda, mas sempre fui muito liberal. E sempre tive uma grande admiração pelo modelo liberal e pelo modelo empreendedor americano.

sempre tive algumas reservas face, por exemplo, ao modelo de apoio social, etc. E ao facto de haver pobres, e isso de facto há, e homeless, e se calhar agora até há mais, e é de facto uma sociedade que nos desafia também por isso, mas é uma sociedade diferente. Uma das coisas que eu aprendi muito a aceitar com esse coast to coast foi...

a ideia de que as soluções americanas, quando aplicadas à Europa por pessoas que estiveram lá a viver e que acham que isto tem que se fazer à americana, são disparate. Mas também julgarmos os Estados Unidos à luz de valores... puramente europeus e pensando que um país com aquela novidade, com aquela história mais curta mas muito mais dinâmica deveria ser como nós é também um erro enorme e eu de facto

Se já lutava contra esse erro, depois aprendi a não fazer mesmo. Mas tive desilusões com os Estados Unidos. Conta. Uma das maiores ilusões foi com a parte liberal. Ou seja, eles não eram suficientemente liberais para o meu gosto. Uma pessoa estava num país que não tem e continua a não ter um bilhete de identidade, porque isso seria uma opressão do cidadão ter...

uma identificação do Estado que o permite ser cidadão. Mas, por outro lado, nós em Portugal temos, e aqui ninguém nos pede o bilhete de entidade para coisa nenhuma, não sei quando vamos a alguma repartição. E lá uma pessoa queria entrar num bar, tinha que mostrar uma identidade. Queria estar num bar, alguém queria fumar, tinha que sair do bar, que na altura ainda se podia fumar dentro dos bares.

A pessoa que fumava podia sair do bar. A pessoa que saía com uma bebida, não. Estar na rua à beira era um crime e, por tudo e por nada, parecia que nos iam apontar uma arma à cabeça. e a polícia agia com as pessoas. Eu depois vivi em Inglaterra e sei o que é uma polícia europeia, civilizada. A polícia inglesa, de facto, é uma polícia que lida com bêbados, inaturáveis, sempre com uma fleuma e com uma capucelada.

a polícia americana a lidar com pessoas jovens bem educadas estava logo a gritar a apontar armas e isso de facto senti que não senti vivia num país onde as pessoas vivessem assim com uma liberdade tão grande em muitos aspectos do dia-a-dia. É uma sociedade tensa. É uma sociedade mais tensa, mais securitária em alguns aspectos e muito...

como uma mistura de liberalismo e puritanismo, em que de vez em quando tem um puritanismo nessas coisas da vida e tudo mais, que nos surpreende bastante e que vai muito contra a nossa maneira de estar. Complexo, não é? É complexo. E por isso mesmo interessante. Ah, sim, de veras, de veras. Foi uma experiência muito interessante. E deu também para ver as duas Américas. A América da Família Liberal de Boston, a América de Nova Iorque, mas também aquela América do meio...

que tem muitos aspectos de facto mais fechada, menos evoluída em alguns aspectos, mas que era uma América muito simpática e muito acolhedora. Eu não sei se isso estará perdido. Os americanos... Tem um sentido de comunidade muito grande. Muito grande, não é? Muito grande e um sentido também de ajudar o próximo, sempre que precisámos de ajuda alguma coisa, na altura não via o GPS, tinha que se perguntar...

havia sempre alguém para ajudar. Muito bem. E foste ajudado porque aqui estás hoje. Olha, estamos a chegar ao fim da primeira parte. Manuel, vamos abrir o álbum de viagem. Manuel Calera Cabral, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas muitas viagens e já são quase 80 países? Sim. Partilhar. Tenho um tais oferecido pelos meus alunos de Timor. Ah, é um lenço. Um lenço. Tiborenço.

Parece-me que a escola, mas é ritual e é uma ofrenda que muito me honrou, mas principalmente honrou-me ver os alunos de Timor, o afeto que eles tinham, não só por mim, mas pelos... pelos portugueses em geral, acho que muito nos honra. Muito bem, porque tu viveste em Timor. Eu vivi em Timor, sim. Vamos falar sobre isso na segunda parte das conversas do Fim do Mundo, esta semana com o antigo ministro Manuel Caldeira Cabral. Regraçamos já a seguir a uma curta pausa. Até já.

Viagens e Carreira Ministerial: Lições Aprendidas

Sejam bem-vindos à segunda parte das conversas do Fim do Mundo, esta semana com o economista e antigo ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, viajante e que durante a pandemia escreveu... As viagens que mudaram o meu mundo, um livro onde fixa algumas das viagens que realizou. Escreveu este livro para os filhos e vai oferecendo aos amigos. Ó Manuel Caldeira Cabral.

Tens alguma história que possas partilhar-te com umas viagens feitas no passado, antes de ocupares o cargo? Te ajudaram enquanto Ministro da Economia? Ajudaram-me muito. Por exemplo, o exemplo que estávamos a falar do Coast to Coast, sempre que tive que me relacionar com investidores americanos ou com autoridades americanas,

O ter feito um Coast to Coast é algo mítico. Eu já estive aqui há 20 anos e... Não, não, vinha muitas vezes à conversa, porque às vezes falavas exatamente, ah, não, eu não sou aqui de Nova Iorque, eu sou de não sei onde. Ah, não, passei lá, tive...

Aí quando fiz o tal Coast to Coast é não sei o quê. É um bom desbloqueador de conversa, não é? É um bom desbloqueador de conversa porque o Coast to Coast é a viagem que todos os americanos devem fazer e querem fazer e está na bucket list de todos eles. Mas muito poucos acabam por fazer.

os europeus também devem fazer ou não? Eu acho que os europeus também devem fazer. E acho que é muito importante conhecer os Estados Unidos, mesmo agora os Estados Unidos menos nossos amigos, aparentemente, eu não acredito nisso, mas... É importante. Mas os próprios americanos têm muito a ideia de fazer o coast-to-coast como uma viagem que têm que fazer. O Jack Kerouac, essas coisas, esse mito todo.

Mas depois, na prática, eles fazem muito poucas férias, fazem uma semana de férias, portanto, a maior parte deles nunca chega a fazer. E, portanto, quando conhecem o europeu que fez, para eles é o máximo. E isso foi um desbloqueador importante, tanto cá como, por exemplo, estive com vários americanos também.

em Davos, etc. E era sempre uma coisa engraçada e uma experiência engraçada para partilhar. Nota-se, ponto de interrogação, e nota-se onde quando contactas, por exemplo, com uma pessoa que viajou muito... E como a pessoa viaja ou pouco ou pouco se interessa pelo mundo? Eu acho que há pessoas que se interessam muito pelo mundo e que não viajaram assim tanto. Nota-se as pessoas que não se interessam pelo mundo e nota-se as pessoas...

que são fechadas. Eu acho que viajar ajuda-nos muito a abrir os horizontes. Isso faz muito isso e isso tentei passar não só aos meus filhos, mas também, por exemplo, aos meus alunos. Tentava muito passar essa ideia. E eu acho que há uma conjugação de coisas que nos fazem amadurecer muito e ter uma visão de um mundo mais completa. E viajar é uma delas. Mas não pode ser só ir para o sítio, é viajar mesmo.

Ir de viagem, é fazer o caminho, é o caminho de ser o destino e não ir para um resort aqui ao Colí. Consegue-se ir para 10 dessas férias sem... Quase contactar com ninguém local e sem aprender grande coisa. Quando uma pessoa viaja, anda mesmo, vê as cidades, vê os monumentos, mas vê também o lado B da sociedade, vê as outras partes, porque tem que apanhar um autocarro, um comboio, aquelas coisas que as pessoas normalmente... Eu faço a maior parte destas minhas viagens.

Expedições Terrestres: Indonésia e Bolívia

Eu tive a sorte de conseguir fazer várias viagens de mais de um mês, de mais de dois meses, em alturas da minha vida que tinha essa disponibilidade, e fazia sempre uma viagem de ida, uma de volta, e no meio fazia grandes percursos terrestres em que muitas vezes cobria... vários países. Fez isso, por exemplo,

Quando saí de Timor fui à Indonésia, mas depois fui à Tailândia, à Malásia, ao Camboja. Mas andei também boas partes de moto. Por exemplo, dentro da Indonésia fiz muitos quilómetros em motinhas alugadas. jogadas daquelas 110 centímetros cúbicos, o que eles têm para lá, mas que naquelas estradas não se consegue andar a mais de 70, 80, aquilo chega perfeitamente. E tem uma coisa, essas motos não avariam.

são muito resistentes, são muito pouco, têm uma performance muito fraca, mas é bom não andar muito depressa ali, porque há animais que saltam para a estrada, há todo o tipo de perigos, buracos, etc. Mais perigoso do que na casal-bosse de Carca... Cabelos até São Pedro de Moel. É mais... É mais... É mais imprevisível. É mais imprevisível ainda. E os anos 80 cá, as estradas eram bastante perigosas. Era, mas não havia tanto trânsito, não é? Sobretudo quanto na Indonésia. Sim, sim. É uma loucura.

Quanto tempo fizeste a Indonésia de moto, Manuel? Eu estive oito vezes na Indonésia, portanto... Houve uma altura em que fiz, aluguei uma moto em Bali e dei a volta até lá a Bali. Outra vez fui até à ponta de Bali e depois passei para Jakarta e fui por ali afora. E de outras vezes aluguei, por exemplo, na Ilha das Flores, também aluguei uma moto, dei lá umas voltas, mas eu fiz muitos, dessa vez que fiz a volta maior, que fui para Jacarta, fiz mais de mil quilómetros numa motinha bastante...

Bastante limitada. Olha, por falar em motos, tu tentaste fazer os itinerários do Che Guevara na América do Sul? Eu tentei fazer, mas dessa vez não era de moto. Isso foi uma das viagens que teve mais... precalços, eu comecei a descer do Brasil, e isso sempre por terra, e lá estava a apanhar autocarros e a apanhar outros meios de transporte, e fui até Buenos Aires, e em Buenos Aires...

Como a Patagónia é muito longe, íamos fazer uma parte do trajeto de avião com as linhas aéreas argentinas. Estavam de greve. Fui ficando em Buenos Aires. A verdade é que amei Buenos Aires. Buenos Aires é uma cidade interessantíssima. Ia lá ficar 5, 6 dias, que dava para visitar a cidade, mas acabei de ficar para aí 12 dias, o que deu para conhecer a fundo a cidade.

de ir ao teatro, ir ao cinema, sair à noite mais vezes, etc. E foi uma experiência muito gira. Mas depois não consegui apanhar os aviões, aquelas greves quando começam, começam. É irónico. pela classe trabalhadora argentina. Exatamente. Tive que fazer 14 horas de autocarro e fui até Salta e depois retomei o processo porque a ideia era depois voltar pelo Chile e subir pela Bolívia.

foi a Bolívia dos países mais espetaculares em termos de paisagens, mas muito desafiante para um viajante. Eu tive uma viagem... Estradas difíceis, não é? Estradas muito difíceis. Tive uma viagem de... Fiz aquele salário de Uni. Sim. que é não sei quantos metros de altitude, mas a 3, 4 mil metros de altitude, tudo branco de sal, a perder de vista, aquele do tamanho do Alentejo, mais ou menos, tem que se usar óculos securos, como na neve.

Depois daí fui de autocarro até La Paz, eram para aí uns 600 km, mas demorava para aí umas 12 horas, saltos, saltos, saltos, poeira, tudo. Até chegarmos a 200 km, 250 km, chegávamos a uma estrada asfaltada. Começa a andar a estar... Ah, agora sim, vou descansar um bocado. Ao fim de 30 km, para e quando a autocarrera de noite está à volta, vê-se fogueiras no meio da estrada. Ui.

Ou seja, estava ali uma situação de crise, de revolta e tal. O autocarro volta para trás, vai outra vez por estradas paralelas em picada, ou via mais quatro. cortes de estrada. Quando cheguei lá, perguntei ao senhor, mas porquê que havia tantos cortes de estrada? Ele começou-me a explicar, bem, o primeiro é uma coisa tipo Vizela...

que quer ser um município, não é o outro, são estudantes, não sei de quem os outros, são os agricultores. E o outro, eu não percebi o que é que era, perguntei outra vez, não percebi a mesma e disse, não interessa. Mas era a única estrada asfaltada do país.

Filosofia do Viajante e o Mundo Subaquático

e estava sempre cortada pelo que eu percebi. Era uma coisa impressionante. Muitas aventuras. É isso que te faz também viajar, Manuel? Sim, sem dúvida que é. E descobrir zonas diferentes, encontrar outras pessoas. Et... Houve várias vezes que também viajei por motivos académicos e depois aproveitei ter ido até o outro lado do mundo para dar uma volta interessante. Já tinha conferências no Brasil muitas vezes, estive nos Estados Unidos, estive na Austrália e aproveitei sempre essas conferências.

para andar pelo mundo, já que ia até tão longe, ao menos aproveitava. Sendo na época de férias, é fácil ir uns dias antes ou ficar uns dias a seguir e aproveitar às vezes para também fazer contacto. académicos para além dos da conferência, mas outra vez também para ir conhecer, já que se vai até tão longe. Ok. O que é que te move enquanto viajante, Manuel Caldeira Cabral?

Eu movo-me sempre o descobrir e as experiências. Nas viagens mais longas, nessas viagens de muitas semanas, eu acho que um só tenho que incluir também pelo meio... experimentar, deliciar-se, descansar. Deve-se fazer essas coisas, porque viver um país, eu, por exemplo, faço mergulho, muitas vezes também é viver, é aprofundar a experiência e ir ao fundo do mar. Boa, essa não sabia do mergulho.

Não, eu comecei a fazer mergulho exatamente na primeira vez que estive em Timor e com uma pessoa, a minha instrutora era uma canadiana, fazia uma coisa muito gira. Trabalhava metade do ano numa prisão a fazer catering. Lá no Canadá? No Canadá, numa terra no meio do nada, que tinha 8 mil pessoas, das quais 4 mil eram presos, e os outros trabalhavam basicamente para a prisão. Portanto, devia ser bem paga? Era bem paga e dizia...

médicos de segurança social e o resto do ano era em estrutura de mergulho e já tinha passeado por todo o mundo. Fazia seis meses, seis meses. Mas comecei a fazer mergulho aí, mas já fiz mergulho em muitos outros sítios e é de facto uma... Coisa também muito interessante de conhecer em termos naturais, para além de visitar parques naturais, subir montanhas, andar em desertos e tudo mais, o ir ao fundo do mar, principalmente em países como a Indonésia, a Malásia e Timor, Timor-Tinhã.

Timor-Leste: Natureza, Cultura e Desafios

corais fantásticos e é uma experiência muito interessante. De todos os países que já viste até hoje, ou que já visitaste até hoje, qual é aquele que te encheu as medidas? Qual foi aquele? Eu acho que é difícil porque, de facto, o que mexe as medidas é a mesma diversidade. A experiência dos Estados Unidos foi brutal, mas a experiência de Timor era um país que estava tão fechado e que tem uma natureza tão espetacular que era.

acima d'água, quer abaixo d'água, foi também uma experiência muito boa e foi uma experiência muito gira porque estive lá mesmo a viver, a ter uma rotina, a conhecer gente de todo mundo que estava em Dili e depois a conhecer pessoas que nunca tinham visto pessoas de fora. daquele mundo. Havia uma parte no sul de Timor que tinha quatro pontos caídas. Nós conseguimos passar porque demos a volta de mota, mas nessa parte os miúdos olhavam para nós e nunca tinham visto um ocidental.

E estamos a falar de se pôr em um círculo... a observarem-nos, a rirem-se quase nervosamente quando nós estávamos a pôr um creme protetor solar, a verem os capacetes, a verem as motos que faziam barulho e a assustarem-se, mas depois a maravilharem-se, a tocarem nos nossos cabelos, a quererem... terem...

não saberem o que é que são as bolachas que lhes estávamos a dar. De facto, uma experiência muito interessante. E ao mesmo tempo, os mais velhos, que esses sim já tinham visto portugueses, falavam português. Uau! E de facto, foi uma experiência cultural muito interessante. Tu tiveste a oportunidade... correr a ilha

Também de mota. Também de mota. Nós alugámos lá umas motas a uns australianos. Eu todos os dias ia para a praia de bicicleta, que eram para uns 9, 10 quilómetros, mas fazia-se bem. Mas depois alugámos essas motas e demos... uma volta toda à ilha. Eu tinha uma 3,5, uma Yama 3,5 de cross.

que aguentava muita coisa. É bom, já é bom. Uma das motas avariou, a meio do processo. Tivemos que atravessar rios que tinham crocodilos. Eles têm lá os maiores crocodilos do mundo. São aqueles crocodilos de água salgada que também há na Austrália e que são, de facto... assustadores. Eu lembro de estar numa praia no sul, uns miúdos, ai, venham ver ali os crocodilos e não sei o quê.

E nós estávamos a ver ao longe e eu, não, não, eu vejo bem daqui, está a uma boa distância. E de repente o miúdo desata a correr para o crocodilo. Vamos falar de crocodilos de 6 metros de comprimento, uma tonelada de peso, um monstro pré-histórico. E o miúdo a correr para ele vai ser um snack para o crocodilo. Não, o crocodilo vê aquela coisinha a correr e foge-se para o mar.

Eles lá devem saber que eles fazem aquilo, mas qualquer dia há um que não faz e a coisa corre mal. Mas eu fiquei com o coração nas mãos. Ah, não! Mas correu bem. Pronto, e um viúdo lá sabe o que é que está a fazer, mas de facto eles lidam com esse...

animais nas praias. Os crocodilos vêm para a praia. Nas praias de ali é raro aparecerem, mas para além dos crocodilos há tubarões, há uma série de outras coisas. Mas uma pessoa aprende a lidar com essa pesquisa toda. Olha, Manuel, estamos a chegar ao fim.

Reflexões Finais: Peripécias, Vistos e Vida Minimalista

Vamos fazer check-out? Vamos a isso. Vou pedir-te para completar as habituais frases. Na minha mala vai sempre... Um livro. Há muitas partes das viagens em que uma pessoa tem tempo para ler. Economia? Não, não, não. Sempre livro de viagem. Normalmente tento relacionar os livros com a viagem que estou a fazer. Ok, muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Eu acho que ou foi a de volta de bota a Timor ou foi essa da Bolívia em que tudo o que podia correr mal, correu mal. No fim, chegámos vivos e bem ao fim. Mas em Timor incluiu até a moto a cair em areias movodiças.

começar-se a afundar. Ele apanha-me um susto valente. Mas depois eram areias movediças muito baixinhas e a moto não afundou demasiado. Ufa! Olha, o carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter? Fui para a Biela-Rússia. Fui à Biela-Rússia há uns anos atrás. Estive a dar aulas na... na Lituânia. Foi uma prepécie arranjar aquele visto.

Eles eram mesmo muito fechados. Mas foi uma experiência engraçada. Agora devem estar mais fechados ainda. Mas na altura estávamos em legada paz com eles. Mas mesmo assim foi muito difícil. Já ouvi-se porque eu era português e estava na Lituânia. porque é que estava... Muitas perguntas. O KGB parecia estar ali a olhar. Foi em que ano?

Foi em 2008, acho eu. Ah, ok, ok. Ou 2009. Tiveste na Bielorrússia reminiscências do Interrail? Sim, sim. Não, a Bielorrússia estava... completamente parada no tempo, parecia uma economia soviética, as lojas eram à moda antiga, era de facto um país que não tinha saído, muito mais até do que a Rússia, porque a Rússia...

de facto já tinham os oligarcas cheios de dinheiro, ou seja, a maior parte da Rússia se calhar estava um bocado no mesmo sítio, mas uma parte mais visível de Moscou ou de São Petersburgo já tinha de facto avançado. E eles nem no centro da cidade... via isso. A recordação de viagem é mais cara? A recordação mais cara, se calhar, eu não sou muito de comprar coisas muito caras, mas fui talvez um tapete em Marrocos.

Eu, quando fiz uma, acho que foi a minha terceira viagem em Marrocos, tinha acabado de comprar uma casa em Braga e o meu pai... Onde deste aulas, não foi? Onde dei aulas, durante muitos anos. Era um apartamento completamente vazio e eu cresci em casas históricas, cheias de móveis antigos e cada peça tem uma história de uma bisavó, de uma tia-avó.

E ter uma casa toda vazia, só com um tapete marroquino no meio, um colchão na sala. Eu tive a sala assim durante alguns anos, não tive televisão durante vários anos. E foi uma experiência minimalista muito interessante. A casa tinha uma vista gira. Era um apartamento com uma vista muito gira, um quinto andar. E o tapete fazia a sala. Foi uma coisa gira. Deixa-me pegar esse detalhe. Viver sem televisão é raro.

hoje em dia? Foi uma coisa que eu gostei muito de fazer e de facto mantive-me uns 12 anos em Braga sem ter televisão e era muito engraçado, eu quando vim a Lisboa e me reencontrava com amigos ou mesmo em Braga a falar com os meus colegas

As notícias da semana, o que eram os acontecimentos, o que era o mais importante para mim, era muito diferente do que era para outras pessoas. Eu isso já me vinha do jornalismo. É muito importante ler a página 6, a 7 e a 8. às vezes estão lá notícias muito mais importantes do que as polémicas do momento que estão na página 1 e na página 2 e de facto...

Eu tinha essa sensação de que as pessoas estavam todas a falar de um tema ou dois que deu muita polémica, mas que às vezes era irrelevante e um mês depois já ninguém se lembrava dele. E, de facto, eu tinha uma noção diferente. É muito efêmera a vida na televisão, não é? Não é só na televisão. Eu acho que hoje em dia as primeiras páginas dos jornais, as próprias rádios, etc. Acho que hoje em dia temos muito mais intensidade de notícias e temos um ciclo noticioso da meia hora ou dos 20 minutos.

mas temos menos quantidade e qualidade de notícias. Antes tínhamos mais notícias a sair a cada 24 horas sobre mais temas, agora temos... a mesma notícia a sair 24 vezes durante as 24 horas, mas é sempre o mesmo tema com... Às vezes anestesia, não é? Com a reação da reação à reação que o outro teve. Eu acho que, de facto, isso era uma experiência engraçada.

essa experiência de viver sem televisão e não era menos informado por causa disso. E não tem nada contra a televisão. Não tem nada a ver com isso. Olha, a refeição mais estranha, qual foi?

Banquete na China e Sonhos Familiares

Eu acho que foi num banquete oficial que tive na China em que o banquete estava marcado para uma hora e um quarto e eles iam servir 14 pratos. Eu achei que não era possível servir 14 pratos. 14 pratos são 14 pratos, e eu me servindo a uma rapidez, metade das coisas que me puseram à frente, eu nem provei. Aí já eras ministro. Aí era ministro, sim. Estava lá com o primeiro-ministro, Pedro Costa, e eu metade dos pratos...

Nem percebia o que é que aquilo era. E depois estava a ter uma conversa com o meu hambúrguer, o ministro chinês. com tradução simultânea. Portanto, a conversa era muito longa e o rodado de esperança era muito rápido. E alguns eram umas coisas assim gelatinosas que deviam ser grandes iguarias, mas que eu não percebi o que eram. Ok. Gostava de viajar com?

Gostava de viajar com os meus filhos. Gostava de fazer uma viagem. Foi para eles que escreveste este livro, não foi? Gosto muito de viajar com a minha família e a minha família também gosta muito de viajar. Isso é giro que os miúdos têm muito esse espírito de viajar. Não é só de ir de férias ou de fazer turismo. mas eu gostava de fazer uma viagem à volta do mundo com cada um deles só com um deles de cada vez não sei se vou conseguir fazer esse projeto mas gostava muito

Porque acho que era uma coisa interessante. Para mim, eu acho que para eles também. Ia deixar seguramente boas memórias a cada um deles, não é? Ia. E eu acho que há uma coisa que tenho descoberto nas viagens que faço com os meus filhos, que é... O ir com pessoas novas a um sítio que eu já fui três ou quatro vezes...

Eles veem coisas que eu não vi, veem as mesmas coisas que eu vi, mas dão-lhes uma abordagem diferente e fazem realmente ter um entusiasmo diferente. Eu estive com eles o ano passado em Itália e a descoberta... onde eu já tinha estado várias vezes e eles a descobrir o entusiasmo e a curiosidade. valorizou imenso a minha viagem, que já era a 18ª ou 19ª a Itália, mas não há 19ª viagens a Itália. A Itália tem tanto para descobrir. É verdade.

em qualquer coisa mais. E os filhos enriquecem as nossas viagens e isso é extraordinário. Vamos partilhar com os nossos ouvintes. Entretanto, a luz do estúdio apagou-se e nós acabamos a fazer este programa às escuras. Olha, Manuel, qual foi a música que escolheste para fechar a conversa?

Música para Unir: A Canção de Jacques Brel

do Fim do Mundo esta semana. A música que eu escolhi foi uma música do Jacques Perrelle e que tem uma história que eu vou contar o mais simples possível. Rápido. Eu, na Bolívia, nesse salar do Uni, estávamos num jeep em que estavam...

dois belgas que se recusavam a falar francês porque eram flamingos, falavam inglês, falavam inglês, tudo bem, estava uma francesa da Córcega que falava, obviamente, só francês, não falava mais nada, com quem eu falava em francês, eu consigo falar razoavelmente em francês. E não se falavam mutuamente. Eu fazia tradução simultânea. E de repente nós lembrámos-nos que tínhamos um CD do Jacques Borrell. Sim.

que a belga, e que todos os belgas gostam, incluindo os flamengos, e acham que é património deles, mas que canta em francês. Exato. E foi o pacificador, desbloqueou, de facto... a partir daí falaram e perceberam que a Córcega achava que se a Bélgica tinha sofrido com os franceses a Córcega era quase uma colónia de franceses ela ainda era mais anti-francesa que eles e foi uma descoberta muito gira mas pelo menos falaram-nos com os outros em francês

E ela era muito divertida. Muito bem. E eles também eram ótimas gente. Música a fazer a paz, não é? E La Chanson de Avios à Mãe, é isso? Exatamente. Muito bem. Manuel Caldeira Cabral, foi um gosto. Muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador partilhar connosco as tuas viagens. Olha, boa sorte para a tua vida e também, oxalá, se concretiza esse sonho de viajar com cada um dos teus filhos nessa tal Volta ao Mundo. Muito obrigado, foi um prazer.

Já para ela fechar a conversa do fim do mundo desta semana, estamos de regresso de hoje a oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens. Tu m'as gardé de piège au piège Je t'ai perdu de temps en temps Sous-titrage Société Radio-Canada Il nous fallut bien du talent pour être vieux sans être adulte. Sous-titrage ST' 501 ... ... ... ... ... Sous-titrage MFP. faire le hasard on se méfie du fil de l'eau mais c'est toujours la tendre guerre He's got a fun.

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