¶ Intro / Opening
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¶ PROCON Investiga: Aves Faltantes e Promessas Falsas
Rádio. Novelo. Tem uma coisa que eu aprendi recentemente sobre os avestruzes. Apesar do tamanho e da força deles, eles são presas na natureza. Quer dizer, naquela equação do lutar ou fugir, eles são bem mais do time fugir. Até por isso a carne deles é tão magra. Eles conseguem correr muito. A gente já falou aqui que eles chegam a 70 km por hora. Só que tem um detalhe. Quando um bando de avestruz se assusta, às vezes eles começam a correr em ciclos.
Dois, três, gravando. Eu me chamo Antônio Carlos de Lima e até agosto de 2003 eu fui designado para ser o superintendente. do PROCON do estado de Goiás. O Antônio Carlos era o superintendente da Agência de Proteção aos Consumidores Goianos. O que é PROCON? PRO, proteção, CON, consumidor. Então PROCON é proteção do consumidor. E aí, quando ele estava completando quatro meses nessa missão... No mês de dezembro, eu recebi lá no PROCON a visita de um fazendeiro.
Esse fazendeiro estava ali para registrar uma queixa contra uma empresa. Chamada Avestruz Master. Ele falou, olha delegado, eles estão prometendo... 10 a 12% de lucro. Não dá isso. O fazendeiro sabia que não dava tudo isso de lucro porque ele mesmo era criador de avestruzes. E pela experiência dele...
O preço que a Master estava dizendo que dava para vender um avestruz no mercado brasileiro naquela época era completamente real. O plano que o Antônio Carlos desenhou para começar essa investigação era bem simples. fiz uma notificação para a Vestus Master para saber quantas aves eles tinham no plantel deles. Num primeiro momento, uma coisa pode parecer não ter nada a ver com a outra.
Mas para saber se o negócio parava de pé, ele queria averiguar o mais básico. Se tinha mesmo um avestruz para cada certificado de posse, cada título que a master emitia. O PROCON notificou a empresa. E eles voltaram com o número. Nas três fazendas que a empresa tinha naquele momento, na cidade de Bela Vista de Goiás, tinha 5.800 avestruzes lá. 5.800 certificados, 5.800 aves. Tudo microchipado e documentadinho. O próprio Gerson Maciel garantiu pra ele.
Não tem erro. O senhor pode ficar tranquilo. Ninguém vai tomar prejuízo. Todo mundo vai ganhar. Então, é um negócio como outro qualquer. É uma empresa... Em desenvolvimento, eu trouxe todo o know-how da África do Sul, lá deu certo e vai dar aqui também. Então o senhor, os consumidores que o senhor representa, podem ficar tranquilos. Beleza. Agora o PROCON.
Na pessoa do Antônio Carlos, só precisava ir lá para checar se era isso mesmo. No outro dia, eu visitei a primeira fazenda para olhar esses animais. Olhar era tranquilo. Mas não dava pra pedir pros avestruzes formarem uma fila pro Antônio Carlos ir ali contando um a um, né? Elas não deixam a gente ficar perto delas. Só os tratadores. Então eu tinha que entrar num pasto.
Ou de moto ou de quadriciclo. Só que na hora que o pessoal do PROCON entrava... Pra contar, levar o dedo e contar, num movimento assim de defesa, principalmente os machos, que eram mais agressivos... eles rodopiavam. Se a gente saísse no pasto de moto ou de quadriciclo que eles tinham lá, fazia o barulho, eles faziam o mesmo comportamento. rodou o piano como proteção para não deixar ninguém chegar perto. Então tornou essa contagem quase que impossível. Sempre que eu penso nessa cena...
Eu imagino o pessoal do PROCON no meio de um turbilhão de plumas, de pescoços e de pernocas, tentando distinguir um avestruz do outro. Como se milhões de anos de evolução tivessem preparado o bicho pra esse momento. Eu sou a Paula Escarpim e esse é o Avestruz Master, uma série original da Rádio Novelo. Episódio 3 No rastro do avestruz. O Antônio Carlos não desistiu de fazer a contagem das aves, mas ficou claro que não ia dar pra fazer naquele dia.
Conversando com os tratadores, ele soube que os avestruz estavam mais acostumados com a presença de cavalos no pasto. Então, ele se viu obrigado a apelar para instâncias superiores. a cavalaria da PM para nos ajudar nessa contagem. E assim fizemos. Eu vou deixar a cavalaria da polícia militar rodando no pasto um pouquinho, contando pescoço por pescoço, enquanto eu te explico algumas coisas.
Essa visita do PROCON nas fazendas da Vestrus Master aconteceu no começo de 2004, mais ou menos na mesma época que saíram as primeiras reportagens sobre a empresa no jornal O Sucesso. A gente falou sobre isso no episódio passado.
¶ Carta Anônima e Início das Investigações Oficiais
Mas mesmo antes dessas reportagens, já tinha um clima de desconfiança pairando no ar. Brasília, 22 de julho de 2003. Excelentíssimo senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de qualquer coisa, quero parabenizá-lo pelo ótimo trabalho que vem desenvolvendo à frente do governo. Essa é uma carta anônima.
Quem está lendo é a Carolina Moraes, que fez essa série comigo e com a Flora Thompson-Devaux. A carta foi enviada para o Lula, mas com cópia para o Ministério Público, para o Banco Central, para a Comissão de Valores Mobiliários e para a Receita Federal. Senhor presidente, a conclusão a que se chega, conforme a informação da citada empresa, é que não existe negócio melhor que esse no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.
Imagino que somente o tráfico de drogas e o contrabando de armas deem uma lucratividade maior que essa. Acontece, presidente, que por estar fazendo a captação de poupança de terceiros, teria que ter lastro, o que não tem. Teria que ter autorização do Banco Central para fazê-lo, o que não tem. E, se não me engano, também da Comissão de Valores Mobiliários, o que também não tem. Segundo o autor ou autora da carta,
A Master não estava vendendo aves. Ela estava vendendo papel. Providências precisam ser tomadas, presidente. Pois, a continuar assim, muitas famílias perderão dinheiro. algumas das economias de uma vida inteira. E isso, sem dúvida, irá respingar nos órgãos públicos competentes que não fiscalizaram como deveriam essa empresa, que atua de maneira descarada nesses mercados.
Essa empresa é um novo boi gordo, só que com uma cara muito mais feia. Há dois anos atrás eu investi em gado e realizei um velho sonho de me tornar fazendeiro. No final dos anos 90, a boi gordo estava em todo lugar, inclusive nos intervalos da novela O Rei do Gado. E essas propagandas eram protagonizadas pelo ator que fazia o próprio Rei do Gado, o Antônio Fagundes.
Faça como eu, invista com a Boi Gordo. Fazendas Reunidas Boi Gordo. Quem tem cabeça, investe em gado. A proposta das Fazendas Reunidas Boi Gordo era simples. Você investia em bois magros e o seu dinheiro servia para engordar esses bois. No final de alguns meses, seu boi magro tinha virado um boi gordo e tinha valorizado.
Eu podia até dizer que qualquer semelhança com modelos de negócios da Vestruz Master é mera coincidência. Mas a pessoa que escreveu a carta pro Lula e pra geral achava que não era coincidência coisa nenhuma. A Boi Gordo entrou em colapso em 2001 por um simples motivo. O dinheiro que os investidores estavam recebendo não vinha da venda de gado. Ele vinha de outros investidores que tinham entrado depois.
Ou seja, o dinheiro que o fulano sacava não era da venda do boi gordo dele. Era o dinheiro que o cicrano tinha acabado de botar para engordar um boizinho magro hipotético. Tem um nome popular para isso. Pirâmide Financeira. E uma hora, toda a pirâmide financeira cai. Agora, para saber se a Vestrus Master era uma pirâmide ou só um case de sucesso,
Você tinha que ver se a empresa estava operando com tudo nos conformes, a ponto de justificar a rentabilidade que ela oferecia. E o primeiro passo era simples. Contamos esses animais e foi constatado. que tinham somente 4.371 avestruzes. O Procon contou mais de mil aves a menos do que a empresa tinha relatado. Falei, ótimo, então está... emitindo título sem lastro. É tudo o que o PROCUM precisa. Lastro, no caso, é a coisa palpável por trás do papel.
A Master teria lastro se ela tivesse uma ave no pasto para cada ave vendida. E o Antônio Carlos descobriu um buraco do tamanho de 1.429 aves gigantes, ou seja, quase um quarto a menos do que eles tinham declarado. Depois de constatar esse buraco com a ajuda da cavalaria da PM, o PROCON pediu para a Master uma lista dos investidores e dos investimentos. A empresa tinha um prazo para responder. Porém, deu...
Os 15 dias e ele não forneceu a resposta. Eles não mandaram a documentação e a punição prevista era séria. A interdição temporária, ou seja, eu iria fechar. aquilo lá porque não tinha lastro. Pois bem, convoquei a coletiva 10 horas da manhã, quando foi 8 horas A secretária me chamou e falou, doutor, tem um oficial de justiça aí. O oficial de justiça estava com uma liminar, dizendo que o PROCON não tinha competência para interditar a Master. Que o Antônio Carlos não ia dar coletiva nenhuma.
E que ele ia entregar toda a documentação dele para o Ministério Público. Frustrante, né? Mas pelo menos as investigações iam continuar. E outras cavalarias, figurativas dessa vez, iam começar a rondar as fazendas. A primeira vez que eu ouvi falar da Avestruz Master foi na solicitação de uma inspeção. Esse é o Luiz Paulo Canale, que é o inspetor da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. Esclarecendo que todas as...
As observações, opiniões aqui são de cunho pessoal e que não tem uma relação direta com a entidade, com a Comissão de Valores Imobiliários. Beleza, anotado. Bom, isso foi em agosto de 2004. A CVM tinha entrado na jogada justamente por causa da denúncia ao PROCON de Goiás. E tinha uma coisa que eles repararam logo de cara. Quando as pessoas investiam em avestruzes da Master...
No contrato tinha uma rentabilidade garantida. Isso caracterizava como um instrumento financeiro, né? Porque a pessoa não ficava com a vestruz. Ou seja, era como se a Master não estivesse vendendo animais e sim ações de uma empresa. E não tem nada de errado com isso, em princípio. Investimento em ações não é uma coisa ilegal. Mas as empresas que trabalham com isso têm que ser cadastradas na CVM. Foi isso que a CVM avisou para a Master.
Ou eles se cadastravam como instituição financeira, ou eles iam ter que parar de prometer lucro na recompra dos avestruzes. A Master entendeu que a segunda opção era mais fácil. E foi aí que eles passaram a adotar o modelo de CPR. certificado de produto rural, que é o comprovante padrão de transações do agronegócio, como sacas de soja e cabeças de gado.
A partir dali, uma pessoa que estivesse investindo na Master não estava mais, pelo menos em teoria, comprando um investimento com retorno garantido. Ela estava só comprando uma ave africana gigante. Normal. Só que daí, alguns meses mais tarde, um pessoal da CVM saiu para fiscalizar alguns escritórios da Master e eles ouviram os vendedores fazendo as mesmas promessas. Quer dizer, era um pouquinho diferente.
Em vez de ter a venda e a recompra no mesmo documento, tinha um documento da venda e outro prometendo a recompra, o que continuava sendo irregular. Depois dessa segunda leva de inspeções, a empresa...
¶ Ascensão da Master: Ostentação e Degustação de Avestruz
voltou a prometer que ia interromper essa forma de captação. Isso já era final de 2004. Olá, amigos, parceiros, criadores e avestruz. 2004 foi um ano fantástico para a estruticultura brasileira. A criação de avestruz em nosso país deu um grande salto. Em nossas fazendas, tivemos o nascimento recorde de 12 mil filhotes.
Em 2005 será ainda melhor. Imagina todos os personagens dessa história se recolhendo para o Natal, férias de verão, todo mundo tirando um respirinho, as avestruzes tirando um cochilinho no pasto. Um 2005 maravilhoso para vocês. parceiros e criadores de Avestruz. Logo no começo do ano, o Luiz Paulo voltou para Goiânia para visitar a sede da Avestruz Master. Na primeira visita que ele tinha feito, uns seis meses antes, o escritório ficava numa casinha.
Agora, a sede da empresa era na avenida, numa das avenidas principais da cidade, e era um prédio, não era mais uma casa, era um prédio para três andares, com ovo de avestruz gigante. No topo da torre do prédio. Ainda não dava pra saber se a Avestros Master era um boi gordo. Mas a empresa, com certeza, tinha engordado nesse tempo. Me lembrou até, pessoalmente, me lembrou até aqueles filmes de...
de Jurassic Park, né? Aquelas coisas grandiosas. E assim como em Jurassic Park, as coisas estavam saindo um pouco do controle. Foi até comentado que estava tendo uma crise imobiliária nas cidades. Pessoas vendiam imóveis para comprar, investiam em vestruz. Isso dá porta para fora, né? Agora vamos dar um pulo pra dentro do prédio, com o ovo em cima. Ninguém mais tinha acesso além do Gerson Maciel e desse cara que tá falando, o Reinaldo Macedo.
O Reinaldo estava trabalhando como garçom numa feira agropecuária e acabou chamando a atenção do Gerson Maciel, que fez uma proposta para ele mudar de stand. e vi servir os clientes da Vestruz Master. Mas ele logo passou a servir o patrão também. Se ele desse um espírito, eu tava ali pra falar amém. É, a gente era, é assim.
Quando o Sr. Gerson me chamou para trabalhar com ele, ele foi bem franco comigo. Falou, Reinaldo, eu preciso de uma pessoa 24 horas para mim. Aonde eu estiver, eu quero aquela pessoa para me servir ou para servir as pessoas que estão comigo. Vem muita gente fora, vem gente de fora do país, da África, dos Estados Unidos, entendeu? Então ele queria ter um atendimento mais exclusivo, mais especial. Era exclusivo mesmo, do tipo, se o Gerson precisasse dele meia noite...
Não importa se o Reinaldo estivesse em casa com a namorada. O Reinaldo se descreveu pra gente como um cara fiel ao patrão. Mas essa dedicação também tinha certas vantagens. Eu só tenho a agradecer desaparecendo a minha vida, que foi uma mudança radical. Vamos dizer assim, tudo que eu pude experimentar de coisas boas na vida, eu experimentei na época da avestruz.
Todo dia, o Reinaldo estava do lado do seu Gerson, servindo uísque, frios e o que mais ele quisesse. Mas ele estava servindo também de testemunha da expansão do Império da Master. Então já pega a minha chave, lá abria. O que é preparação? É assim, porque ele gostava de manhã cedo tomar um cappuccino bem forte, entendeu? Ele tinha uns brioches que ele gostava de comer, tipo uns croissant.
Eu ia na padaria, já tinha encomendado, já trazia, deixava a mesa dele pronta, um suco de laranja, coisa simples assim. Então ele chegava, tomava o café da manhã dele, e aí começava mais a reunião, já tinha gente esperando ele. Tinha gente que levava o dinheiro na sacola para fechar com ele, porque não queria transferência nem nada.
Para ajudar a azeitar ainda mais os negócios, o Gerson chamou o Reinaldo para assumir mais uma função. Muita gente falou, falta uma degustação, nós conhecemos a carne. Aí ele pegou e me sugeriu para assumir essa parte. Eu falei, vamos lá, vamos fazer. Além de servir, o Reinaldo tinha bastante experiência com cozinha. E ele já tinha trabalhado com carnes exóticas, tipo jacaré, javali. Avestruz era novidade, mas ele estava confiante que ele ia pegar o jeito.
Com o tempero dele, a Master foi conquistando corações. Tipo de um cliente meio desconfiado que apareceu num lançamento em Recife. Tinha um senhor lá que não comia carne de jeito nenhum. Ele falava, essas carnes precisam de avestruz, não sei o quê.
Eu peguei e tomei a liberdade de chegar nele e falei, eu posso fazer pro senhor? Se o senhor não gostar, o senhor pode falar normalmente, mas eu vou fazer pro senhor. Eu peguei e fiz uma molho e quatro queijos pra ele, mas fiz na mesa pra ele, na chapa, na hora. Entendeu?
E ele comeu a partir daí e falou assim, ó, por causa dessa comida sua eu vou passar a comprar avestruz. E virou um dos nossos maiores criadores, através dessa degustação que ele fez. Ganhou pela boca. Ganhou pela boca. Graças a Deus, né? A estratégia era boa demais pra ficar só na anedota. A Fazenda Sede, a Master 1, já tinha uma lojinha com artigos em couro de avestruz pra impressionar os visitantes. Com a qualidade ou com o preço.
Mas ficou óbvia a ideia de colocar lá também um restaurante, para os clientes e potenciais clientes poderem degustar pratos de avestruz. E ele me chamou para assumir essa parte de cozinha da avestruz massa. Foi nesse restaurante que, nos idos de 2005, o tempero do Reinaldo deixou de conquistar um freguês bem importante. Eu te conto já já, depois do intervalo.
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¶ Defesa Pública e Conexões Políticas
A Avestruz Master é uma empresa que atua no mercado da estrutura brasileira há 5 anos. Durante esse tempo, vem crescendo com o apoio dos nossos clientes, parceiros e de todos os criadores de Avestruz do Brasil. Essa é uma propaganda que o Gerson Maciel gravou no final de 2004. O começo é bem parecido com todas as outras propagandas que a Master andava veiculando. Mas aí vem isso daqui. Nos últimos meses, a CVM, Comissão de Valores Mobiliários.
vem inspecionando e acompanhando todos os nossos negociações, mesmo que os nossos negócios não sejam por ela regulamentados. Tinha muita investigação rondando a Master, né? Pelo jeito foi por isso que o Gerson resolveu gravar esse vídeo. para tentar acalmar os investidores. Na versão dele, é como se as investigações da CVM fossem um selo de qualidade. Um cuidado a mais. Quero informar que a Vestruz Master...
já está se adequando às deliberações finais da CVM, cujas orientações vieram ao encontro de nossas metas. Só que a história não era bem assim. Naquela altura do campeonato, a CVM estava tentando ajustar os contratos da empresa para eles parecerem mais com compra de animal e menos com investimento financeiro. Mas esse processo, que nem a gente ouviu agora há pouco do Luiz Paulo Canale...
Esse processo não estava sendo simples. A master adequava aqui, desadequava ali, e os investidores ficavam cada vez mais inquietos. Foi aí que o Gerson resolveu procurar uma ajuda. Naquela altura, depois de tentar bastante, ele tinha finalmente conseguido fazer alguns contatos na política. Por exemplo, ele tinha ganhado a simpatia do prefeito de uma cidade no interior do Tocantins. O prefeito Paulo Mourão.
Prefeito de um município do Tocantins, chamado Porto Nacional. Onde tinha uma fazenda da Master. O Gerson pediu para o prefeito Paulo Mourão para interceder por ele junto a um senador do estado do Tocantins, o Leomar Quintanilha. E, por sua vez, o senador Quintanilha pediu a ajuda de um consultor. Em geral, tudo que o senador escreve ou assina, em geral, é feito pelos consultores, não é pelo senador. A primeira coisa que eu ouvi quando entrei na consultoria é esqueça...
a autoria de qualquer coisa que você escreve. Porque tudo que você escreve, quem assina são os senadores. Esse consultor ou ghostwriter de senador é o Hipólito Gadelha. Eu fui chamado para uma reunião. com o próprio pessoal, os diretores da Vestruz Master e o senador Léo Macintanilli, e nessa oportunidade me foi exposto tudo o que estava acontecendo. Tudo o que estava acontecendo era, segundo Gerson Maciel,
que eles estavam ali só tentando empreender no Brasil, mas a CVM estava dificultando. E daí a CVM explicou que o que de fato estava acontecendo é que essa empresa estava fazendo um sistema de pirâmide.
¶ Visita à Fazenda e Peculiaridades Religiosas
Mas assim, muito claramente, eu digo, ok, vamos ver. Ver literalmente. Porque a Master convidou tanto ele quanto o senador para conhecer a fazenda principal, a Master 1, em Bela Vista. Daí nós fomos de carro até Goiânia. E qual não foi a nossa surpresa que, chegando ao local, havia um helicóptero à nossa espera. Teve a já tradicional sobrevoada dos piquetes, espero que dessa vez sem maiores incidentes para as aves no chão.
E eles foram convidados para almoçar no restaurante da fazenda. E depois almoçamos lá. Eu não como carne de avestruz por questão religiosa, mas tinham lá pratos com avestruz e tal. Questão religiosa. Ou seja, não foi por culpa do cardápio do Reinaldo. O Hipólito nunca botou uma garfada de avestruz na boca. Mas nessa altura da conversa, a gente precisou fugir um pouco da pauta que a gente tinha preparado pra entrevista, porque a gente precisava entender.
Que questão religiosa era essa? A gente perguntou se ele se incomodava de explicar. Não, me pode dizer não. Ao contrário, me sinto honrado em dizer que eu frequento a igreja adventista do sétimo dia. Creio na Bíblia como a Igreja Adventista crê, sabe? Até aí, a gente ainda não estava entendendo. A Igreja Adventista acredita nas instruções que Moisés deu acerca da alimentação.
e por causa delas eu não como carne de porco, não como avestruz, não como outros, nenhum marisco, nenhum peixe de couro, nenhum roedor, como coelho, coisa dessa natureza. Que certas religiões não permitem o consumo de carne de porco, ou de vaca, ou de frutos do mar, a gente sabia. Mas avestruz? Então, acontece que avestruz aparece bastante na Bíblia. Essa é a Flora Thompson-Devaux.
E eu preciso dedurar que ainda durante a entrevista com Hipólito, ela abriu uma nova aba no computador e começou a pesquisar versículo atrás de versículo. E assim... Eu não estava esperando a virulência com que a Bíblia fala sobre o nosso novo bicho preferido. A verdade é que muita gente na antiguidade desconfiava do avestruz. Assim, que bicho era esse que parecia um pássaro, mas era gigante?
Meio pelado, não voava e só tinha dois dedos. Eu nunca tinha parado para pensar nisso, mas o avestruz é de fato a única ave que só tem dois dedos. Realmente parece um sinal de alguma coisa. teve grandes debates entre os antigos sobre a natureza do avestruz. Até o nome científico dele é meio mal resolvido, Strutio camelos, ou seja, um pássaro camelo.
A gente costuma não gostar daquilo que a gente não entende, né? E na Bíblia tem vários momentos de estruteofobia explícita. No livro de Jó, capítulo 39... A ave é chamada de uma péssima mãe e de uma bela de uma burra que não sabe voar. Vou ler aqui. A avestruz bate as asas alegremente. embora nem a sua plumagem nem as suas asas possam ser comparadas às da cegonha. Ela abandona os ovos no chão e deixa que a areia os aqueça, esquecida de que um pé poderá esmagá-los.
ou de que algum animal selvagem poderá pisoteá-los. Ela maltrata os seus filhotes como se não fossem dela, e não se importa de ter trabalhado em vão. Isso porque Deus lhe privou de sabedoria e não lhe concedeu bom senso. Contudo, quando ela se levanta para correr, ri do cavalo e do cavaleiro. Ok, burra, mas rápida. Mais um trecho. Lamentações, capítulo 4, versículo 3. Até os chacais oferecem o peito para amamentar os seus filhotes, mas o meu povo não tem mais coração.
É como as avestruzes do deserto. Burra, rápida e sem coração. Putz. Em Miquéias e Isaías, o avestruz é mencionado junto com o chacal como um bicho que habita lugares ermos, meio amaldiçoados. E em Deuteronômio 14, tem uma lista dos bichos que pode comer e os que não pode. Aí entra a lista que o Hipólito citou. Boi pode, ovelha pode, cabra pode. Não tem uma lista de aves que pode, mas tem uma longa lista de aves chamadas imundas.
Águia, corvo, vários tipos de coruja, morcego, que não é uma ave, mas ok, e avestruz. Olha, eu queria dizer que o pombo não tá nessa lista, tá? Não tá. Mas a avestruz, então, é burra, rápida, sem coração e imunda, biblicamente falando. Tem uma outra história antiga que eu lembrei que não tem nada a ver com avestruz.
É dos comedores de lótus, da Odisseia de Homero. A história de uma ilha onde crescia um tipo de lótus que dava uma fruta doce como mel. E quem parasse na ilha e comesse desse lótus... não ia querer saber de mais nada na vida. As pessoas que moravam lá existiam num tipo de transe. O Ulisse só consegue fugir de lá porque ele se recusa a comer da fruta. Eu lembrei disso quando a gente ouviu do Hipólito.
que foi para Avestruz Master, mas não comeu avestruz. É como se Adão e Eva tivessem negado a oferta da serpente de comer o fruto proibido. Então... Tá, mas então vamos fechar essa aba da história antiga aí, porque eu te conheço e sei que isso pode ir longe. Tá bom, parei. Bom, já volta pro Hipólito, que saiu da Master 1 bem desconfiado. E não por motivos religiosos.
¶ Análise Contábil Revela Fraude Piramidal
esse negócio nos levar de helicóptero, demonstrando a riqueza do projeto, sabe? E lá na fazenda eu vi alguns carros, que confesso para você, que nunca nem conheci na vida, porque carros... muito bonitos, importados, sem dúvida alguma caros. Eu não sei, não saberia dizer nem o nome desses carros, só de um que eu me lembro que era um Hummer. Essa ostentação toda para o Hipólito tinha cara de golpe.
As pessoas que costumam dar golpe, elas, ao que me parece, elas gostam de parecerem ricas, gostam de esnobar, gostam de ostentar a riqueza, porque isso promove na cabeça do pretenso investidor da pessoa para quem ele está querendo deixar a mensagem de que aquilo ali é uma empresa sólida, aquilo é um trabalho que...
Está produzindo bons resultados, veja aí, ele está rico, é porque o negócio deve ser realmente muito bom. Até aí, pode ser só mais uma estratégia de marketing, né? Chamar atenção para quanto a empresa estava rendendo. Mas quando Hipólito recebeu a contabilidade da máster que ele tinha pedido para consultar... Olha, até uma pessoa que é estudante do primeiro semestre de contabilidade veria com clareza que...
Aquela contabilidade era rigorosamente fraudada. Uma coisa muito simples, muito simplória. O dinheiro que entrava ali, a partir da captação das pessoas... era tudo contabilizado como se fosse receita da empresa e não como se fosse uma obrigação, um passivo que a empresa tem que devolver. Então,
Se você fosse pegar o balanço daquela empresa, você ia ver um ativo, vamos dizer assim, na casa das centenas de milhões de reais, as receitas mensais. Só que nada disso era receita. Tudo isso era o quê? Era passivo. Tudo isso era obrigação de devolver. Olha, nenhuma de nós três aqui tem nem o primeiro semestre de contabilidade. Mas o Hipólito explicou direitinho e é bem fácil de resumir.
Por contrato, você comprava um avestruz da Master com a promessa de receber esse dinheiro quando quisesse vender, com retorno que chegava a 10% ao mês. A maioria dos investidores não resgatava, reinvestia. Só que eles podiam resgatar quando eles quisessem. Era um dinheiro deles, dos investidores. E, nas contas da Vestruz Master, esse dinheiro era entendido como um dinheiro da empresa. Eles contabilizavam como se eles nunca fossem ter que devolver. Economicamente não era viável aquilo.
Mas foi feito para impressionar qualquer pessoa que quisesse investir sem que parasse para observar que a relação entre o dinheiro aplicado e a capacidade de produção de resultados econômicos era absolutamente...
discrepante de, portanto, quem aplicasse naquilo ali e entendessem que está aplicando, seguramente um dia iria perder o dinheiro. O Hipólito já tinha o veredito dele. Da contabilidade. Com a ostentação... E com o fato de que a CVM estava fiscalizando, você junta as três coisas e diz, está fechado o círculo, o assunto está encerrado na minha cabeça.
¶ Alerta Confidencial e Últimos Ajustes Legais
Isto é uma pirâmide disfarçada de investimento em produção de avestruzes. E aí, o que você faz com uma informação dessas? O que aconteceu? Eu levei esse assunto...
para o senador Lermar Quintanilha, escrevi um laudo e pedi a ele que deixasse esse laudo como confidencial entre mim e ele. Ainda coloquei... o rótulo de confidencial na cara daquele laudo, na primeira página, dizendo para ele o seguinte, senador, essa empresa vai quebrar daqui a alguns meses, se o senhor divulgar esse laudo, vão dizer que o senhor é que provocou a quebra. mas brevemente essa empresa não terá caixa para satisfazer as demandas de saques dos investidores.
Portanto, essa empresa vai quebrar brevemente e se o senhor divulgar isso aqui, vão dizer que o senhor é quem provocou isso. Então, só aguarde e ela vai quebrar sem precisar que o senhor entre nesse assunto. O Hipólito, além de Ghostwriter, é bom conselheiro. E assim, tanto ele quanto o senador ficaram quietos. Enquanto isso, a negociação da Master com as autoridades continuava.
Porque a CVM e as outras instituições não estavam olhando para a contabilidade interna da Master. Elas só estavam tentando regularizar os contratos e as formas de investimento que a Master estava oferecendo. Então, em junho de 2005, a empresa assinou um termo de ajustamento de conduta, se comprometendo a mudar o jeito que eles vendiam os avestruzes. Eles não podiam mais usar palavras como investidor, aplicação, juros, lucro.
E nem podiam garantir que eles iam recomprar as aves. Ou seja, dali em diante, quando você comprava um avestruz, a transação era exatamente essa. A compra de um avestruz. Mas será que era mesmo?
¶ O Dia do Colapso: Caos na Avenida T10
Para o Hipólito, estava claro como tudo isso ia terminar. Só não estava tão claro como tinha começado. Pela minha natureza de estudioso do direito, eu me sinto no dever de... sempre a partir do pressuposto de que as pessoas são inocentes, até que provem o contrário. Então, eu os recebi de coração aberto, de mente aberta. sem fazer qualquer juízo sobre as pessoas em si, se eram ou não pessoas que estavam dando um golpe, ou se eram pessoas de bem.
Podia ser uma das três coisas, né? Pessoas de bem que estavam fazendo uma coisa errada sem perceber. Podia ser que fossem pessoas de bem que estavam deixando de ser de bem e sendo mal. E podiam ser pessoas que já fossem realmente profissionais do crime. Pra você ter ideia, o Bruno fez aniversário dia 24 de outubro. Eu fiz uma puta numa festa legal pra ele. Essa é a Beth, a Elizabeth Maciel.
E o Bruno é o filho dela, que estava para fazer um ano em outubro de 2005. Meu pai vai falar, meu neto vai fazer um aninho e a gente quer os funcionários todos, todo mundo vai participar. Então foi uma festão. Se tivesse passado na ideia... De que fosse acontecer alguma coisa, a gente não teria gasto o que nós gastamos numa festa de um ano do nenê. Tem flashes, tem imagens assim, que me fazem recordar um pouco desse dia.
Esse é o jornalista Paulo Galvez, que foi apresentador do Canal do Avestruz, um programa exibido na TV Goiânia e bancado pela Master. O que a gente cobria? A gente cobria as fazendas, a gente cobria os eventos, as atividades, tudo muito ligado, né? A Avestruz Master, né? Então eu fui ver... O nascimento de filhotes, fui ver o tratamento que tinha. E era tudo uma coisa assim de primeiro mundo, sabe? O Paulo também editava uma revista, também patrocinada pela empresa, o Guia do Avestruz.
E o dia que ele lembra só em flashes foi 4 de novembro de 2005. Eu lembro que nesse dia que surgiu a notícia de que... que tinha investidor que não tinha recebido, a gente foi para a sede da Vestrus Master. Na manhã do dia 4 de novembro, essa notícia foi correndo por muitas bocas. E lógico, era uma notícia que interessava o canal do Avestruz. E fui com a equipe do canal do Avestruz porque...
A nossa ideia naquele primeiro momento é que era uma crise que seria contornável e a gente iria, inclusive, fazer a cobertura da explicação da empresa. Quando eles chegaram no prédio de três andares na Avenida T10... A empresa estava de portas fechadas. Tinha muita gente, muito jornalista e muito investidor. Eu não vou saber de precisar quanto, mas assim, tinha já um pequeno tumulto lá na porta.
Esse som é de um vídeo que mostra a avenida congestionada com uma pequena multidão ao longe. E esse vídeo acho que deve ter dado para perceber... Não é do canal da Vestruz. Ele é o único registro que a gente achou até agora desse dia fatídico, que foi postado no YouTube com a legenda o dia em que a Avenida T10 parou.
E bom, o Paulo ficou lá um tempinho, no meio das buzinas e da confusão, tentando entrar em contato com o pessoal da produção do canal. E quando ele finalmente conseguiu ter notícias... Elas não eram boas. Eu acho que é verdade. O seu gesto não está me atendendo mais. E eu acho que realmente o problema é sério.
O Reinaldo, o braço direito do seu Gerson, ele estava na estrada, voltando de uma fazenda em Minas, quando ele ficou sabendo. Quem te contou? Só sabe que ex-mulher é a pior coisa que tem, né? Eu estava no meio da estrada. Já chegando ali, mas eu acho que estava em Pires do Rio, se eu não me engano, a minha ex-mulher ligou para mim e falou, tá vendo? Só vê se tudo se quebrou, acabou. De boca em boca, a notícia foi voando.
¶ Desespero Pós-Colapso: Saques e Depredação
E eu estava trabalhando, fazendo manejo, quando a minha amiga Kellen ligou e falou, para tudo, a Master faliu. Essa é a Nicole Leão, a veterinária que a gente ouviu no episódio passado. A primeira coisa que essa amiga da Nicole mandou ela fazer foi esconder o carro em que ela estava. A Nicole usava um carro da Master. E todos os carros da Master eram plotados com imagens enormes de avestruzes.
pega o carro, esconde e vai pra sua casa. E não passe na rua com esse carro, senão você vai ser apedrejado. Aí eu falei, pronto, lascou. Eu no meio de uma fazenda trabalhando, saí da fazenda. Me lembro que se fosse hoje, eu ajoelhei e comecei a chorar. Aí um técnico, um funcionário da fazenda de hotelaria fez assim pro outro. Fica quieto, deve ter morrido um parente dela. Não esqueço.
Eu falei assim, só levantei, falei assim, o parente é nosso. Naquele momento, as informações eram confusas e apocalípticas. O único que se sabia com certeza era que a sede da Márcia em Goiânia amanheceu fechada, sem sinal dos sócios. Mas o pânico e a raiva não demoraram para se alastrar. A gente não sabe exatamente o que aconteceu dentro da Vestruz Master nos primeiros dias de novembro de 2005, mas a gente tem um relato da Sarah Sandra Lemes.
que era a secretária da Patrícia, a diretora financeira da Vestrus Master, que também era filha do Gerson Maciel. A gente não conseguiu contato com a Sara durante a apuração, mas a gente teve acesso a um depoimento que ela deu para a polícia naquele mesmo mês, no final de novembro. Ela disse que no dia 1º de novembro, abre aspas, Patrícia estava muito nervosa e chorando, fecha aspas, e contou para ela que muitos cheques pré-datados de investidores tinham sido depositados.
Aparentemente, a empresa estava sem fundos para cobrir esses cheques, e o gerente do Bradesco tinha dado um prazo para a Masser honrar. Aqui mais um trecho do depoimento da Sandra. Abre aspas. Patrícia foi embora da empresa por volta de 15 horas quando sua colega Rosana acabou achando um papel que havia sido manuscrito por Patrícia, no qual ela dizia que não estava aguentando mais e que iria embora, pois não suportava mais seu pai.
que na carta também pedia para cuidar de seus cachorros e que não sabia o que iria fazer da vida. Fecha aspas. No depoimento, a Sarah disse que ela puxou os extratos das contas da Master em vários bancos e entregou tudo para o Gerson Maciel. e que ele teria dito para ela que um grupo de chineses estava para investir na empresa e ia cobrir todo o rombo. Ela disse ainda que no dia 3 de novembro, a Patrícia voltou a trabalhar, segundo ela, ainda nervosa e chorosa,
E que no fim do dia, ela saiu do escritório levando as coisas dela, inclusive algumas fotos que ela tinha na mesa de trabalho. E que quando a Sarah estava para sair também no fim do expediente, ela recebeu um recado do Gerson. Ele teria dito para ela que ele ia fazer uma viagem de três dias e que ela poderia receber algumas ameaças, mas era para ela permanecer na empresa. A gente não sabia o que realmente tinha acontecido, porque foi muito rápido.
Não houve uma coisa que você falasse, olha, vai acontecer alguma coisa. Não houve isso. Essa aqui de novo é a Beth. Ela foi a única dos irmãos que quis dar entrevista pra gente. Simplesmente... no dia 3 de novembro eu fui no escritório do meu pai pra arrendar uma fazenda de 60 alqueires pros novos incubatórios que em 2006 não ia dar o que nós tínhamos. E cheguei lá e já estava tendo uma puta de uma confusão.
com um banco específico. A Beth não quis falar o nome do banco, mas todos os documentos indicam que era o Bradesco. Um banco específico que tinha recebido ordem da chefia. que era pra forçar a devolução de cheque. Por quê? Tinha vazado informação que a Master estava abrindo um banco. Deixa eu te perguntar, essa coisa... Então, ele tinha comentado comigo e eu achei que eu não dei muita importância, porque o meu negócio estava ligado nos bichos. Mas ia abrir um banco.
Porque a gente estava tendo problema com o banco, entendeu? A gente tem horário para você colocar o dinheiro no banco. E um certo banco estava sabotando. E meu pai colocou, fez um outdoor enorme na época, que era a foto dele, escrito assim, aos bancos, os cães ladram e a caravana passa. Eu falei, o senhor não devia ter feito isso. O senhor disse, sou errado. E o golpe de misericórdia foi ali. Aí que o banco...
Sacaneou. A gente não encontrou nenhum outro indício de que estava nos planos da Vestrus Master abrir um banco. Mas uma reportagem do Popular, alguns dias mais tarde, deu uma versão diferente. Um advogado que representava dezenas de investidores contou que os cheques do Bradesco começaram a voltar porque as contas da massa estavam negativadas em 3,8 milhões de reais. Isso em valores da época.
A gente pediu outro lado para o Bradesco, mas a assessoria respondeu que eles não iam comentar por causa do sigilo bancário. O fato é que, fosse por um motivo ou por outro, no dia 4 de novembro, a Vestruzmaster fechou as portas e dezenas de milhares de investidores se desesperaram. Numa matéria da época, o Antônio Carlos do Procon é citado dizendo que o estoque de Lexotan, que é um tipo de ansiolítico, acabou em Goiânia. A sede da Vestruz Master foi invadida...
Quando esses investidores, foi dezenas deles, centenas aliás, chegaram lá, encontraram as portas fechadas, eles entraram e começaram a depredar lá e pegar. computador, mesa, o que tinha lá dentro, os investidores, cada um saiu com aquilo, carregando aquilo e levando pra sua casa. Pois bem, esse foi...
¶ O Legado e a Busca por Recuperação
O fim da Avestruz Master. Para o Antônio Carlos, a Master acabou naquele dia. Mas muita água ainda ia rolar. E muitos ovos também. Eu sei que quando aconteceu... o Lamentável da Vestura Fechar, teve algumas pessoas, vândalos, que entraram e destruíram, quebraram vidraça, roubaram muitas coisas que tinha lá dentro, inclusive o piano de cauda. Tinha um piano de cauda muito bonito, entendeu?
Roubaram. O cara chegou, entrou com a caminhonete de porta dentro, quebrou a porta principal. A gente não encontrou outros relatos desse roubo do piano. E nem, aliás, da quebradeira na sede da empresa. Mas o que a gente sabe é que teve, sim, investidor querendo recuperar a grana a todo custo. E o ativo maior da empresa ainda estava rodopiando pelo pasto.
A gente te conta isso no próximo episódio de Avestruz Master. Ai, pulei da cama e falei, tô mais pobre. E como eu conheço bem a região lá de Bela Vista... e sabia de algumas fazendas que tinham avestruz, calcei uma bota e fui correr atrás. Se eu não pegar meu dinheiro, eu pego ovo, eu pego avestruz, eu pego o que tiver para pegar.
Ficou o Gerson Júnior aqui, que não sabia do que estava acontecendo. E ele falou, gente, e agora? Para que lado que eu corro? Ali foi o maior erro. Meu pai falou, cara, o maior erro nosso foi aquilo. A gente ficou muito perdido, você entendeu?
¶ Créditos e Conteúdo Extra Rádio Novelo
Era como se a gente estivesse devolvendo o produto do crime ao criminoso. Eu vi muita discussão entre as pessoas, porque tinha gente que falava, você tá doido, tem que fechar essa porcaria, essa merda, não sei o que, o outro, não, você tá doido, é que a gente nunca vai ver.
A Vestruz Master é uma série original da Rádio Novelo. Para quem quiser mergulhar mais, tem conteúdo extra no nosso site, do tipo imagens da expansão das fazendas, das propagandas da Master e aquele vídeo da avenida lotada em frente ao escritório da empresa. Pra ganhar ainda mais conteúdo dos originais da Novelo, é só vir pro Clube da Novelo. Tem um link aqui na descrição do episódio.
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Aqui na série Avestruz Master, a pesquisa e a reportagem são da Carolina Moraes, da Flora Thompson-Devaux e minhas, e eu, lembrando, sou a Paula Escarpim. O desenvolvimento do roteiro é da Valentina Castelo Branco, com texto da Flora e tratamento final meu. A produção executiva é da Marcela Casaca e a estratégia de produto é da Bia Ribeiro. A produção foi da Carolina Moraes, com assistência da Tainá Nogueira e da Ashley Calvo. A montagem é da Evelyn Argenta, eu fiz o desenho de som.
E a mixagem é da Júlia Matos. A presidência da Rádio Novelo é da Branca Viana. A edição executiva é da Natália Silva. A gerência de produto é da Juliana Jäger. E a de parcerias é da Luísa Sade. A identidade visual da Vestruz Master foi feita pelo selo gráfico, com a Natasha Gompers e a Júlia Rezende, e a coordenação do Gustavo Nascimento. A Lari Constantino faz vídeos com motion design para as nossas redes. Nossa estagiária é a Isabel de Santana.
A produção musical é da Stella Nesrine e do Amon Medrado, em colaboração com os músicos Jordi Amorim nas cordas e Gudino Miranda na bateria. A gente usa também música adicional da Blue Dot. O apoio de pesquisa em Goiânia foi da Eduarda Veríssimo e do Gustavo Marques. A checagem é da Ethel Rodnitsky e a revisão da transcrição dos episódios é feita pela Flora Vieira. Obrigada e até o próximo episódio.
