¶ Intro / Opening
Oi, está começando o décimo episódio do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista 451.
¶ Introdução e Destaque do Podcast
Você já sabe, duas vezes por mês, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil. Essa não é só a décima, mas é também a última edição do programa nesse ano de 2019. E a gente está aqui no 451 MHz em clima de comemoração. Afinal de contas, em julho de 2019, a 451 lançou esse podcast.
E agora, em dezembro, a gente acabou de ser escolhido entre os melhores podcasts brasileiros do ano pela Apple Podcasts. Só tem profissa nessa lista, inclusive o Foro de Teresina, da revista Piauí, que também é produzido pela nossa querida Rádio Novelo. Ter sido escolhido como um dos melhores podcasts de 2019 nos deixou cheios de orgulho, porque esse aqui é um projeto muito suado.
¶ Biografias e Autores em Destaque
Parabéns ao pessoal do Foro, que eu escuto toda semana, e a todos os outros que entraram nessa lista de melhores do ano. Hoje a gente vai falar de biografias com dois biógrafos premiados. O escritor e tradutor americano Benjamin Moser, que como todo mundo sabe, é autor de uma biografia da Clarice Lispector, que ajudou a recolocar em nível mundial a nossa maior escritora, cujo centenário de nascimento vai ser celebrado agora em 2020.
O Benjamin acabou de publicar uma biografia da ensaísta americana Susan Sontag. O livro levou anos de trabalho para ficar pronto e acabou de sair no Brasil pela Companhia das Letras com tradução do José Geraldo Couto. Eu gosto de mulheres assim monstruosas. Eu gosto de diva. Eu gosto de coisas assim, exageradas. Foi o Benjamin que resenhou o livro do nosso outro convidado. O título é Ricardo e Vânia. e ele foi escolhido pelos críticos da 451 como um dos melhores livros de 2019.
¶ A História do Fofão da Augusta
Nesse livro, o Chico Felipe conta a vida do Ricardo Corrêa da Silva, que era um artista de rua, um cara que vivia em condições muito precárias nas imediações da Rua Augusta, em São Paulo, e era conhecido de forma muito pejorativa como... fofão da Augusta. O Ricardo era o que eu chamo de um cartão postal humano de uma cidade, meio isso, um homem elefante local. As pessoas sabiam e davam risada, mas nunca procuravam falar com ele. E também...
¶ Análise do Primeiro Ano de Bolsonaro
Eu peço perdão ao Papai Noel, vamos falar de política. Em janeiro, vai fazer um ano que Jair Bolsonaro e a nova legislatura tomaram posse de nossas vidas. E a gente decidiu refletir sobre esse ano tão áspero para a sociedade brasileira a partir de dois pontos de vista diferentes.
Eu conversei com a socióloga, professora da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o SEBRAP, Angela Alonso. Ela é autora de um artigo sobre o pensamento conservador que a gente publicou na edição de dezembro de janeiro da 451. A política brasileira se tornou de uma imprevisibilidade que é da própria natureza das crises. Num universo ideal, a gente teria coalizões. Não sei se isso vai acontecer.
A meu lado e da Ângela estava também o nosso bravo colunista Paulo Roberto Pires, que é jornalista e editor da revista Serrote. Se você se colocar frontalmente contra o que está sendo proposto e feito por esse governo é polarizar, então nós estamos polarizando é pouco. Porque conversa a gente tem com quem tem argumento. Com quem não tem argumento é pau, não é conversa.
¶ A Geringonça Portuguesa: Um Fenômeno
Em outubro, eu estive em Portugal, que tinha acabado de passar por eleições que confirmaram a coalizão de esquerda que vem governando o país e que de tão esquisita ganhou o nome de geringonça. Bom, talvez você já tenha ouvido isso antes sobre Portugal, querido ouvinte, mas o ambiente por lá é de fazer inveja. Eu conversei com dois comentaristas políticos muito influentes em Portugal e também com um historiador que fundou um novo partido. Veja bem, um novo partido, não um partido novo.
para que eles me explicassem como é que Portugal conseguiu superar essa polarização violenta que é quase uma epidemia mundial. Será possível que o nosso antigo colonizador se tornou um modelo de bom convívio entre forças políticas diferentes? Eu falei com o escritor e dirigente partidário Rui Tavares. Alerta aos brasileiros, principalmente mais bolsonaristas que vêm procurar Portugal como local de residência.
Venham, mas venham conscientes de que vêm viver para um país que, segundo o espectro normal da direita brasileira, um país completamente perdido para o comunismo. Ele conversou comigo com o poeta e crítico literário Pedro Mechia. Como dizem, a maioria dos brasileiros são fascistas. Não faz sentido. Não é verdadeiramente a maneira de discutir política desvalorizar o nosso adversário. Parece-me que é uma atitude que pode ter contribuído para alguns desses fenómenos.
E eu também me encontrei com o escritor, humorista e analista político, Ricardo Araújo Pereira. A minha avó dizia, quando a minha mãe deu-lhe a notícia, que eu me tinha inscrito como militante do Partido Comunista, a minha avó fez um silêncio e disse, mas ele é bom rapaz.
¶ Dignidade Humana em Ricardo e Vânia
E agora eu tô aqui com dois grandes autores, e grandes em todos os sentidos, porque somando a estatura desses dois caras que estão aqui ao meu lado, tem quase quatro metros de altura. Sejam bem-vindos, Benjamin Moser e Chico Felice. Felice de estar aqui.
Benjamin tá recém-chegado de Amsterdã, você mora na Holanda, né? E ele veio aqui lançar esse grande livro do ano em termos mundiais, que é a biografia da Susan Sontag, né? Aqui no Brasil o título é Sontag, Vida e Obra. A gente vai falar... um pouco sobre a Sontag, sobre o Brasil e vários outros assuntos que interessam ao Benjamin, incluindo o livro do Chico Felitti, um livro que está na lista da 451 como destaque do ano e que foi resenhado na nossa edição de dezembro pelo Benjamin.
Ricardo e Vânia, isso aí, Chico. Como é que você enxergou que você tinha um livro na mão? O livro nasceu de um perfil que eu fiz pro BuzzFeed News, que era sobre um morador de rua conhecido pejorativamente como Fofão da Augusta.
O perfil saiu na internet, fez algum sucesso. Conta pra quem não é de São Paulo quem era esse cara. O Ricardo era o que eu chamo de um cartão postal humano de uma cidade, que acho que toda cidade tem alguns. Ele era uma pessoa extravagante que ficava distribuindo filipeta de teatro. maquiado pela Rua Augusta. E o apelido fofão vem porque durante a vida ele se injetou muito silicone industrial. Só que ele foi além, assim. Ele podia ser mesmo um projeto estético, assim, que era extremo e ele...
Colocou litros e litros de silicone e o rosto dele ficou como se fosse uma máscara derretendo. Parecendo daí o fofão dos anos 90 na TV. E a coisa da maquiagem também. Ele sempre trabalhou com beleza e ele aplicava aquilo nele mesmo. Então no cabelo e... e nas maquiagens e nas performances que ele fazia na rua. A gente até tá acostumado a vê-lo como um cara que ficava no vidro do carro, mas o Chico revela um artista que havia por trás desse personagem marginalizado, né? Sim.
que fazia performances e fazia uma peça que nunca existia. Ele teve uma trupe de jovens que viveram com ele ali durante o começo dos anos 2000. Era meio uma referência estética em São Paulo. Todo mundo sabia quem era e fazia piada. E tinha a página de Facebook dele. Mas naquele registro de freak show, né? É, acho que era meio isso. Um homem elefante local. As pessoas sabiam e davam risada. E falavam sobre...
nunca procuravam falar com ele, nunca procuravam saber quem era, qual era a história. E depois de 13 anos tentando, ele me permitiu em 2017 devassar a história dele junto com ele.
¶ O Olhar do Biógrafo sobre o Marginalizado
Uau, você ficou 13 anos em cima. Da noite que eu mudei para São Paulo, com 17 anos, até meus 30. Benjamin conseguiu enxergar a grandeza desse trabalho. Eu adorei esse livro, eu achei impressionante. Eu até resenhei no momento. A resenha está aqui na edição de dezembro, que já está nas bancas. Livrarie ist.
Mas eu fiz questão, porque eu achei o livro tão maravilhoso. Achei que deu uma dignidade a uma pessoa que tinha sido uma figura marginalizada, justamente. Mas também como uma figura loca, uma coisa de cor local, mas uma figura de risada. pessoas e o Chico deu uma dimensão humana a essa pessoa, eu acho que é uma coisa que toca a gente porque também pra mim foi um símbolo do gay pobre que vem da região, que vem pra cidade que todo mundo faz porque a gente não fica
nas aldeias, onde a gente é discriminada, vem pra cidade. E às vezes dá no que dá, porque a vida não é estruturada para pessoas. que agora são menos marginalizadas, os homossexuais, mas ainda continua essa coisa. Eu acho que quanto mais você viaja no mundo, quanto mais você depara com figuras assim, que é um pouco a obrigação de...
do homossexual, de certa forma, de criar um papel num mundo que não dá um papel pra ele. Você fala na sua resenha, dando spoiler da resenha aqui, essa dignidade passa muito por ter restituído um nome a ele, né, Chico? Conta essa história. Você participou do fim da vida do seu personagem? Sem saber, assim, porque ele tava hospitalizado quando ele me deu a primeira entrevista na Páscoa de 2017. Mas ele não tá correndo risco de vida, assim. Tiveram que amputar um dedo dele porque tinha dado miíase.
que é VM, dele mexer no lixo... Então ele não tava, não é que eu sabia que era uma despedida e tal. Mas você chegou no hospital, ele tava internado sem nome. Sem nome, é. No pontuário não tinha nome nenhum. Enquanto na porta dos outros pacientes do HC tem o nome do paciente, no dele tava paciente desconhecido.
E essa busca pelo nome não era só simbólica, era prática também, porque pra eles conseguirem uma vaga pra ele num equipamento de psiquiatria, era preciso que ele tivesse um nome também e um documento, senão eles não iam conseguir pedir essa mudança e ele ia cair num limbo, assim, ele ia virar um paciente.
que podia ficar no Hospital das Clínicas por anos, como isso acontece. Ele e sua mãe ficaram amigos? Criaram uma ligação meio afetiva, porque minha mãe entrou nessa apuração. A gente faz muita coisa junto.
Ela é muito aventureira, assim. Ela foi comigo, por exemplo, pra Badiane, a Cidade de João de Deus, agora pra esse novo livro, porque ela queria, assim. Daí a gente faz essas coisas juntos. É, vamos falar, então, pegando esse gancho da família, sobre o seu livro, Benjamin, que também é um livro que fala sobre as famílias da Susan Sontag.
¶ Susan Sontag: Mito e Realidade
essa que é uma das maiores intelectuais do século XX que dominou a cena nos Estados Unidos ela era, como se diz, polêmica mas ela era acima de tudo muito admirada, muito culta, muito erudita E você se meteu nessa coisa de biografar uma pessoa que é você tocar em feridas, em, às vezes, traços de personalidade.
Como é que é? Porque você, assim, o que foi dito sobre o seu livro, pra quem não acompanhou a repercussão, é que é um grande livro, um livro impressionante, mas ele expõe muitas coisas feias Na vida da Susan. Tem gente que odiava e que amava. E os dois, eu descobri muito cedo, estavam errados, de certa forma. Estavam apaixonados.
pela imagem dela, da intelectual mais forte do país, da mulher que sabia tudo, da mulher que não tinha medo nem de presidente, nem de guerra, que foi pra Bósnia e enfrentou. a limpeza étnica quase sozinha. Ela sabia muito bem criar esses mitos ao redor dela e eu achei muito interessante a interação do mito com a pessoa. porque você descobre uma pessoa muito vulnerável, muito frágil, muito insegura, mas ela sabe muito bem projetar.
uma imagem. E eu achei isso fascinante, porque é o tema da obra dela, a interação da imagem, da fotografia. Com a realidade. Eu gosto de mulheres assim monstruosas. Eu gosto de divas. Eu gosto de coisas assim, exageradas. Eu acho que a figura do Ricardo é isso também, de certa forma. A Susan era tudo imães.
¶ Os Segredos das Biografias
E você, Chico, tá conseguindo acesso ao João de Deus? Ele tá te dando entrevistas? Eu estive com ele quando ele tava no hospital, já preso. Eu entrei num hospital de Goiânia, onde ele tava em prisão hospitalar, porque ninguém me barrou. Eu simplesmente subi, assim. Acho que ninguém tentou entrar na UTI dele. Jura?
Eu entrei. Sem disfarce. É muito fácil às vezes, né? É, então. É mais fácil do que a gente pensa. A gente parte do pressuposto que vai ser o sírio-libanês com a polícia federal na porta. Mas a gente entrou pela porta do pronto-socorro do hospital onde ele estava, subiu três rampas e não tem onde ele estava. Ele estava muito debilitado, então não foi propriamente uma entrevista, porque ele estava meio fora de si. Sei que até o Ministério Público teve dificuldade de conversar com ele.
por esse nível de afastamento da realidade que ele passou por um período. E ele tem mesmo essa coisa forte, mística? Eu conheço pessoas que não têm nenhuma vida religiosa, nenhum sentimento religioso. Disseram que perto dele... sente-se um negócio... É, eu acho que o mistério dele pra mim mora aí, mas já digo, eu sou a pessoa mais cética do mundo, não tenho nenhuma religião, não tenho nenhuma fé, mas senti carisma, o que eu já acho que leva...
Uma pessoa longe, no caso dele, levou. O carisma leva artistas longe. E se você não tem, não pode conquistar. Benjamin, essa biografia sua da Sontag, você foi escolhido, vamos dizer assim, pela família pra fazer esse livro. Eles cederam... a você documentos, o acesso ao arquivo, fotos, entrevistas, tudo que você quis, você teve acesso. É uma biografia oficial? Não, é interessante porque tem essa frase de biografia autorizada.
Que essa biografia não é. Eu sou o biógrafo autorizado. Que é uma diferença. Você é o biógrafo autorizado, mas a biografia não é autorizada. Então, eu tive a autorização para ir nos arquivos segredos da Susan, que estão na Califórnia, que é uma coisa fascinante. que são os computadores dela, as cartas privadas dela, toda essa parte, como o Vaticano, que tem a coleção de pornografia. Eu achava que ia ser um pouco fascinante. Foi a... Sei lá, não foi.
O voyeur é uma outra coisa. Você fica vendo coisas a ti mais... Porque a gente pensa nessas coisas, a gente pensa em sexo, a gente pensa em dinheiro, a gente pensa... Mas não é isso que as pessoas... Querem proteger. E a Susan foi mentindo sobre certas coisas, mas são bem específicas. Tem coisas que você não entende no primeiro relance. Por que isso está aqui? Isso dois anos depois você entende. porque ela botou isso aí.
¶ Novos Projetos e Perfis Literários
Pois é, e você, Chico, você tem um personagem aí que você escreveu que deixou muito, não deixou documentação. Você não tem na Califórnia um centro que parece o Vaticano. Nossa, adoraria que tivesse. Eu queria que o Chico falasse um pouco desse perfil que ele tá publicando. explicando na nossa edição de janeiro, que é sobre o Esmar Tirelli Neto. Por que você resolveu perfilar o Esmar, que é um poeta que tem nome no meio poético brasileiro, mas...
O que te atraiu nesse personagem? Ele é uma coisa brilhante. O que me atraiu o olhar como era o Ricardo. Eu estava nos Estados Unidos, em Nova York, num simpósio que a Universidade de Columbia fez com autores brasileiros. E daí tinha esse poeta...
de quem eu nunca tinha ouvido falar e nunca tinha lido, que se chamava Smartirelli Neto. E na mesa dele, ele completamente roubou a mesa, assim, ele esmirilhou, ele destruiu a plateia, saiu apaixonada por ele. E era um moço jovem, baixinho, insulto, assim, peludo. Parece o piteco do Maurício de Souza com um poncho vermelho no inverno de Nova York. Nada ali fazia muito sentido. O inglês dele era perfeito. E daí ele...
falou na palestra que ele tava imitando o Humphrey Bogart, que ele era louco pela idade de ouro de Hollywood, e que era a primeira vez dele nos Estados Unidos, por mais que o inglês dele fosse perfeito. Beleza, então fica aí a dica sobre esse perfil que o Chico Felici...
está publicando na edição de janeiro da 451. Eu queria agradecer ao Chico Felice. Parabéns, Chico. Você está cheio de projetos. Ainda ficou um monte de coisa de fora dessa entrevista. A gente volta. Venha de novo. E você, Benjamin, seja bem-vindo ao nosso país. Obrigado. Tome cuidado com o que você vai falar sobre a gente. Ah, eu já insultei todo mundo, né? Não fala mal de brigadeiro que o Jamie Oliver falou e nunca foi perdoado.
Eu acho muito açúcar. Mas... Parabéns, seu livro não vai vender... Lançamento vacio. Acabou. Eu volto. Eu volto já. E agora eu queria dar uma informação importante. Acaba de chegar...
¶ Literatura Japonesa e Novidades 451
Aí no seu tocador de podcasts, o terceiro episódio do podcast da Japan House São Paulo, que é feito em parceria com a 451. Não é mesmo, Natasha? É isso aí, Paulo. A gente agora está com três grandes episódios disponíveis no tocador. O assassinato do comendador... do Haruki Murakami, Ayako do Osamo Tezuka e querida Kombini da Sayaka Murata. Pois é, a literatura japonesa entrou no foco da 451 durante todo esse ano e além desse podcast da Japan House, a gente também vai poder...
Vou publicar agora na edição de janeiro um texto de memórias de infância do Haruki Murakami. O grande autor japonês relembra nesse texto um episódio em que ele e o pai abandonam juntos um gato naquele clima de pós-segunda guerra no Japão. Falando em Murakami, em fevereiro sai no Brasil o segundo volume do Assassinato do Comendador, que é um romance que foi resenhado pela grande crítica literária Leila Perrone Moisés na edição da 451 de janeiro e fevereiro.
¶ A Crise da Democracia Brasileira
A contagem regressiva já começou. Em 2022, o Brasil não só vai às urnas para escolher quem vai ocupar a presidência da República, mas também vai comemorar 200 anos de independência. Só que a nossa democracia, infelizmente, não está dando sinais de que vai chegar inteira até lá. Eu chamei aqui dois observadores muito finos do Brasil contemporâneo.
o Paulo Roberto Pires, que é colunista da revista 451, e a Ângela Alonso, que é professora da USP, pesquisadora do SEBRAP, colunista da Folha de São Paulo, e publicou na edição de dezembro da 451, que está agora nas bancas e na casa já dos assinantes, Um texto é sobre o Roger Scruton, esse grande intelectual britânico conservador, é um defensor do pensamento conservador.
E a Angela fez pra gente uma arqueologia ali de como é que o Brasil acabou sendo um pouco contaminado por essa doença infantil do conservadorismo. É isso mesmo, Angela? Eu acho que a gente no Brasil, no debate mais contemporâneo, tem tratado esses autores muito na linha do Olavo... com um rebaçamento intelectual.
E nem todos os autores que influenciaram os nossos, e mesmo nem todos os nossos conservadores, são assim tão indigentes intelectualmente. E quando você lê esses que são mais sofisticados... argumentos vêm na sua interesa, né? Eles são mais justificados, eles têm menos o caráter de juízo de valor, que eu acho que tem muito no nosso debate. Ao meu lado aqui também está o Paulo Roberto
¶ Defesa da Polarização e Papel da Oposição
Todo mundo conhece, da própria revista 451, da qual ele é colunista. E entre as colunas mais recentes do Paulo, ele publicou um texto chamado Em Defesa da Polarização. Era isso mesmo, Paulo? Isso é uma brincadeira de como você usa o lugar comum e como você está resolvendo tudo por essa chave. O meu argumento sempre é se você se colocar frontalmente contra o que está sendo proposto e feito por esse governo é polarizar, então nós estamos polarizando é pouco.
Porque conversa a gente tem com quem tem argumento. Com quem não tem argumento é pau, não é conversa. Eu acho que tem dois vícios nos comentários, que são muito... Primeiro, a polarização. E o outro é dizer assim, mas a oposição...
Por que que em determinado momento jornalista e intelectual esqueceu que oposição não é oposição parlamentar só? Que ao escrever num jornal, ao escrever numa revista, você pode exercer oposição. Por um lado, tem os intelectuais, parece que tá alheio, os estudos continuam fechados. dentro da universidade, que não é o caso da Angela Alonso. E, por outro lado também, tem o colunista jornal, fica oposição, oposição, oposição, porque ele não se considera oposição, porque ele não se considera jogador.
do jogo político. Mas, Ângela, você um pouco no seu artigo faz uma certa arqueologia desse pensamento que entrou no Brasil. Como é que apareceu essa turma aí?
¶ Falhas da Esquerda e Direita Democráticas
tanto os ultraconservadores quanto o outro extremo da esquerda, eles, na verdade, são numericamente pequenos em situações normais de temperatura e pressão. Quer dizer, quando as democracias estão funcionando bem, você tem um espectro. de gente distribuído mais no meio do caminho, né? Uma esquerda democrática, uma direita democrática, um centro.
O que a gente está vivendo, na verdade, acho que a gente precisa considerar um pouco por esse lado também, da falência de uma esquerda democrática em persuadir o centro, sobretudo, da necessidade de seguir com política. de correção de desigualdade, por exemplo, e de expansão de direitos, respeito a identidades, etc. Mas, também, do outro lado, a direita democrática também falhou, porque ela perdeu a...
desse campo para esse pessoal que não é orientado pelas ideias conservadoras clássicas e classudas, mas por uma espécie de simplificação grosseira. É, no seu texto... 451, você em parte explica a coisa pela questão geracional. Você fala, bom, tem uma geração aí que foi cevada. pelas políticas da esquerda, com politicamente correto, políticas afirmativas de diversas naturezas. E aí haveria uma resposta.
Eu acho que teve durante bastante tempo no debate público a predominância da desigualdade como grande tópica, se a gente for olhar os anos Lula, sobretudo. Mas depois, já no final do Lula e para Dilma... A esquerda migrou muito para a temática das identidades. Isso aconteceu aqui, mas aconteceu meio que no mundo todo. E não é por acaso que o discurso bolsonarista é um discurso que apela para a sexualidade, porque foi a grande top...
na qual a esquerda centrou fogo. Então, muita gente mais velha... Não assimilou isso bem, ficou um pouco incomodada, desconfortável. Agora, os jovens que estão chegando agora nas universidades, eles não têm o medo que a nossa geração tinha de um regime militar. nem de hiperinflação isso não é um fantasma pra eles, porque eles nunca viveram não conheceram pessoas que sofreram tortura como nós conhecemos exatamente, pra eles tudo isso é uma narrativa
Só tem Bolsonaro e só tem o que a gente tá passando porque não teve general preso, né? Então, se não aconteceu isso...
¶ Corroendo a Vida Política e Direitos
Pode ser homenageado torturador. A esquerda não soube falar com essas pessoas, né? Tem uma complicação extra aí, que é o papel importante das igrejas evangélicas também. Eu fui a uma reunião no final do ano passado, de esquerda e de várias coisas, e a reunião foi aberta por... Quatro meninos de 20 anos, de favelas, cariocas, todos ativistas, né? E o mais contundente de todos, ele começava a dizer assim, eu sou evangélico de esquerda e vocês não estão lá, não. Retomo a minha discussão.
Quem que a gente tem que conversar e quem não tem que conversar? Eu acho que nós, eu e você e Ângela, nós... Jamais concordaremos com pessoas que a gente nunca concordou, nem por isso a gente brigou até hoje. E o objetivo disso tudo, eu acho mesmo, é corroer e acabar com a vida política, com a possibilidade de conversa.
Pra que os nostálgicos da ditadura consigam restituir. É isso que se persegue. Eu não tenho a menor dúvida. Você acha que isso aí tá rolando mesmo? Então nós estamos num processo de perda de direitos que pode culminar na perda do... o direito ao habeas corpus, por exemplo. Claro. E uma das coisas irritantes de um certo tom do debate é toda vez que se adverte sobre isso, é assim, ah, está exagerando.
Alguns coloristas estão dizendo que há um exagero desde a eleição do Bolsonaro. Olha o que aconteceu. desde a eleição do Bolsonaro para cá. Antes se dizia, não é preciso ser profeta, o que é pior é o que ele autoriza. Olha o que aconteceu de lá para cá em termos de violência, olha o que as polícias já fizeram.
Esse é só o que está possível. Você está corroendo a credibilidade de instituição, está corroendo o papel das instituições para garantir mesmo o direito fundamental. E aí, quando abre o bueiro, vem tudo, né? Mas quem está morrendo? Quem está morrendo é preto e pobre. E é mesmo. Sempre foi assim.
mas agora está morrendo em grande escala. E toda essa história de Paraisópolis, você vê que as tentativas de defender a polícia são revoltantes. Ângela, e você como analista política, a gente está agora, então, começando um ano novo, daqui a algumas semanas.
¶ Prognóstico e A Nova Política
Qual o seu prognóstico aí, para o que nos espera? O político brasileiro se tornou, assim, de uma imprevisibilidade que é da própria natureza das crises, né? O que as crises fazem é produzir alta incerteza. Num universo ideal, a gente... teria coalizões pros dois lados, né? Não sei se isso vai acontecer. Agora, esse monte de candidato extra-sistema, ela também tem o seu prazo de validade. Os partidos estão num processo agora de se reorganizar e de tomar pulso de novo do processo.
Não sei se todos esses candidatos de fora do sistema político vão realmente conseguir se lançar. Esse fenômeno da Luciano Huckização, vamos dizer assim. Como você enxerga esse movimento aí do Huck? Não vou falar só dele, mas de todos esses processos. que se auto-intitulam de renovação da política a partir da sociedade organizada. Como eu chamei atenção no artigo, o que os conservadores fazem
é também sociedade civil. Você mostra vários pontos em comum do discurso da esquerda com o discurso conservador. É interessante isso. Exatamente. Então, esse negócio de que vai fortalecer a sociedade é um jeito pelo qual certos grupos vão monopolizar... monopolizar recursos, recursos de formação de quadros, fomento a campanhas. Então, eu não sou simpática a esse processo, nem à esquerda, nem à direita. E se você for olhar aqui em São Paulo, onde o...
Observei mais essas associações. Elas são formadas por gente branca, de classe média alta, com recursos educacionais. Então, elas não são representativas da sociedade. Não sei se você chegou a ler o artigo do Armínio Fraga na revista Novos Estudos, Cebrap, sobre a desigualdade. Como você vê esse encampamento dessa questão por um quadro como ele? Ele estudou o assunto e ele apresenta uma...
uma equação. Eu não concordo com todas as soluções que ele apresenta, mas eu acho da maior importância um liberal e alguém que já passou pelo governo, então não é um liberal assim, abstrato, né? Primeiro, que seja capaz de dialogar com outros. setores que a gente está precisando muito e depois que coloque de frente esse problema que eu acho que é o maior problema da sociedade brasileira. Eu acho esse reposicionamento dele muito importante. Eu espero que outros como ele venham para esse campo.
Eu acho que o Armínio é um excelente exemplo disso. Há diálogo. Há diálogo. Você pode conversar indefinidamente com ele, porque você tem um nível de elaboração e de reflexão que... Pelo amor de Deus, né? Quem sabe por aí a gente não está enxergando algum caminho de diálogo. É isso aí que a gente está fazendo aqui no podcast e também a Novos Estudos Cebrap, que é essa revista importantíssima do Cebrap, que é o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
A sua última edição traz esse artigo do Amino Fraga sobre desigualdade e eu queria convidar vocês também a ler a última edição da revista Serrote, da qual o Paulo Roberto Pires é editor. que está com uma edição memorável, traz um dossiezinho no começo ali, com quantas perguntas? Nove perguntas. Uma coisa de propor artigos, perguntas que o Brasil...
Tem que responder. Então, quem ri do racismo? A quem interessa a prisão está cheia? Quem precisa de uma arma? O intelectual pode ficar em silêncio? Que é a pergunta para o Milton Arthur. Perguntas, provocações, respondidas. O ressentimento chegou ao poder. respondidas com ensaios cultos de tópicos do momento. Que eu acho que acabou fazendo um painel razoável de algumas das questões que estão agora. Muito bem. Muito obrigado a vocês dois pela presença aqui no podcast. Obrigada.
O livro do Roger Scruton, que foi resenhado pela Ângela Alonso na edição de dezembro e janeiro da 451, se chama Conservadorismo, um convite à grande tradição. A tradução é da Alessandra Bonhoquer, e a editora é a Record. E se vocês quiserem nos ajudar a realizar esse programa, que é mantido pelos leitores da 451, faz uma assinatura da revista.
A edição de dezembro e janeiro já está circulando. É uma edição especial de verão que tem o dobro do tamanho normal. É um almanacão de férias que traz um especial sobre distopias com 19 distopias que foram publicadas no Brasil em 2019. Tem um texto incrível, inclusive, da Luísa Geisler. E também a nossa esperada lista de melhores livros do ano. E pela primeira vez, a 451 vai ter uma edição em janeiro.
Até agora a gente fazia um recesso de dois meses e só voltava a circular em março. Então em 2020 a revista vai ter 11 edições em vez de 10. Então vai lá e assina agora mesmo o Plano Assinante Associado. Custa só R$ 23,00 por mês. E assim você recebe a edição impressa em casa e ainda ajuda a gente a fazer o podcast. E se você for um entusiasta do projeto...
você pode fazer uma assinatura entusiasta, que custa 451 reais por ano. Como sair dessa enrascada em que a gente se meteu? A resposta, por incrível que pareça, talvez esteja no nosso antigo colonizador.
¶ Portugal: Exemplo de Convivência Política
Portugal conseguiu aquilo que parecia ser impossível. Escapou da radicalização, do populismo, de muitos males que parecem contagiar o mundo todo e inventou um jeito diferente de governar, criando um espaço de convívio civilizado na política. É um jeito tão diferente de governar que o nome que foi dado a essa coalizão de esquerda que foi criada em 2015 para impedir a direita de governar é Geringonso. Ela ajudou a tirar o país de uma crise econômica muito séria.
E também iniciou um ciclo de prosperidade e autoastral no país, que quem já foi a Portugal recentemente pôde comprovar. E agora, nessas eleições legislativas de outubro, os parlamentares que formam a Geringonça venceram de novo. Parece que a experiência vai ficar de pé, mas alguns problemas já começaram a surgir. Eu estive com Ricardo Araújo Pereira, ou RAP, como ele é conhecido em Portugal, em outubro, em Lisboa,
para conversar com ele sobre a geringonça, sobre política portuguesa e também um bocadinho de política brasileira. Eu estive com você assistindo você agora há pouco no Festival de Óbidos e você se apresentou para ninguém menos que o presidente da república. que estava ali de surpresa, não sei, você sabia que ele ia estar lá? Não, eu não sabia. Que coisa mais civilizada, Portugal está mostrando alguma coisa diferente para a gente, pelo menos no Brasil, né? Sim, há algumas diferenças bastante...
claras entre o nosso presidente e o vosso, parece-me, sim. A gente está assistindo um espetáculo que, para o Brasil, é de fazer inveja, essa harmonia, pelo menos em comparação ao que a gente tem visto no Brasil e em outros países da Europa, em que... Uma tal geringonça parece que vai permanecer no poder. O que é geringonça? Explica para quem não está sabendo. O que aconteceu foi o seguinte. Portugal teve uma bancarrota ali em 2011.
E, nessa altura, o governo, que era socialista, caiu e houve eleições. E Portugal foi... O vocabulário que eles usaram era resgatado. foi resgatado por uma troika, os organismos do costume quando vêm intervir sobre um país que está na bancarrota. e eles impuseram aquilo que ficou conhecido mundialmente como medidas de austeridade, ou seja, cortar salários, cortar pensões.
Investimentos públicos. Exatamente. E essas medidas foram bastante duras e foram aplicadas por um governo de maioria de direita. E depois, em 2015, houve eleições novamente e essa coligação...
embora tenha sido a mais votada, não obteve maioria absoluta no Parlamento. E então o que aconteceu foi que os partidos de esquerda, quebrando uma tradição de décadas de não se entenderem, aliás, de serem inimigos... muito intensos, digamos assim, eles, para evitar que a direita continuasse no poder, estabeleceram uma espécie de acordo frágil, por isso é que se chamava geringonça, mas um acordo...
periclitante, em que o segundo partido mais votado, que era o Partido Socialista, é que formou governo, com o apoio parlamentar nas horas decisivas. de outros dois partidos, do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Esse governo provavelmente foi habilidoso da parte do Primeiro Ministro, o António Costa, o secretário-geral do Partido Socialista.
porque ele teve de satisfazer, ao mesmo tempo, algumas exigências dos partidos à sua esquerda, ao mesmo tempo que não desiludia as expectativas da União Europeia sobre o controle orçamental, etc. Portanto, embora este governo tenha devolvido os rendimentos que o governo anterior tinha caçado,
Ele não fez o investimento público que a gente espera que um governo de esquerda faça nos serviços públicos, na saúde, na educação, etc. Antes, pelo contrário. E isso... seria e foi um foco de tensão, mas teria sido um foco de tensão muito maior se os partidos de esquerda... como, por exemplo, o Partido Comunista Português, que tem uma fortíssima implantação nos sindicatos, por exemplo, não tivesse feito algum esforço para manter alguma paz social, para...
Então está todo mundo se esforçando para que a coisa funcione de alguma maneira. Esteve até este ano em que houve outras eleições. O Partido Socialista reforçou a sua votação, embora não tenha conseguido obter maioria absoluta. Mas já foi o partido mais votado. E, portanto, neste momento acho que voltámos aos bons velhos tempos em que há uma tensão, há uma clara fratura entre o centro-esquerda e a esquerda e é possível que a esquerda não vá apoiar tanto como o fez.
Até aqui também é possível que o PS, que o Partido Socialista, não vá... digamos, aproximar-se tanto como o fez até aqui dos partidos à sua esquerda. Bom, você está falando com muito conhecimento de causa, inclusive porque você é um cara que está metido na política portuguesa até a raiz dos cabelos. Você tem uma vida...
partidária, você é afiliado ou não é afiliado? Não fui, eu fui quando era novo. Mas você, enfim, não esconde a sua posição política? Não esconde, sim, isso não esconde. Há pessoas que às vezes dizem mas não escondendo... não temes alienar uma parte do público. E se há público que deixa de querer ver-me, porque eu não voto no mesmo partido que eles...
E se é público, a partida não interessa, não é? Eu fui militante do Partido Comunista muito brevemente, quando tinha, sei lá, entre os 24 e os 27, ou assim. Mas na altura em que eu era militante do Partido Comunista, a minha avó era... A minha avó dizia, quando a minha mãe deu-lhe a notícia, que eu me tinha inscrito como militante do Partido Comunista, a minha avó fez um silêncio e disse, mas ele é bom rapaz.
E, portanto, até a minha avó, que não tinha nada, antes pelo contrário, a ver com a esquerda, dizia, sim, está bem, pronto, paciência. E, portanto, é disso. É isso que eu espero do público também, é que tenha a mesma generosidade. A avó do Ricardo Araújo Pereira não é só um exemplo de cidadã tolerante que aceita a existência de opositores políticos. Ela também ajudou a fazer dele um humorista.
Você foi criado por ela, é isso? Sim, sim, exatamente. E ela era uma viúva. Era uma viúva à antiga. E, portanto, basicamente, para uma pessoa como ela, isso significava que a vida, em certa medida, tinha acabado, aos 39 anos. E foi isso. Ela não tinha muitas razões para a alegria. O ambiente era bastante lúgubre lá em casa. E sendo a pessoa mais importante da minha vida, a tarefa de fazer com que ela se alegrasse era uma que eu levava a sério. E foi isso, basicamente foi isso. Eu acho que é...
O que aconteceu de bizarro na minha vida foi que eu passei a infância a tentar fazer rir uma velhota. Nessas últimas eleições portuguesas, as que mantiveram viva a tal da geringonça, o Ricardo apresentou todo dia um programa na TV sobre a disputa.
Como é que se chama? Chama-se Gente que não sabe estar. Gente que não sabe estar. É um nome maravilhoso. Eu gosto quando o verbo estar é usado assim de forma intransitiva. É um programa de sátira política que está em cima da atualidade e que na altura das eleições tem... um convidado que é um dos candidatos. Há uma fina linha ali entre provocar o convidado com alguma coisa que dê vontade de rir à plateia. Normalmente a pergunta é uma piada com um ponto de interrogação no fim.
mas que lhe dê espaço para que ele me provoque de volta também. É isso aí. Crítica social e política sem perder a capacidade de diálogo. Dá para tirar daí um aprendizado também. O Ricardo é um organizador de uma coleção de literatura e humor que é sensacional, publicada pela editora Tinta da China. Dá pra sair agora mesmo no Brasil.
um livro dele com as crônicas publicadas na Folha de São Paulo, com o título Estar Vivo Aleija. E agora que a gente fez um mergulho nesse jeito de fazer política de uma forma mais construtiva que a nossa, e entendeu as origens da tal da geringonça, Vamos dar um passo além e conhecer os dilemas dessa aliança. Alguns dias depois, eu voltei ao estúdio Lisboeta para conversar com dois debatedores pesos pesados. Um deles é o Rui Tavares, que é um historiador que fundou um novo partido...
O Livre, que tem uma plataforma de centro-esquerda, que defende o meio ambiente, a União Europeia, os direitos humanos e outras pautas progressistas. Portugal acaba de passar por um processo eleitoral que... confirmou essa improvável aliança entre uma esquerda historicamente fragmentada, que é o que se chamou geringonça. A geringonça foi ratificada, então, é isso? Bem, é assim, até estas eleições...
O panorama político português era um panorama muito peculiar. Portugal acaba por ter até, apesar da sua história de pobreza, de atraso, de subdesenvolvimento, hoje em dia... em certas coisas é um pouco parecido com o que seria a Holanda ou a Dinamarca ou a Bélgica aqui há uns anos. Ou seja, um país genericamente progressista em que até a direita é, de certa forma, uma direita que não se pode confundir
de ir com a direita mais nacional populista dos Estados Unidos ou do Brasil, e ainda por cima um país relativamente pequeno, muito mais convivial. E aí entra a história da geringonça, o que faltava a Portugal até há pouco tempo, até há quatro anos. não dava para fazer uma coligação, não dava para fazer o tipo de procedimento político comum.
que se fazia à direita. A direita fazia governos junta, apoiava os orçamentos de Estado, os partidos da direita de uns aos outros. À esquerda, a regra era o secretarismo e a falta de diálogo. Então, a geringonça foi uma improvisação. Eu não sei se geringonça é uma palavra que eu creio que ocorre no português brasileiro. Mais rara, mas acho que o mais comum é gambiarra, não é? Portanto, aquilo...
A geringonça é uma gambiarra. É aquela coisa que a gente constrói improvisadamente, apressadamente, com um arame, uma chiclete, uma mole, etc. O que é que aconteceu nestas eleições? mesmo esse grau de formalidade improvisada de há quatro anos, a tal gambiarra, não se reedita daquela forma. E, portanto, é como se a gente tira a sua rama, a chiclete e a corda...
Mas a gambiarra não saiu do lugar. Enquanto for assim, vai durando. O grande vencedor da eleição de outubro foi o Partido Socialista, o maior do país. E esse destaque já começa a trazer problemas para o funcionamento da geringonça. Algumas siglas menores, mas muito importantes para sustentar esse arranjo, como, por exemplo, o Partido Comunista perderam espaço.
e já mostram insatisfação com o compromisso excessivo do governo com as metas econômicas europeias, que acabam restringindo os investimentos públicos em programas sociais. Ou seja, nada indica que as coisas vão ficar exatamente do jeito que estavam. Também não podemos dizer, embora a geringonça formalmente ela não continue, se a gente perguntar a esses partidos de esquerda, ok, tudo bem, vocês não têm um acordo com o Partido Socialista, mas digam uma coisa, vocês estão na oposição?
eles também não dirão que estão na oposição. A oposição continua a ser só à direita. É como se a gente... Então, na prática, vota com o governo. É uma espécie de uma geringonça quântica que vai existir ou não existir, dependendo das situações. A direita está numa enorme crise, a direita em Portugal só tem um terço dos votos dos portugueses, quer dizer, pouco mais de um terço. A esquerda teve 63% dos votos.
Portanto, alerta aos brasileiros, principalmente mais bolsonaristas que vêm procurar Portugal como local de residência. Venham, mas venham conscientes de que vêm viver para um país... Paraíso socialista com apoio dos comunistas. Sim, Casar, eu acho que, segundo o espectro normal da direita brasileira, um país completamente perdido para o comunismo. Portugal é a Cuba da Europa. Venham conscientes...
cientes disso. No entanto, é um país que tem conseguido crescer acima da média europeia com um assinalável grau de coesão social, cultural, de convivialidade.
¶ Diálogo e Desafios da Convivência
Nós estamos a viver coisas, não só em Portugal, mas em todo o mundo, que naturalmente são perturbadoras. O que há é, no fundo, dois caminhos diferentes. Um caminho de uma polarização destrutiva. e um de uma polarização construtiva. Não acho possível a gente avançar sem alguma polarização. O que é que eu chamo de uma polarização destrutiva? É quando a gente acha que a pessoa do outro lado da política é...
não só alguém que discorda de mim, mas como alguém que é ilegítimo na política. Isso no Brasil ocorre. Fala-se sempre em eliminar o adversário. Eliminar o adversário, qualquer concessão ao adversário é entendida como uma traição. Qualquer político ou política que, mesmo na nossa área política, tenha...
comunicação com os outros também é imediatamente excluído e tratado como um traidor ou uma traidora e, portanto, tudo entra logo num vocabulário do é indigno, é humilhante, é inaceitável e tal. Essa polarização, eu acho que ela... destrói as sociedades. Portugal tem tido a sorte, talvez, mas também talvez algum saber, e isso ajuda o país a...
a não ser dilacerado nas guerras culturais. O Rui Tavares é autor de, entre outros livros, esquerda e direita, guia histórico para o século XXI, lançado em Portugal pela tinta da China. A ideia desse guia é trazer justamente debates entre intelectuais que costumam discordar entre si. O Rui, que já foi eurodeputado, chama a atenção também
para o fato de que, num ambiente político saudável, as pautas que mais perdem espaço são as da guerra cultural, exatamente aquelas que mais mobilizam a direita mais reacionária. Eu fui muito ao Brasil entre 2000 e 2010 e fui cinco anos depois, em 2015. o país que eu encontrei não tinha nada a ver com o país que eu tinha deixado. De repente, um país no qual a política não era o tema principal, mais relevante das conversas ali à hora do churrasco...
Passou a ser o único tema e depois passou a ser aquele tema que impedia com que o churrasco se fizesse. Acho que há duas maneiras da gente olhar para o plano cultural. Um... é nessa lógica destrutiva da inimizade, da indignidade, da humilhação, do cancelamento do outro, etc. Outra é a gente encontrar histórias de convivialidade. Nós temos que encontrar ferramentas de convivialidade.
Porque, ao resto, toda a mudança tecnológica está a dilacerar a gente. E, portanto, vamos ter que inventar umas gambiarras, lá está, para continuarmos a conviver. Essas ferramentas de convivência não precisam trazer grandes inovações. Uma delas, na verdade, é bem antiga, um bom relacionamento com a imprensa, mesmo quando ela critica o governo. A liberdade de imprensa parece um ingrediente mais do que óbvio para uma democracia funcionar de maneira saudável.
Mas vamos lembrar o que está acontecendo do lado de cada Atlântico, com o Presidente da República em campanha aberta contra os jornais, principalmente a Folha de São Paulo. Vem daí a importância de fazer a assinatura de um jornal ou de uma revista independente como a 451.
Assim como no governo Sombra, na editora Tinta da China, no jornal público e em outros espaços em que a democracia portuguesa está acontecendo a todo vapor, a 451 procura fazer com que vozes discordantes convivam numa mesma publicação. O Rui conversou comigo e com o Pedro Mechia, que é poeta e crítico literário, e representa a ala conservadora de centro-direita no programa Governo Sombra, em que o Ricardo Haroldo Pereira representa a esquerda.
Você, Pedro, participa desse programa que é muito popular em Portugal, chamado Governo Sombra, que reúne quatro comentaristas. Cada um de uma posição. Foi Ricardo Araújo Pereira, que já foi até filiado ao Partido Comunista no passado. E você, que se identifica mais com o conservadorismo. Uma anedota, uma história que eu acho muito saborosa dessa convivialidade é aquela do seu companheiro de programa, o João Miguel Tavares, que foi...
provocar o primeiro-ministro por causa de um feriado que ele criou? Na verdade, ele tinha escrito um artigo protestante porque o governo tinha reposto muitos feriados que tinham sido... cancelados no governo anterior, supostamente por causa da produtividade do país, e um desses esfriados que foi reintroduzido...
que significou que muitos pais, incluindo o meu colega de programa, João Miguel Tavares, ficou com os filhos em casa, no feriado, e não tinha como tomar conta deles nesse dia, e então, de certa forma, desafiou o Primeiro-Ministro para tomar conta dos filhos dele, e o Primeiro-Ministro assim fez. O Primeiro-Ministro convidou os filhos do João Miguel Tavares que foram para o Palácio de São Bento, residência do Primeiro-Ministro, e tomou conta dos filhos de eles.
que foi evidentemente uma forma de destrunfar um adversário político ou um comentador adverso, mas também muito significativo de um certo ambiente português. Para ilustrar aqui para o ouvinte brasileiro, seria como se em plena era Lula, o Diogo Mainardi deixasse o filho dele por uma tarde no Palácio do Planalto com Lula e Dona Marisa tomando conta. Acho que há duas coisas que atenuam um bocadinho essa perspectiva que eu percebo que vindo de um brasileiro é uma perspectiva muito...
otimista sobre o espaço público português. Eu vou introduzir, como é meu costume, aliás, duas notas mais pessimistas, por duas razões. Uma, porque eu acho que, embora, por exemplo, na chamada opinião publicada... Portanto, nos comentadores e nas discussões nas rádios e nas televisões há um grau de civilidade muito apreciável.
Não me parece, e eu sou muitíssimo crítico das redes sociais, não me parece que nas redes sociais o tom de civilidade seja de todo o mesmo. E parece-me que, aliás, as redes sociais propiciam a resposta imediata, a escalada verbal. do radicalismo, aliás, para mim foi absolutamente fascinante ver as pessoas que incensaram as potencialidades políticas nas redes sociais para a eleição do Obama ficassem horrorizadas com o papel das redes sociais na eleição de Trump.
Pelos vistos, as redes sociais em si mesmas não são nem progressistas, nem reacionárias, nem coisa nenhuma, mas potenciam várias coisas e potenciam potencialmente. os extremismos. Mas eu acho que sobretudo que degrada, que eu acho que começou com o Berlusconi, na direita europeia e na Europa, se calhar, que é vermos líderes políticos aportarem-se de forma... digamos, inaceitável, em público, inapresentável, fazendo gestos e utilizando linguagem que não é digna do espaço público.
Isso hoje, temos um presidente dos Estados Unidos que é virtualmente inimputável, pode dizer o que quiser utilizar a língua. Eu acho que isso não pode deixar de ser uma erosão da acessibilidade no espaço público que deriva certa televisão.
e que deriva em partes das redes sociais, sem as querer demonizar. Tem coisas ótimas, eu não vou dizer, as redes sociais são isto. Não é isso que eu estou a dizer. Estou a falar de um aspecto específico em que elas parecem que foram nocivas. As famílias aqui usam o WhatsApp?
A grupo de família, porque isso foi um dos fenômenos do Brasil. Eu acho que menos do que o Brasil. Não com essa intensidade, penso eu. Falando de um lado diferente do espectro ideológico, o Pedro Mechia concorda que a experiência da geringonça...
deixa um legado para as relações partidárias em Portugal, que vai muito além da esquerda que a formou. Mas aí ele chama atenção para o que ele considera um erro estratégico da esquerda na política de hoje. Arrogância ao lidar com o eleitor do lado oposto. É verdade que há mudanças. Algumas mudanças são positivas, outras são negativas. Várias delas são difíceis.
muitas são particularmente difíceis para pessoas que não têm a idade, ou os instrumentos, ou a educação, ou seja, o que for, para lidar com essas mudanças, fazer uma espécie de condenação genérica dessas pessoas, como uma espécie de horda de brutos. Isso parece-me um impulso fundamentalmente antidemocrático. Mas eu acho que alguma parte da esquerda reagiu com uma espécie de altivez.
às vezes social, de status, em relação a esse levantamento que houve um bocadinho por todo o lado, no Brasil de uma forma diferente, nos Estados Unidos de uma forma diferente. Como dizem, a maioria dos brasileiros são fascistas. Não faz sentido. Por já, não pode ser verdadeiro. factualmente. E depois não é verdadeiramente a maneira de discutir política desvalorizar o nosso adversário. Isso realmente é assustador e parece-me que é uma atitude que pode ter contribuído para alguns desses fenómenos.
E assim como Pedro, o Rui quis deixar bem claro que dá trabalho construir o bom convívio entre forças ideológicas diferentes. E nisso, grande parte da responsabilidade ou da culpa cabe às lideranças partidárias. A tal convivialidade não é uma coisa... natural, tem que ser fruto de um ato consciente, continuado, de cultivar essa convivialidade. Nós nascemos numa época em que Portugal era polarizado entre crianças, brincávamos.
e insultávamos uns aos outros utilizando expressões políticas. Como é que você xingaria o Pedro? O Pedro era fascista imediatamente. E o que é que tudo isso aí tem a ver com essa outra geringonça aqui chamada Brasil? 2020 já está aí, com as eleições municipais. E antes disso tem o Natal e o WhatsApp da família para a gente enfrentar. Então aqui ficam votos de que algo das ideias de bom convívio na política portuguesa possam circular por aqui também.
Fica como um desejo natalino, vai? Eu, às vezes, até que acredito em Papai Noel. E assim, este décimo e último episódio de 2019 do 451MHz fica por aqui. Então eu vou pedir licença e vou dar prosseguimento à minha longa lista de agradecimentos por esse primeiro seis meses de 451 MHz. Eu quero agradecer a toda a equipe da Novelo. Branca Viana, Paulo Scarpin, Evelyn Argenta, Aline Scudeler, Vitor Hugo Brandalize, Kellen Moraes, Ana Beatriz Ribeiro, Flora Thompson Devoe e Guilherme Alpendre.
Muito obrigado pelo alto astral de vocês, pelo rigor e pelo profissionalismo. Eu preciso agradecer aos nossos anunciantes. Bom, e muito obrigado também, é claro, obrigadíssimo, à equipe da 451. Júlia Monteiro, Mariana Chiraiua, Ashley Calvo, Paula Carvalho, Marília Kodik, Ilana Genicolo, Fernanda Diamante e Maurício Pulso. A gente realmente fez muita coisa em 2019. E o resultado está aí, na revista, no podcast, no site, nas newsletters que a gente envia para os assinantes.
E obrigado também aos queridos ouvintes do 451MHz, pela audiência que só vem crescendo, já são mais de 10 mil pessoas ouvindo cada um dos episódios. Se vocês quiserem enviar pitacos, comentários ou sugestões para a nossa temporada 2020, é só mandar pelas redes sociais da 451. A gente está no Twitter, no Face e no Insta. É só procurar 451 por extenso. A gente agora vai entrar num leve recesso e volta no comecinho de fevereiro.
Mas eu queria lembrar vocês que o nosso programa não fica velho. Se você pulou algum episódio, volta lá que eu aposto que vai valer a pena. O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo para a Associação 451. E eu sou o Paulo Werneck.
